Domingos Platónicos

 
4 Diálogos “on-line” sobre 4 obras de Platão
(21h00-22h30 GMT +1)
 
9/8 – O Banquete
16/8 – Fedro
23/8 – Fédon
30/8 – A República
 
Apresentação e resumo da obra seguido de diálogo socrático via “Zoom” moderado pelo Clube Filosófico do Porto. 
Não é necessário qualquer conhecimento de história da filosofia para participar.
 
Inscrições: clubefilosoficodoporto@gmail.com
(vagas limitadas)
 
 
Formas de Pagamento
MBway – 91 668 63 99
IBAN – PT50 0007 0000 0039 9182 6462 3
(aceitamos inscrição apenas após envio de comprovativo de transferência)

Valor: 50€

Identificação do Problema de Fundo

abismo - Wikcionário

Antes de podermos avaliar (e mesmo compreender) um qualquer raciocínio (uma informação, um argumento, um conselho, uma instrução, um aviso, etc.) temos em primeiro ligar de identificar de onde ele vem, ou seja, perceber a sua
intenção comunicativa, assim como o seu contexto, o seu campo argumentativo, por outras palavras, o problema de fundo que o antecede ou enquadra.
Por exemplo imagine-se o seguinte texto:

“Os telemóveis são um dos grandes problemas das sociedades actuais. Se por um lado são muito úteis em algumas situações laborais e sociais, por outro lado o seu uso indevido causa grandes constrangimentos, desde distrações, acidentes, afastamento social e familiar, etc. É por isso que…”

Muito frequentemente quem escreve algo num jornal, num anúncio, numa página web, ou quem simplesmente conversa connosco, tem um objectivo em mente: mudar a nossa percepção acerca das coisas ou mudar as nossas crenças acerca das coisas. Por forma a reagirmos de forma apropriada (crítica) a esses esforços de persuasão devemos
identificar aquilo a que aqui chamamos o problema de fundo desse raciocínio. De outra forma estaremos a reagir a uma versão distorcida do que temos pela frente. Estaremos a fazer uma má interpretação da comunicação pretendida e, no caso de um diálogo, não estaremos no mesmo “comprimento de onda” do nosso interlocutor, estaremos a falar de
coisas diferentes.
No exemplo em cima poderíamos estar perante um anúncio a aparelhos que minimizem os efeitos nocivos dos telemóveis, perante um dado estatístico acerca de acidentes de viação causados por telemóveis, perante um conselho
de um amigo para deixarmos os telemóveis em casa quando vamos jantar fora ou, ainda, perante um projecto de lei que pretenda proibir o uso de telemóveis em determinadas situações. Só seríamos capazes de identificar a intenção comunicativa do autor se continuássemos a ler após o “é por isso que…”. Se se tratasse de um anúncio teríamos de o avaliar tendo em conta questões como a verdade do que nos é dito, soluções alternativas ao produto proposto, o custo associado a essa solução, etc. Neste caso o problema de fundo seria sobretudo descritivo, ou seja, levantaria questões
acerca de certas descrições de eventos passados, presentes ou futuros. Essas questões seriam do género “São verdadeiros os números que nos apresentam?”, “Como é que o produto iria solucionar o problema?”, “Quem é que garante que iria ser assim?”, etc.
Mas agora imagine-se que o texto tinha sido retirado de um projeto de lei para proibir telemóveis em determinadas situações (eventos sociais, restaurantes, etc.). Neste caso o problema de fundo, além de descritivo (continuaríamos a ter de avaliar a verdade do que nos é dito) seria também normativo, isto é, levantaria questões acerca do que deveríamos fazer, de como o mundo deveria ser, ou seja tentaria convencer-nos acerca do que é bom e mau, correcto e incorrecto fazer. Aqui o problema de fundo seria moral, ético ou político e levantaria questões como “É legítimo limitar o uso de
telemóveis desta forma?”, “Que valores estão aqui em confronto (liberdade de expressão; segurança; privacidade, etc.)?”, “Quem o pode fazer?”, etc.

