IMAGENS PARA PENSAR

Observar, lembrar, imaginar, interpretar, comparar, distinguir, questionar, responder, estimar, confirmar, ouvir, mudar de opinião, dialogar, respeitar as regras, esperar pela sua vez, saber perder e ganhar. Assim por alto estas são algumas das capacidades e virtudes (também filosóficas) que este jogo criado pela surpreendente Sig Toys leva as nossas crianças (e nós) a desenvolver. Uma forma muito simples e divertida de passar uma hora a brincar com os nossos alunos enquanto estes apuram as suas ferramentas filosóficas.

Uma adaptação deste jogo para sala de aula pode ser a seguinte:

1 – Grupos de 4/5 alunos. Cada grupo tem um cartão com a imagem virada para cima.

2 – Em 10 segundos devem observar bem a imagem e, depois, passá-la ao grupo ao seu lado direito. Estes últimos viram o cartão ao contrário e lêem uma das seis perguntas no verso.

Neste ponto temos três alternativas para escolher a pergunta:

1ª alternativa: O jogo vem com um dado que podemos utilizar para escolher ao acaso a pergunta. Lançamos o dado uma vez e o número que calhar é o número da pergunta que o segundo grupo deve fazer ao primeiro.

2ª alternativa: Podemos também deixar que cada grupo escolha a pergunta “mais difícil”. Desta forma estamos a levar os alunos a ler e interpretar as perguntas, a observar e analisar as imagens, a inferir e a justificar perante os seus amigos a sua dificuldade, etc.

3ª alternativa: Mais difícil, mas também mais interessante, é o segundo grupo criar uma pergunta original que possa ser respondida simplesmente olhando para a imagem.

nota: o mais fácil será irmos fazendo uma alternativa de cada vez para que, primeiro, os alunos se habituem ao jogo e, em seguida, possam quebrar um bocadinho as regras originais (no jogo apenas há a hipótese de se lançar o dado, mas assim perdemos algumas oportunidades para desafiar um pouco mais os nossos alunos).

3 – Se o primeiro grupo acertar na resposta à pergunta recebe o cartão de volta, se falhar o grupo que leu a pergunta pode ficar com o cartão.

4 – Em seguida outro grupo faz a pergunta ao grupo que acabou de perguntar e assim até que todos os grupos tenham feito perguntas.

5 – Fazemos várias rondas e no final ganha o grupo que tiver mais cartões.

Mais jogos para pensar em Filojogos.

 

Saca Perguntas

“Sacar perguntas” filosóficas da realidade como rolhas de uma garrafa de vinho, é uma boa imagem do que muitas vezes fazemos numa sessão de Diálogo Filosófico.

  1. Colocados aos pares os alunos recebem um par de cartas (ver sessão O Código Secreto).
  2. Cada imagem deve ser conceptualizada (encontrar uma palavra-chave que a explique, defina, etc.)
  3. Com as duas palavras-chave os alunos devem formular uma pergunta filosófica (interessante, geral, clara).
  4. Os alunos explicam a sua pergunta e a sua relação com as imagens/palavras-chave.
  5. O grupo escolhe a mais interessante.
  6. Diálogo Filosófico sobre essa pergunta.

Algumas perguntas das últimas sessões filosóficas com os meus 5º e 8º anos:

– Quando é que somos incapazes de escolher?

– Há obrigações que são “prisões”?

– É bom criar expectativas além das nossas capacidades

– O diferente faz-nos corajosos?

– Existe “demasiado amor”?

Mais “saca perguntas” aqui.

O tigre que veio tomar chá

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O quê? Como é possível? Um tigre em nossa casa a tomar chá? Que grande confusão. O que devemos fazer?

