O PROFESSOR ANTERIORMENTE CONHECIDO COMO “PROFESSOR TOMÁS”

Eu1

Em Filosofia os nossos instrumentos de trabalho são as palavras. Por vezes aos nossos alunos (sobretudo aos nossos alunos mais novos) faltam as palavras certas para pensarem um pouquinho melhor sobre os problemas que lhes colocamos. Este exercício pretende fazer com que os nossos alunos sintam a necessidade de determinadas palavras (ou conceitos) para os ajudar a dar corpo às ideias com que se debatem. Trata-se de um exercício muito dinâmico que irá certamente arrancar gargalhadas dos seus alunos e é extremamente flexível tendo-o alterado substancialmente e com sucesso, a cada nova sessão e usado com turmas do pré-escolar ao 9º ano.

As palavras em torno das quais esta sessão se desenrola são “saber” e “acreditar”, mas só as vamos introduzir mais a frente no exercício. Para já vamos criar nos nossos alunos a necessidade de usarem essas palavras.

Nas aulas de Filosofia usamos um objecto a que chamamos “microfone mágico” para falarmos apenas na nossa vez. Esse objecto costuma ser uma bola e e essa bola que dará início a esta sessão.

“Olhem bem para esta bola.”

Saímos da sala por uns segundos e voltamos a entrar.

Pergunta 1 – “É a mesma bola?”

Pergunta 2 – “Como sabem?”

Esperar por respostas como “É a mesma pois tem as mesmas cores.” “É a mesma pois tem a mesma forma e o mesmo aspecto.” À medida que os alunos forem apresentando razões vamos registando-as no quadro e pedimos a outros alunos que as critiquem: “Por ter as mesmas cores, forma e aspecto não significa que sejam a mesma. Podem só ser iguais.”

Deixamos o diálogo avançar um pouco sempre procurando críticas e contra-argumentos às ideias que forem sendo avançadas. Desta forma vamos criando um certo “capital de dúvida” no seio do grupo que fará com que alguns alunos comecem a questionar se “sabem mesmo” que é a  mesma bola (como de facto é).

“Ok, meninos. Agora vou apresentar-vos duas palavras que vocês já conhecem e que nos serão úteis para compreendermos um pouco melhor este problema. Desenhamos no quadro as palavras “SEI” e “ACREDITO” (ou “saber” e “acreditar”, como preferirem). E perguntamos:

Pergunta 3 – Quem me pode dizer por que estas palavras nos são úteis nesta discussão?

Aqui devemos dar oportunidade a vários alunos de falarem para irem completando e complementando o que uns e outros vão dizendo, construindo assim uma rede de compreensão mais alargada sobre estes dois conceitos. A distinção entre estas duas palavras estará a cargo de outras que os alunos já dominam como “certeza e incerteza”, “segurança e insegurança”, “verdade e dúvida”, “grande conhecimento e pequeno conhecimento” (caso real), pelo que esta é a altura de colocarmos a pergunta seguinte:

Pergunta 4 – Acreditam ou sabem que a bola (não) é a mesma?

Depois de gastarmos uns bons 20 minutos com esta discussão podemos tentar “subir a parada” filosófica da sessão com o seguinte desafio:

“A bola não foi lá para fora sozinha, pois não? Quem a levou? E quem a trouxe para dentro?

Pergunta 5 – A pessoa que levou a bola lá para fora é a mesma pessoa que a trouxe para dentro?

Por esta altura, com os alunos munidos destas duas palavras, da noção de “conhecimento seguro e duvidoso”, “certeza e incerteza” e também dos critérios e argumentos que usaram para questionar a “mesmidade” da bola (cores, forma, peso, etc.) com toda a certeza alguns deles avançarão divertidos a hipótese de a pessoa que têm à sua frente não ser o “professor Tomás” mas talvez um seu clone ou irmão gémeo (ou ser o professor Tomás, mas no início da aula ser um clone ou um irmão gémeo – Vasco e António foram os nomes sugeridos para esse meu putativo irmão).

É possível que, com alunos mais velhos, o diálogo se desenvolva para questões de “identidade” (“Sou a mesma pessoa que era no início da aula?”) mas com os alunos mais novos o mais provável é que o diálogo se mantenha em torno dos critérios epistémicos que nos fazem “saber algo” ou “acreditar em algo”, assim como da questão cartesiana, a dúvida radical, de se podemos saber com certeza alguma coisa?