Segundo Browne e Keeley, esta distinção entre temas descritivos ou normativos nem sempre é clara e por vezes será difícil perceber que tipo de questões temos pela frente. Mais difícil ainda será chegarmos a um acordo sobre quais os
reais problemas de fundo da comunicação em causa (quais os valores em confronto, qual a intenção comunicativa, etc.), mas é essencial termos estas distinções bem presentes pois o tipo de avaliação crítica que fizermos irá depender do tipo
de assunto (ou problema de fundo) que temos pela frente.

Em Glossário de Pensamento Crítico e Argumentação

8 Regras para Dialogar

Dialogue Activities for ESL Students

Oito Regras para Dialogar

1 – Apresentar a nossa ideia de forma clara

2 – Defender a nossa ideia com razões

3 – Praticar a Escuta e a Dialéctica (crítica)

4 – Dar exemplos e procurar contra exemplos

5 – Arriscar Hipóteses

6 – Procurar outras perspectivas

7 – Perguntar e questionar

8 – Aceitar mudar de posição.

 

Oito Regras para Dialogar

Com estas regras pretendemos apresentar o Diálogo como um jogo em que todos podem participar desde que cumpram determinadas regras bastante simples de se seguir.

Como qualquer outro jogo este também tem as suas regras próprias que se não forem cumpridas não nos permitem jogar, neste caso dialogar.

Por exemplo, se estivermos a jogar ténis e não respeitarmos os limites do “campo”, se deixarmos a bola bater no chão mais que uma vez, se deixarmos o nosso adversário a jogar sozinho enquanto nos entretemos a bater bolas contra a parede sozinhos, ou se procurarmos atingir o nosso adversário com a raquete quando ele procura servir, se fizermos alguma dessas coisas, não estaremos a jogar ténis, estaremos a fazer outra coisa qualquer. As regras do ténis libertam os jogadores para jogar ténis, da mesma forma as regras do diálogo libertam-nos para pensar.

Serena Williams got handed an easy ride at Wimbledon — and 1 of ...

Por exemplo, durante um diálogo, se gritarmos com o nosso interlocutor, se o procurarmos convencer pela força, se não compreendermos o que ele nos diz, se não o procurarmos convencer racionalmente das nossas razões, então não estaremos a dialogar, estaremos a fazer outra coisa qualquer.

Da forma como eu vejo o “Jogo do Diálogo”, quer o pratiquemos sozinhos a ler um livro dialogando com o seu autor ou em grupo a conversar com os nossos amigos, as suas regras são as regras do diálogo racional entre pessoas bem intencionadas e bem educadas. Como em qualquer outro desporto também aqui a batota e a falta de “fair-play” não devem ser permitidas.

Seguem-se aquelas que considero serem as 8 regras básicas do “Jogo do Diálogo”

1 – Apresentar a nossa ideia de forma clara

Este é o primeiro passo que devemos dar para jogar este jogo, i.e., para iniciarmos um diálogo. Ao apresentarmos de uma forma clara a nossa opinião sobre um determinado problema estamos a comprometer-nos com uma determinada posição, saindo assim do conforto de uma posição neutra que não se engana porque nada diz ou de um relativismo que quer abarcar tudo sem, no entanto, se comprometer com nada. Sem esse comprometimento com uma determinada posição o pensamento não avança. Além de que nada nos impede de, mais à frente no jogo, voltarmos atrás e mudarmos de posição (ver regra 8).
Num Diálogo é muito comum as
pessoas quererem falar apenas “por falar”, ou seja, sem terem uma contribuição pertinente para o diálogo. É importante que nestes casos tentemos subtilmente incentivar os interlocutores a se escutarem mutuamente e a pensarem bem antes de falar não se limitando a esperar pela sua vez para falar.

2 – Defender a nossa ideia com razões

É aqui que uma opinião se torna num argumento e mostramos aos nossos interlocutores (que podemos ser nós mesmos) porque é que defendemos o que defendemos. Enquanto não o fizermos os outros não têm qualquer motivo para acreditar em nós.
É esta apresentação das razões por parte de quem defende uma determinada posição que permite aprofundar o jogo do diálogo. A partir daqui podemos analisar as razões apresentadas, verificar a pertinência da sua ligação à tese que pretendem defender, encontrar os pressupostos de que dependem, etc.
É neste ponto que o autor da ideia “abre o flanco” da sua posição expondo-se à análise, às perguntas e, até às críticas dos outros. É aqui que verdadeiramente começa o diálogo e é aqui que este se distingue de um monólogo e da simples “conversa da treta”.