A autora desta história, Judith Kerr (morreu em 2019 com 95 anos) era uma menina judia que fugiu da sua Alemanha natal quando Hitler subiu ao poder. Viveu em Inglaterra durante a Segunda Guerra Mundial e quando escreveu “O tigre que veio tomar chá” para a sua filha  Tacy talvez tivesse em mente a capacidade humana (e não só britânica) de manter a calma e a compostura durante o caos e o perigo.  A verdade é que Sofia, a menina que abriu a porta ao tigre, não se incomoda nada com o caos que este faz entrar pela sua casa adentro. O enorme gato come todos os biscoitos, todo o chá e, mesmo, toda a água que havia na torneira. Tudo isso enquanto Sofia o admira e abraça deliciada. Na verdade era um tigre lindíssimo.

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Esta é uma história estranha e surpreendente, mesmo ao jeito das crianças mais novas que vão adorar ver o à vontade com que o tigre quebra todas as regras e obrigações que os adultos lhes estão sempre a lembrar. Neste sentido é uma história libertadora que nos pode levar a pensar sobre como nos devemos comportar perante as adversidades (os pais de Sofia sem nada para comer em casa resolvem, muito calmamente, ir jantar fora), mas também nos pode fazer pensar sobre regras.

Podemos começar por perguntar “Porque é que temos regras?” Se “os animais têm regras?” e se “temos o direito de impor as nossas regras aos animais?”. Daqui é apenas um salto para falarmos das relações sempre complicadas entre adultos e cranças. “As regras dos adultos são as mesmas que as regras das crianças?” “Quais são as regras das crianças e as regras dos adultos?” “O mundo seria melhor com as regras das crianças ou com as regras dos adultos?”

Um bom livro, divertido, para conversar. Não para ensinar, mas para aprender com aquilo que nos faz pensar.

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Onde vivem os mosntros?

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Um clássico da literatura infantil, uma leitura sempre empolgante para as crianças e uma oportunidade para falarmos sobre obediência e desobediência, sonho e realidade.

O Max é um monstro. É o que diz a sua mãe. Então em vez de ficar de castigo no seu quarto o Max resolve desobedecer e parte para a terra dos monstros. Aí porta-se como um monstro, mas até um monstro às vezes acha que os monstros são demasiado monstros e resolve discipliná-los. Irão obedecer-lhe? A quem é que devemos obedecer e porquê?

No fim, cansado de tanta brincadeira e monstrice Max resolve voltar para casa. Ainda estará à sua espera? O que acham, foi um sonho ou realidade? Onde vivem os monstros: numa ilha ou na imaginação do Max?

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Como evitar o ódio?

Um diálogo entre um pai autoritário e uma filha rebelde é o pretexto para a peça “Engolir Sapos” que a companhia de teatro nelense (de Nelas, Viseu) “Amarelo Silvestre” trouxe ao Teatro do Campo Alegre. Depois da peça reuni-me na “Oficina do Espectador”  (inserida no projecto Paralelodo Teatro Municipal do Porto) com um grupo de “jovens filósofos” para falar e pensar sobre o que vimos.

Começámos por explorar a relação entre o pai e a filha. “O que leva alguém a amar-se e a odiar-se ao mesmo tempo? Isso é possível? Trata-se de uma mesma emoção misturada (ódio e amor) ou de duas sensações diferentes intercaladas? É possível haver ódio no amor?”

O pano de fundo das discussões entre o pai e a filha era uma relação proibida que esta insistia em manter com o Alberto, um rapaz (adivinha-se) cigano. Daí aos sapos de loiça que, por preconceito, muitos estabelecimentos comerciais insistem em manter na montra para afastar “albertos” foi um salto curtinho e a ideia que começou a ganhar importância foi a de ódio: “O ódio tem tamanho?”, foi a pergunta que nos fez avançar. A Rita, uma menina de cabelo curtinho com um corte engraçado que lhe fica muito bem, disse-nos que achava que o ódio não tinha tamanho pois não era uma coisa que se pudesse tocar, mas antes algo como uma nuvem invisível que nos rodeia e pode ou não entrar em nós.