Como exercício para uma aula seguinte podemos, exactamente, desafiar os alunos a encontrarem:

“algo que saibamos com certeza absoluta.”

Prefiro “jogar” com as sugestões dos alunos (e eles também) mas “para o caso” seguem algumas ideias:

1 + 1 = 2

Temos cérebro

A Terra é redonda

Eu sou eu

etc.

Este exercício é uma adaptação do exercício “Rulers” do Peter Worley em “40 Lessons to get children thinking“.

debatem

LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Korwin-Mikke

O eurodeputado misógino Janusz Korwinn-Mikke já serviu de pretexto para uma das nossas aulas de Filosofia.

Passadas algumas semanas dos alucinados argumentos acerca da inferioridade das mulheres (e consequente justificação de um menor salário) Korwinn-Mikke foi castigado com uma multa e suspensão de funções pelo próprio Parlamento Europeu.

Assista ao anúncio desse castigo aqui.

Independentemente de concordarmos ou não com os seus argumentos esta situação é uma boa oportunidade para ensaiarmos algumas ideias acerca de Liberdade de Expressão com os nossos alunos.

Este é o diálogo que tem ocupado as minhas tardes com as turmas do 3ºciclo:

Começamos por lançar um pequeno “isco” aos nossos alunos.

Pergunta 1 – A Liberdade de Expressão deve ser sempre respeitada. Concordas com esta frase?

Sendo esta uma daquelas “frases feitas” que todos tendemos a aceitar de forma acrítica a quase totalidade dos nossos alunos responderá que sim a esta frase. Podemos aferir a qualidade do nosso diálogo pelo número de alunos que irão mudar de opinião no final do diálogo. Sublinho que o objectivo não é levar os alunos a tomar determinada posição mas sim fazer com que vacilem um pouco em relação ao conceito de Liberdade de Expressão. Que compreendam que aquilo que pensavam ser inquestionável não o é assim tanto. No final aquilo que defendem é lá com eles, o melhor que podemos fazer é conseguir que a posição que tomem seja o mais consciente e reflectida possível.

Depois de lhes explicarmos todo este episódio, de lhes mostrarmos as declarações do eurodeputado polaco e o castigo aplicado podemos perguntar:

Pergunta 2 – O Parlamento Europeu defendeu a Liberdade de Expressão?

Aqui as opiniões deverão dividir-se entre os alunos que defendem que “não”, que ao castigar alguém por dizer o que pensa não estamos a defender a sua Liberdade de Expressão, e os alunos que defendem que “sim” pois o eurodeputado teve liberdade para exprimir as suas ideias e o castigo apenas veio depois de o ter feito. Esta opinião foi bastante comum durante as minhas aulas mas também fez levantar alguns sobrolhos de desconfiança, pois não parece que a liberdade de expressão se dê bem com um castigo aplicado a quem simplesmente exprimiu as suas ideias.

Uma dificuldade que poderá surgir neste diálogo é a dificuldade de os alunos pensarem além (ou apesar) destas outras frases feitas: “a nossa liberdade acaba quando começa a dos outros”; ou também um clássico “não devemos deixar que a nossa liberdade possa ferir a susceptibilidade dos outros”.
Sempre que estes “bloqueadores de pensamento” surgirem devemos fazer com que os alunos parem um pouco e pensem realmente sobre eles, quer pedindo críticas, exemplos, contra-exemplos, etc. (puxem pela cabeça). Enfim, qualquer coisa que os faça sair da situação de congelamento mental a que estes clichés sempre nos induzem.

Depois de termos deixado “rolar” o diálogo  por algum tempo, certificando-nos que os alunos ouvem várias posições, argumentos e contra-argumentos é altura de voltar a colocar a primeira pergunta e ver como agora os alunos lhe respondem.

Pergunta 1 – A Liberdade de Expressão deve ser sempre respeitada. Concordas com esta frase?

É quase certo que uma boa percentagem de alunos irá rever ou, até mesmo, alterar a sua posição inicial o que será um bom indicado para a qualidade da Filosofia que os nossos alunos fizeram neste dialogo.

 

Jesus ressuscitou?

Tumulo
Para muitos cristãos a principal prova da divindade de Jesus é a crença na sua ressurreição. Contam-nos os Evangelhos que depois de ter sido flagelado, crucificado, morto e sepultado o túmulo de Jesus foi encontrado vazio. Desde esse dia que a crença na ressurreição de Jesus tem sido um dos fundamentos da fé cristã.