3 – Praticar a Escuta e a Dialéctica (crítica)

Não faz qualquer sentido apresentar as razões de um argumento se aqueles que jogam o jogo não fizerem um esforço para verdadeiramente as compreenderem.

Escutar os outros é diferente de simplesmente os ouvir respeitosamente. Escutar implica compreender profundamente o que dizem e porque o dizem. Só depois de verificarmos se realmente compreendemos as razões em jogo estamos autorizados praticar a dialéctica e a criticar essas razões caso não concordemos com elas.

4 – Dar exemplos e procurar contra exemplos

Um exemplo ajuda-nos, por um lado, a clarificar aquilo que defendemos dando-nos um episódio ou facto concreto onde os nossos conceitos se aplicam. Ao fazê-lo estamos também a aproximar o raciocínio (tendencialmente abstracto) das nossas vidas (tendencialmente concretas). Estamos, dessa forma, a dar um conteúdo “mais próximo de nós” aos nossos conceitos o que nos ajuda a perceber melhor a importância do pensamento abstracto nas nossas vidas.

Por outro lado, a discussão de ideias gerais leva-nos frequentemente a fazer generalizações e isso leva-nos, por sua vez, a procurar condições para determinados conceitos e ideias.

No esforço de ensinar os nossos alunos a tornarem-se pensadores mais competentes devemos, desde muito cedo, a não aceitar sem mais qualquer generalização “Todos os X são Y, por exemplo) ensinando-os a procurar contra-exemplos às suas ideias e às ideias dos outros.

Além disso devemos certificar-nos que compreendem as implicações que um contra-exemplo tem para as suas ideias e ensiná-los a lidar com isso no contexto do “jogo do diálogo”. Ao encontrar um contra-exemplo a uma determinada generalização, definição ou condição o seu autor está obrigado a reformular a sua ideia original, a torná-la mais fraca ou a desistir dela completamente. Aceitar ver o contra-exemplo como um potencial “golpe fatal” à nossa posição inicial implica uma maturidade intelectual muito grande pelo que podemos dizer que quem sabe lidar com este movimento cognitivo no contexto de um Diálogo já é um Pensador Crítico bastante competente.

5 – Arriscar Hipóteses

Um diálogo é, em grande parte, um exercício de especulação rigorosa. Avançar uma hipótese é uma forma de ousarmos pensar de forma diferente daquela a que estamos acostumados a fazer, uma forma de sair da nossa zona de conforto onde dificilmente o pensamento se pode alimentar.

Arriscar hipóteses para pensar é ir mais além do simples acreditar. Se nos deixarmos ficar por aquilo que sempre acreditamos, não vamos ver outras possibilidades e pontos de vista alternativos em relação às nossas crenças. Por outras palavras não nos vamos permitir a possibilidade de descobrir que estamos errados e mudar de ideias.

Pensar em “hipóteses” é, além disso, uma forma de discutir ideias de uma forma desligada do sujeito que as avançou. Numa discussão dizer que estamos a discutir hipótese afasta-nos da discussão em torno das nossas “crenças pessoais”, às quais frequentemente estamos emocionalmente ligados, o que dificulta a análise crítica dessas crenças. Vê-las como meras “hipóteses” dá-nos alguma distância crítica sempre salutar em qualquer Diálogo.

6 – Procurar outras perspetivas

Muitas vezes a forma de resolver um determinado problema filosófico (e não só) é procurar outro ponto de vista sobre esse problema. Muitas vezes os nossos dogmas e preconceitos não nos deixam ver além daquilo que já vemos e, outras vezes ainda, estamos a ver um problema onde ele nem sequer existe.

O Diálogo com os outros permite-nos acesso a muitos outros pontos de vista que, todos juntos, nos podem ajudar a ver um problema com maior objetividade, a encontrar diferentes soluções para esse problema ou a perceber que não havia de todo um problema.

