Filocoisas

Tudo pode servir para fazer filosofia desde que olhemos para as coisas como um inventor olha para a sua matéria prima. “Inventamos ou erramos”, diz o meu amigo Walter Kohan. E tem razão.

A vida está cheia de “coisas” que podem ser transformadas em “filocoisas”. Qualquer “coisa” pode ser uma “filocoisa” desde que olhemos para ela de determinada maneira. A maneira do filósofo-inventor.

Cada “coisa” encontrada e fotografada será o ponto de partida para um diálogo ou uma reflexão filosófica em torno das suas possibilidades, daquilo que sugere ou para aquilo que aponta. Esse diálogo e reflexão transforma uma simples “coisa” numa “filocoisa”. Ajuda-nos a apanhar todas as “filocoisas” do mundo.

Filocoisas à espera de catalogação

 

Filocoisa 7 – Castelo (Filocoisa apanhada pela aluna Diana, 8 anos)

A turma analisou com cuidado a filocoisa trazida pela Diana e percebeu que estavam ali várias camadas de protecções: A cerca, as árvores, o castelo, as casas dentro do castelo, as pessoas que guardam o castelo, uma mulher grávida dentro do castelo protegeria o seu bebé na sua barriga, o seu marido iria protegê-la também… E daqui, desta sobreposição de protecções surgiram algumas perguntas interessantes que vieram dar a esta:

Por que é que as pessoas precisam de tantas proteções?

castelo

Filocoisa 6 – Lata de Cocacola (Filocoisa apanhada pelo aluno Duarte, 10 anos)

Tema sugerido pela turma: Pequenas Grandes Ajudas (lata reciclável)

Diálogo: As coisas pequenas podem fazer coisas grandes?; Será que as coisas pequenas fazem a diferença no mundo?; Como é que as coisas pequenas influenciam o mundo?

cocacola

Filocoisa 5 – Garrafa de água (Filocoisa apanhada pela aluna Mafalda, 9 anos)

Tema sugerido pela aluna: Transparência

Resultado de imagem para garrafa de agua

Filocoisa 4 – Caixote do Lixo

Filocoisa pensada por várias turmas do 1 ciclo.

Um caixote do lixo que parece um ser estranho, um monstro. Um monstro-ajudante, nas palavras da Matilde do 4° ano, é a prova de que coisas más (feio, mal-cheiroso) podem dar origem a coisas boas (limpeza, higiene). Esta Filocoisa fez-nos ver que o mau pode permitir o bom e o bom pode permitir o mau.

Numa turma do 3° ano esta filocoisa foi considerada “anormal”. O que é, então, o anormal? “Aquilo que está fora do seu sítio”. “O que é estranho”. Foram as duas grandes teorias em discussão sobre a mesa.

Para outros alunos finalistas (4° ano) a imagem de um caixote vermelho numa paisagem fria e cinzenta simbolizava o “medo do cinzento”, a nossa difícil relação com o que nos atemoriza. “Como enfrentar os nossos maiores medos?”, perguntaram.

Outra turma do 4° ano viu “Mistério” nesta filocoisa. O mistério da filosofia que é “como um fio que os filósofos embrulham e depois tentam desembrulhar sem nunca conseguirem”. Esta ideia da Maria, porém, não convenceu o José, para quem “não podemos saber se a filosofia é um mistério, pois um mistério é uma coisa que não se sabe o que é. Logo não se pode saber o que não se sabe que é.”

Para os meus benjamins (2° ano) este caixote do lixo feliz faz pensar em sentimentos. Mais propriamente se “todos temos os mesmos sentimentos”, se “um bebé nasce já com todos os sentimentos ou se os ganha ao longo da vida”. Ainda neste grupo surgiu a perplexidade: “O ser humano é o único animal que faz lixo (os ossos dos animais comidos não é lixo) e é o único animal que pensa. “Isto é muito estranho. Quem pensa não devia fazer lixo”, dizem eles.

Como é costume não chegámos a nenhuma conclusão mas vamos continuar à procura de Filocoisas.

Filocoisa 3 – Garrafa de água.

Filocoisa capturada por aluna do 4° ano e diálogo com a sua turma.

Tema: Companhia

– Um objeto pode fazer companhia?
– Uma garrafa de água é como um animal de estimação?
– Uma garrafa tem a mesma importância quando foi comprada ou quando a temos há 5 anos?
– Uma garrafa que nos faz companhia pode ser substituída por outro objecto?
– E se fosse uma pessoa especial a dar-nos?
Qualquer objecto pode fazer-nos companhia?
– Um objecto pode nos fazer mais companhia que uma pessoa com quem não nos damos?
– O que é a companhia de uma garrafa?