Este vídeo apresenta de forma claramente parcial alguns argumentos e contra-argumentos a favor da hipótese da ressurreição de Jesus que darão aos nossos alunos a oportunidade de se exercitarem na detecção de falácias e na procura de explicações alternativas.

Sem querer pôr em causa a fé de cada um – mas exigindo que qualquer crença que se tenha passe, em primeiro lugar pelo crivo da análise crítica e do pensamento racional, mesmo que isso ponha em causa a fé de cada um – proponho o seguinte exercício:

  1. Fazer uma (longa) lista desses erros de raciocínio que vamos encontrando ao longo do vídeo.
  2. Por que as pessoas acreditam na ressurreição de Jesus?
  3. Devemos acreditar que Jesus ressuscitou?
  4. Podemos acreditar em Deus e não acreditar na divindade de Jesus?

FILOSOFIA DA BIRRA

ebernarno_faz_birra

Em Filosofia, assim como na vida, quando perguntamos alguma coisa a alguém devemos fazê-lo desde o lugar do ignorante, do que não sabe, e não do lugar do sapiente, do que sabe. Isto é o que diz o meu amigo Walter Kohan, aqui.

Normalmente é pedido aos nossos alunos que pensem e digam aquilo que os professores (acham que) já sabem. Através de perguntas que, quando muito, simulam ignorância é-lhes pedido que reproduzam um pensamento e não que criem um de sua própria lavra. A típica pergunta de professor é do género “Quem foi o primeiro rei de Portugal?” Uma pergunta bem mais interessante seria algo como “Por que existem reis?”

Como no que toca às birras das nossas crianças todos somos ignorantes (como perceber que num segundo os nossos anjinhos se transformem em diabinhos incontroláveis?) fazer filosofia acerca da “birra” é uma excelente oportunidade de perguntarmos às crianças coisas que realmente não sabemos e, talvez, aprendermos alguma coisa com quem realmente sabe do assunto.

Bernardo faz birra” é um divertido livro da mesma dupla (autor e ilustrador) que criou “No sotão“, Hiawyn Oram e Satoshi Kitamura que nos leva ao mesmo universo mágico que só pode existir na cabeça dos mais novos (como as birras).

Para compreendermos um pouco melhor este fenómeno da “birra” e, quem sabe, ajudar as crianças a crescer além dela e os adultos a lidar com ela, podemos estruturar a sessão da seguinte maneira:

0) Leitura do conto “Bernardo faz birra”.

  1. Por que é que o Bernardo fez birra? À partida esta não parece uma pergunta mas sim uma pergunta de interpretação. Temos, no entanto, algumas vantagens em começar por esta pergunta. Pode ajudar-nos a ir recolhendo alguns indícios de possíveis perguntas e linhas de investigação, mas também ajudará os nossos alunos a pensarem em relações de causa-efeito e justificação-culpa (A proibição da mãe do Bernardo causou a sua birra, mas foi a culpada da birra?)
  2. De quem foi a culpa da birra? (alguns alunos surpreenderam-me com a ideia de que a culpa da birra foi da mãe que não deixou o Bernardo ver televisão, ou que o incentivou a fazê-la quando lhe respondeu “Está bem (faz lá a birra)” – esta sugestão levantou no grupo uma interessante discussão sobre se as palavras da mãe eram irónicas ou sinceras e sobre a dificuldade de distinguir uma da outra uma vez que “o Bernardo não pode entrar na cabeça da mãe.”
  3. Juntar os alunos em grupos e dar a cada grupo a tarefa de encontrar duas formas de resolver a birra do Bernardo.
  4. Escrever no quadro uma lista com as sugestões de cada grupo (neste ponto sugerimos aos alunos que suspendam as críticas às sugestões para o momento seguinte).
  5. Agora o grupo todo deverá decidir qual a melhor sugestão (que, pela minha experiência, andarão entre dois pólos fundamentais: uns, mais pragmáticos, defenderão que a mãe deverá deixar o Bernardo ver televisão pois só assim a birra acaba; outros, mais, pedagógicos, dirão que a mãe não deve deixar o Bernardo leva a sua a avante devendo aplicar um castigo ou dar uma recompensa se a birra parar.