7 – Perguntar e questionar

Fazer uma pergunta é uma das “jogadas” mais importantes do jogo filosófico. Uma pergunta pode dar início ao diálogo filosófico, pode ajudar a clarificá-lo, pode dirigi-lo para determinadas direcções, pode aprofundar ainda mais o diálogo. Pode também fazer exactamente o oposto disso tudo, por isso é importante que tanto o professor como os alunos aprendam a dominar cada vez mais e melhor este movimento.

O que distingue uma pergunta dialógica de outros tipos de perguntas é que em vez de servirem para testar conhecimentos ou sugerir problemas (como uma pergunta num teste ou um enigma) servem sobretudo para levar a pensar. Isto pode ser feito de duas formas a que chamamos aqui de “perguntar” e “questionar” (seguindo a distinção de Peter Worley entre “asking questions” e “putting something into question”).

A história das ideias está cheia de perguntas que podemos colocar aos nossos alunos e que os poderão ou não pôr a pensar (“A verdade existe?”, “O que é a justiça?”, “O Bem e o Mal são Universais?”)

Mas se conseguirmos desenvolver nos nossos alunos uma atitude de questionamento então aí teremos certeza de que todas as nossas sessões serão sessões dialógicas.

Algumas dinâmicas, como os Espremedores de Perguntas ajudam os nossos alunos a criar em grupo as suas próprias questões, mas mais importante ainda é conseguir que as façam durante os diálogos, como uma importante “jogada” para compreender e aprofundar melhor o que se está a falar. Não há um método ou uma cartilha para o fazer, a melhor receita é mesmo ir praticando o diálogo e, subtilmente, ir mostrando aos nossos alunos como o fazer, i.e. como se tornarem intervenientes socráticos numa discussão.

8 – Aceitar mudar de posição.

Saber jogar o “Jogo do Diálogo é, também, ser capaz de alterar a nossa tese inicial à luz das críticas recebidas, suspender o juízo sobre ela até termos razões mais fortes em seu favor ou, até mesmo, estar disposto a recusá-la totalmente se as razões apresentadas contra elas assim nos obrigarem.

Como em qualquer outro jogo é suficiente seguir as suas regras para jogarmos o jogo, no entanto não é suficiente seguir as regras para o jogarmos bem. Para isso é preciso algo mais. É preciso dominarmos algumas competências que nos permitem jogar o jogo com eficácia e é necessário possuirmos determinadas atitudes que fazem de nós verdadeiros jogadores e não meros praticantes. Saber reconhecer as fragilidades dos nossos argumentos é uma dessas competências.

Dialogar é, assim, um equilíbrio fundamental entre a arrogância de quem quer saber e a humildade de quem sabe que não sabe.

 

Curso “Zoom” de Pensamento Crítico e Argumentação

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Pense Melhor Argumente Melhor

– Desenvolver as nossas capacidades de Pensamento Crítico e Argumentação
– Exercícios práticos e dinâmicos (diálogos socráticos)
– Compreender melhor o que nos dizem
– Analisar e avaliar raciocínios e argumentos.
– Formular melhor as nossas próprias ideias

 

Curso on-line através da plataforma “Zoom”

Teoria e Prática

Diálogos Socráticos entre os Participantes

Glossário de Pensamento Crítico (oferta)

Certificado de Participação

Gravação das sessões para ver e rever mais tarde  (cada sessão fica “on-line” 2 dias e só os participantes do curso têm acesso a ela)

PC_ZOOM_1

 

Valor: 60€ (vagas limitadas)

MB Way +351 916686399
IBAN – PT50 0007 0000 0039 9182 6462 3

Inscrições e comprovativos de pagamento
clubefilosoficodoporto@gmail.com

 

Quartas e Domingos (21h00 – 22h30)

1ª sessão – Introdução ao Pensamento Crítico (19/7)
2ª sessão – Análise de Argumentos (22/7)
3ª sessão – Avaliação de Argumentos (26/7)
4ª sessão – Diálogo Socrático (29/7)

Uma organização do Clube Filosófico do Porto

Tomás Magalhães Carneiro
Fundador do Clube Filosófico do Porto (2008);
Professor de Filosofia;
Formador nas áreas do Pensamento Crítico, Argumentação, Diálogo em Aulas e Filosofia com Crianças em várias instituições e empresas: Reitoria da Universidade do Porto; Faculdade de Letras da Universidade do Porto; Centros de Formação e em várias instituições de ensino privadas e públicas
Dinamizador de diálogos socráticos públicos (Cafés Filosóficos, Ciclos de Leituras Filosóficas, etc.)