Filocoisa 2 – Tesoura

Uma tesoura são duas facas unidas uma à outra por um parafuso. Uma tesoura quantas coisas são? E nós, quantas coisas somos?

Uma tesoura é algo que cria igualdade onde antes havia identidade. Uma folha são agora duas folhas. Um indivíduo deu lugar a dois indivíduos apenas pela acção da tesoura, uma máquina de fazer clones.
A tesoura é uma das poucas máquinas que cria a partir daquilo que é criado. O seu produto final é o mesmo que a sua matéria prima. Este é o paradoxo da tesoura: algo de novo é criado (duas folhas), e ao mesmo tempo nada de novo é criado (a mesma folha).

Duas facas unidas uma à outra por um parafuso.
Um parafuso que cria identidade onde antes havia igualdade. Antes do parafuso: duas facas iguais. Depois do parafuso: uma tesoura. O parafuso retira um indivíduo à existência.
Em prol de uma qualquer finalidade prática anula-se a finalidade dos indivíduos, criando-se um único indivíduo. Uma tesoura é como um exército.

Duas facas unidas uma à outra por um parafuso.
Uma peça de engenharia fantástica. Um parafuso que serve de articulação e obriga as duas lâminas a trabalharem em conjunto de forma perfeitamente simétrica, num movimento de alavanca extremamente eficaz. Tão mais eficaz quanto mais perto do parafuso.
O movimento das duas lâminas da tesoura aperfeiçoa num grau elevadíssimo o movimento análogo dos dedos polegar e indicador. Os dedos de uma mão são rombos, grossos pelo que nunca seriam capazes de produzir o mesmo efeito que uma tesoura. Mas o facto de as lâminas estarem ali tão perto dos dedos faz parecer que a sua acção é uma acção dos dedos. É por isso que há um qualquer prazer sádico ao usarmos uma tesoura.

A velocidade da tesoura.
Todos os objectos têm uma velocidade que é medida em relação às ideias que os acompanham. Por exemplo, uma caneta é um objecto lento pois não é capaz de acompanhar a velocidade dos pensamentos que se querem exprimir através dela. Um carro, um avião, mesmo um foguetão são, nesse sentido, objectos lentos. Queremos sempre chegar mais rápido do que eles nos permitem.
Já uma tesoura é um objecto rápido. Vai sempre à frente dos pensamentos que a acompanham e é necessária uma certa dose de atenção consciente e força de vontade férrea para parar uma tesoura em pleno funcionamento. Além da velocidade a tesoura tem, se não for contrariada pela razão, uma dinâmica de continuidade imparável.

Funcionar como tesouras.
Todos os Homens são, de tempos a tempos, chamados a funcionar como tesouras. Como as facas e os parafusos é-lhes pedido que anulem a sua individualidade e trabalhem em conjunto em prol de algo maior.
É, exactamente, quando funcionamos mais como tesouras que vemos surgir os grandes feitos da humanidade, as grandes obras, as grandes conquistas, os grandes ideais.
É, exactamente, quando funcionamos mais como tesouras que funcionamentos menos como Homens.

Filocoisa 1 – Mala no chão.

Uma mala deixada no chão é um objecto abandonado.
Só abandonamos aquelas partes do mundo que fazem parte de nós e não as que já não nos fazem falta. Filhos, amigos, animais e carteiras abandonam-se. Frigoríficos, torradeiras, carros e TV´s deitam-se fora.

Uma carteira faz parte de nós pois é uma sobra do Eu, é um acrescento da minha identidade. Eu não sou apenas o meu corpo e o meu espírito. Eu sou também algumas das minhas coisas. Há, assim, além do “Eu corporal” e do “Eu espiritual” um “Eu material” composto por essas coisas a que dou valor.

Há algo de estranho em ver uma carteira, como esta, abandonada. Sabemos que uma carteira abandonada é sempre uma situação temporária, uma suspensão da acção, ou melhor dito, um intervalo entre duas acções: a acção de a abandonar e a acção de a recolher.
Seja como for sabemos que não ficará assim por muito tempo. Como um iman, uma carteira abandonada atrai ou repele. Repele as pessoas e os corpos, se se achar que dentro tem explosivos, ou outra coisa perigosa. Atrai as pessoas e os corpos se se achar que guarda algo de valor.

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