Esta ideia fez-nos percebemos que os sapos, que estão em todo o lado na peça, representavam esse ódio que todos temos à nossa volta e ameaça conquistar o nosso coração. Para o Nuno, sempre muito activo nestas nossas conversas, a ideia da Rita ajudou-o a pensar que o ódio é como um vírus que nos pode infectar mas, ao contrário de um vírus, “não há uma vacina para o ódio”, diz-nos.

Era altura de irmos embora, os pais dos filósofos aguardavam pacientemente fora do Teatro. Faltava uma pergunta para continuarmos a conversa com a nossa família depois em casa: “Como podemos evitar que o ódio que nos cerca invada os nossos corações?”

Excelente pergunta! Até breve, filósofos.

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O pássaro da avó

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Como certa vez disse a minha livreira preferida, “o Noé é das personagens mais fascinantes da literatura infantil”. E é mesmo.

O filho de um pescador muitas vezes ausente e que tem por única companhia segura seis gatos que pululam livremente pela casa, já resgatou uma baleia encalhada e já se aventurou no mar gelado para tentar salvar o seu pai. Mas desta vez é ele que é salvo… pela sua avó.

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Benji Davies deu ao “seu” Noé uma existência muito frágil e solitária. Vive sozinho com o pai numa casa de madeira mesmo em cima da praia, tão em cima que não sabemos como sobreviveu à última tempestade. A avó vive num rochedo no meio do mar, numa casa cujo telhado é um barco virado ao contrário. O Noé é, ao mesmo tempo um menino muito diferente dos nossos meninos mas também é muito parecido com eles. Tudo no Noé é demasiado exposto ao mundo, demasiado inocente e frágil. Uma fragilidade que Benji Davis tornou muito evidente ao tirar de perto do Noé as figuras que o deviam proteger. A mãe nunca apareceu (o que aconteceu à sua mãe? será que um dia irá visitar o Noé?) e o seu pai tem de ir para o mar e deixa muitas vezes o Noé sozinho à sua espera. Muito diferente e muito parecido com os nossos meninos.

Mas, apesar de frágil o Noé consegue sempre ajudar quem é ainda mais frágil do que ele. Desta vez é um passarinho, ou melhor, um bando de passarinhos, que se perdeu na tempestade.

Como todas as histórias que já conhecemos deste autor “O pássaro da avó” revela as tensões entre o fraco e o poderoso (o Noé e o mar), do cuidado contra a indiferença (a avó e a tempestade), da fragilidade da vida contra a presença constante da morte (o passarinho e ausência sempre presente da sua mãe).

Esta é uma história que vai encantar os nossos pequenos “Noés” e que devemos deixá-los explorar conforme quiserem.

 

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NINA

 

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“Às vezes as grandes histórias começam por coisas pequeninas”. É assim, à maneira dos contadores de histórias orais, que Benji Davies nos começa a preparar para o ouvir, mesmo antes de começar a história. E esta é mais uma grande história do autor de “A Baleia”, “O Regresso da Baleia” e “O pássaro da avó”. Desta vez a personagem principal não é o nosso querido Noé, mas Nina, uma rã, ou melhor, uma quase-rã, um girino que tarda em crescer. Com ela sofremos as dificuldades em ser pequenino num mundo de grandes perigos. É mais uma história de crescimento, mudança, transformação, mas também de risco, coragem e perigo.

Para cada um destes conceitos podemos propôr uma pergunta para iniciar o diálogo. Ex. “Controlamos a forma como mudamos?”

Mas o melhor mesmo é deixarmos os nossos alunos decidir sobre o tema e inventarem perguntas sobre ele.

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1 – Em grupos de 4/5 –  “Esta história fala-nos de quê?” (usem apenas uma palavra-chave).

Além das que listei em cima os alunos vêem que esta história fala da vida, da realidade, da amizade, etc.

2 – Depois de escolhido o tema pedimos que cada grupos formule 4/5 perguntas sobre esse tema e que depois escolha a pergunta mais interessante. (imagem em baixo)

3 – Em alternativa podemos escolher por votação o tema mais interessante e todos formulam perguntas sobre esse tema escolhido. (imagem em baixo)

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