Sinais para Dialogar

Durante um Diálogo Filosófico é desejável que os nossos alunos se afastem do modelo habitual de conversação onde impera a opinião e o “bitaite” em que cada um diz o que pensa sem que isso seja verdadeiramente tido em conta e analisado pelos outros. É importante que os alunos saibam lançar-se numa saudável disputa dialéctica com refutações, contra-refutações e perguntas feitas aos argumentos uns dos outros e que sejam capazes de aprofundar o Diálogo em outras direcções que não apenas a das suas primeiras impressões e ideias.. Uma forma de conseguirmos que o façam, sem interferirmos na sessão, é através da introdução prévia de uma “sinalética para o diálogo”.
Cada um destes sinais corresponde a uma ferramenta básica para dialogar que, ao mesmo tempo que incentiva os alunos irem além da mera troca de opiniões lançando-os em pleno terreno do Diálogo Filosófico (o plano da argumentação e da problematização), também faz com que, tendo que decidir o que vão fazer na sua intervenção, os alunos se tornem mais conscientes da direcção dos seus raciocínios (“Vou fazer uma crítica”, “uma pergunta”, “defender uma posição”, etc.). Estes sinais são, como tal, ferramentas de meta-pensamento.
1 – Dedo no ar: “Quero responder à pergunta.”
How to Encourage Class Participation in Shy Students — Strategies ...
2 – Mão aberta: “Quero criticar o argumento de um amigo.”
3 – Mão fechada: “Tenho uma pergunta.”
4 – Dedos em V: “Quero defender a posição de um amigo (com um novo argumento).”
Raised Hand Giving The V Sign - Fotografias de stock e mais ...
5 – Sinal de OK!: “Ok! Mudei de opinião.”

O Jogo da Filosofia: 8 Regras

Nas minhas sessões de “Diálogo Filosófico”, tanto com crianças como com adultos (Filosofia com Crianças, Cafés Filosóficos, etc.), costumo apresentar a filosofia como um jogo, o “Jogo da Filosofia”, o qual todos podem participar desde que cumpram determinadas regras bastante simples de se seguir.
O “Jogo da Filosofia”, como qualquer outro jogo, tem as suas regras próprias que se não forem cumpridas não nos permitem jogar, neste caso filosofar.
Por exemplo, se estivermos a jogar ténis e não respeitarmos os limites do “campo”, se deixarmos a bola bater no chão mais que uma vez, se deixarmos o nosso adversário a jogar sozinho enquanto nos entretemos a bater bolas contra a parede sozinhos, ou se procurarmos atingir o nosso adversário com a raquete quando ele procura servir, se fizermos alguma dessas coisas, não estaremos a jogar ténis, estaremos a fazer outra coisa qualquer. As regras do ténis libertam os jogadores para jogar ténis, da mesma forma as regras do jogo filosófico libertam-nos para pensar.
Por exemplo, no “Jogo da Filosofia” se gritarmos com o nosso interlocutor, se o procurarmos convencer pela força, se não compreendermos o que ele nos diz, se não o procurarmos convencer racionalmente das nossas razões, então não estaremos a fazer filosofia, estaremos a fazer outra coisa qualquer.
Da forma como eu vejo o “Jogo da Filosofia”, quer o pratiquemos sozinhos a ler as obras dos filósofos ou em grupo a conversar com os nossos amigos, as suas regras são as regras do diálogo racional entre pessoas bem intencionadas e bem educadas. Como em qualquer outro desporto também aqui a batota e a falta de “fair-play” não devem ser permitidas.
Seguem-se aquelas que considero serem as 8 regras básicas do “Jogo da Filosofia”
1 – Apresentar a nossa tese de forma clara
Este é o primeiro passo que devemos dar para jogar este jogo, i.e., para fazermos filosofia. Ao apresentarmos de uma forma clara a nossa opinião sobre um determinado problema estamos a comprometer-nos com uma determinada posição, saindo assim do conforto de uma posição neutra que não se engana porque nada diz ou de um relativismo que quer abarcar tudo sem, no entanto, se comprometer com nada. Sem esse comprometimento com uma determinada posição o pensamento não avança. Além de que nada nos impede de, mais à frente no jogo, voltarmos atrás e mudarmos de posição (ver regra 8).
Num Diálogo Filosófico é muito comum as crianças quererem falar apenas “por falar”, ou seja, sem terem uma contribuição pertinente para o diálogo. É importante que nestes casos o professor subtilmente incentive os alunos a se escutarem mutuamente e a pensarem bem antes de falar não se limitando a esperar de dedo no ar pela sua vez. (algumas Ferramentas de Moderação podem ajudar o professor neste sentido)
2 – Defender a nossa tese com razões
É aqui que a opinião se torna num argumento e mostramos aos nossos interlocutores (que podemos ser nós mesmos) porque é que defendemos o que defendemos. Enquanto não o fizermos os outros não têm qualquer motivo para acreditar em nós.
É esta apresentação das razões por parte de quem defende uma determinada posição que permite aprofundar o jogo da filosofia. A partir daqui podemos analisar as razões apresentadas, verificar a pertinência da sua ligação à tese que pretendem defender, encontrar os pressupostos de que dependem, etc.
É neste ponto que o autor da tese “abre o flanco” da sua posição à crítica dos outros, e é aqui que verdadeiramente começa o “jogo da filosofia”.
3 – Praticar a Escuta e a Dialéctica (crítica)
Não faz qualquer sentido apresentar as razões de um argumento se aqueles que jogam o jogo não fizerem um esforço para verdadeiramente as compreenderem.
Escutar os outros é diferente de simplesmente os ouvir respeitosamente. Escutar implica compreender profundamente o que dizem e porque o dizem. Só depois de verificarmos se realmente compreendemos as razões em jogo estamos autorizados praticar a dialéctica e a criticar essas razões caso não concordemos com elas.
(os Sinais para Dialogar ajudam o grupo a focar as intervenções uns dos outros)
4 – Dar exemplos e procurar contra exemplos
Um exemplo ajuda-nos, por um lado, a clarificar aquilo que defendemos dando-nos um episódio ou facto concreto onde os nossos conceitos se aplicam. Ao fazê-lo estamos também a aproximar o raciocínio filosófico (tendencialmente abstracto) das nossas vidas (tendencialmente concretas). Estamos, dessa forma, a dar um conteúdo “mais próximo de nós” aos nossos conceitos o que nos ajuda a perceber melhor a importância da filosofia e do pensamento abstracto nas nossas vidas.
Por outro lado, a discussão de ideias gerais leva-nos frequentemente a fazer generalizações e isso leva-nos, por sua vez, a procurar condições para determinados conceitos e ideias.
No esforço de ensinar os nossos alunos a tornarem-se pensadores mais competentes devemos, desde muito cedo, a não aceitar sem mais qualquer generalização “Todos os X são Y, por exemplo) ensinando-os a procurar contra-exemplos às suas ideias e às ideias dos outros.
Além disso devemos certificar-nos que compreendem as implicações que um contra-exemplo tem para as suas ideias e ensiná-los a lidar com isso no contexto do “jogo da filosofia”. Ao encontrar um contra-exemplo a uma determinada generalização, definição ou condição o seu autor está obrigado a reformular a sua ideia original, a torná-la mais fraca ou a desistir dela completamente. Aceitar ver o contra-exemplo como um potencial “golpe fatal” à nossa posição inicial implica uma maturidade intelectual muito grande pelo que podemos dizer que quem sabe lidar com este movimento cognitivo no contexto de um Diálogo Filosófico já é um Pensador Crítico bastante competente e está no bom caminho para se tornar um bom Filósofo.
(este link pode ajudar)
5 – Arriscar Hipóteses
A filosofia é, em grande parte um exercício de especulação rigorosa. Avançar uma hipótese é uma forma de ousarmos pensar de forma diferente daquela a que estamos acostumados a fazer, uma forma de sair da nossa zona de conforto onde dificilmente o pensamento se pode alimentar.
Arriscar hipóteses para pensar é ir mais além do simples acreditar. Se nos deixarmos ficar por aquilo que sempre acreditamos, não vamos ver outras possibilidades e pontos de vista alternativos em relação às nossas crenças. Por outras palavras não nos vamos permitir a possibilidade de descobrir que estamos errados e mudar de ideias.
Pensar em “hipóteses” é, além disso, uma forma de discutir ideias de uma forma desligada do sujeito que as avançou. Numa discussão dizer que estamos a discutir hipótese afasta-nos da discussão em torno das nossas “crenças pessoais”, às quais frequentemente estamos emocionalmente ligados, o que dificulta a análise crítica dessas  crenças. Vê-las como meras “hipóteses” dá-nos alguma distância crítica sempre salutar num Diálogo Filosófico.
6 – Procurar outras perspectivas
Muitas vezes a forma de resolver um determinado problema filosófico (e não só) é procurar outro ponto de vista sobre esse problema. Muitas vezes os nossos dogmas e preconceitos não nos deixam ver além daquilo que já vemos e, outras vezes ainda, estamos a ver um problema onde ele nem sequer existe.
O Diálogo com os outros permite-nos acesso a muitos outros pontos de vista que, todos juntos, nos podem ajudar a ver um problema com maior objectividade, a encontrar diferentes soluções para esse problema ou a perceber que não havia de todo um problema.
7 – Fazer perguntas
O questionar é uma das “jogadas” mais importantes do jogo filosófico. Uma pergunta pode dar início ao diálogo filosófico, pode ajudar a clarificá-lo, pode dirigi-lo para determinadas direcções, pode aprofundar ainda mais o diálogo. Pode também fazer exactamente o oposto disso tudo, por isso é importante que tanto o professor como os alunos aprendam a dominar cada vez mais e melhor este movimento.
O que distingue uma pergunta filosófica de outros tipos de perguntas é que em vez de servirem para testar conhecimentos ou sugerir problemas (como uma pergunta num teste ou um enigma) servem sobretudo para levar a pensar. Isto pode ser feito de duas formas a que chamamos aqui de “questionar” e “questionamento” (seguindo a distinção de Peter Worley entre “asking questions” e “putting something into question”).
A história da filosofia está cheia de questões que podemos colocar aos nossos alunos e que os poderão ou não pôr a pensar (“A verdade existe?”, “O que é a justiça?”, “O Bem e o Mal são Universais?” – ver este link para uma lista de quase 1000 perguntas filosóficas)
Mas se conseguirmos desenvolver nos nossos alunos uma atitude de questionamento então aí teremos certeza de que todas as nossas sessões serão sessões filosóficas.
Algumas dinâmicas, como os Espremedores de Perguntas ajudam os nossos alunos a criar em grupo as suas próprias questões, mas mais importante ainda é conseguir que as façam durante os diálogos, como uma importante “jogada” para compreender e aprofundar melhor o que se está a falar. Não há um método ou uma cartilha para o fazer, a melhor receita é mesmo ir praticando o diálogo e, subtilmente, ir mostrando aos nossos alunos como o fazer, i.e. como se tornarem intervenientes socráticos numa discussão. (os Sinais para Dialogar também podem ajudar aqui)
8 – Aceitar mudar de posição.
Saber jogar o “Jogo da Filosofia é, também, ser capaz de alterar a nossa tese inicial à luz das críticas recebidas, suspender o juízo sobre ela até termos razões mais fortes em seu favor ou, até mesmo, estar disposto a recusá-la totalmente se as razões apresentadas contra elas assim nos obrigarem.
Como em qualquer outro jogo é suficiente seguir as suas regras para jogarmos o jogo, no entanto não é suficiente seguir as regras para o jogarmos bem. Para isso é preciso algo mais. É preciso dominarmos algumas competências que nos permitem jogar o jogo com eficácia e é necessário possuirmos determinadas atitudes que fazem de nós verdadeiros jogadores e não meros praticantes. Saber reconhecer as fragilidades dos nossos argumentos é uma dessas competências do filósofo.
Fazer filosofia é, assim, um equilíbrio fundamental entre a arrogância de quem quer saber e a humildade de quem sabe que não sabe.

O Dia sem Regras

regras

Confinados em casa e rodeados de adultos os nossos filhos, alunos, sobrinhos devem estar fartinhos de regras. Além de disciplinar as crianças e dar (algum) sossego aos adultos as regras servem também para sufocar, oprimir e limitar a liberdade das crianças. Mas, afinal, para que servem as regras? Por que é que existem regras? Precisamos mesmo de regras? Quais? Todas as regras? Algumas regras? Nenhumas regras?

Este exercício faz com que as crianças experimentem viver um dia inteiro sem regras (se tal não for possível podem experimentar um período sem regras que pode ir de alguns minutos, a uma hora ou uma manhã). O objectivo é que sintam e pensem por si mesmos que regras são necessárias e quais não são. O que é que é exigido de nós para que possamos dispensar de regras.

Se, no final do dia, a casa (sala de aula, etc.) ainda estiver de pé podemos parar para reflectir sobre esta experiência e perceber, afinal, para que servem as regras?

0 – “Meninos(as), gostavam de ter um dia inteiro sem regras?” (Resposta imediata e garantida: “SIIIIIM!”

1 – Estipulamos com as crianças um período sem regras.

2 – Coragem! Aguente firme! Tudo vai ficar bem! (mas tenha um olho nas crianças, não se vá dar o caso…)

3 – Algumas perguntas para o “diálogo pós-anarquia”:

  • O que gostaram/não gostaram desta experiência?
  • Sentiram-se mais livres ou menos livres?
  • Acham que podiam viver sem regras? (o que teria de melhor/pior)
  • Para que precisamos, afinal, das regras?

Numa sessão seguinte podíamos apresentar o exercício “A ilha (regras)“. Depois desta experiência os alunos estarão seguramente mais sensíveis a pensar sobre algumas questões como:

  • Que regras são necessárias?
  • O que temos de fazer/como temos de ser para poder viver sem regras?
  • É possível viver sem regras?

Esta última pergunta abre-nos caminho para alguns diálogos interessantes sobre a “Bondade/Maldade Humana“, “Obediência/Desobediência“, “Ordem/Caos“, “Anarquia/Democracia/Ditadura”, “Responsabilidade/Irresponsabilidade”, etc.

ps – a ideia para este exercício surgiu-me à mesa do café, quando ouvi uma senhora na mesa ao lado a contar a uma amiga que tinha instituído em sua casa um “dia sem regras” para os seus sobrinhos e netos. Não lhe perguntei se ainda tinha casa, para não afectar a escrita deste exercício. Coragem!

Mais exercícios para pensar em Caixa de Pandora.

 

 

A Ilha (regras)

ilha

“Meninos, acabaram de ganhar uma estadia de um ano numa ilha. Toda a turma irá para lá, têm comida, água, habitação e diversões garantidas. Apenas têm de levar uma coisa: regras para viverem em comunidade.”

  • Todos os alunos desenham uma ilha numa folha. (apenas o contorno)
  • Dentro da ilha escrevem algumas regras que acham mais importante levar para a ilha.

Agora temos, espalhadas por toda a turma umas dezenas largas de regras para trabalhar, mas importa reduzir um pouco a quantidade de regras para que se possa efectivamente reflectir sobre elas. Para isso organizamos um “concurso de regras”, em que duas a duas vamos reflectindo sobre “Qual a regra que temos mesmo de levar para a ilha?” Esta seria a única regra que automaticamente todas as pessoas teriam de cumprir, caso contrário seriam expulsas da ilha. Todas as outras seriam cumpridas de forma voluntária (i.e., se não fossem cumpridas os “infractores” não teriam nenhuma consequência).

  • Diálogo entre todos para escolher “a regra que temos mesmo de levar para a ilha”.

Entre as várias questões que poderão surgir no nosso diálogo devemos prestar atenção àquelas que nos levam a pensar sobre quais as regras que são mesmo indispensáveis e quais são mesmo necessárias e (mais importante) porque é que são indispensáveis/dispensáveis e o que é que terá de acontecer e mudar em nós e no mundo para que algumas das regras se tornem dispensáveis.

Aqui têm um bom exercício para anteceder este diálogo: O Dia sem Regras

Para mais exercícios para pensar abra a Caixa de Pandora.

Bons diálogos!