O Mergulhador_Filosofia com Crianças

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A partir de uma adaptação livre do conto “Brinquedos Partidos” do escritor e ilustrador australiano Shaun Tan Um exercício sobre “ser alguém” ou “ser ninguém”, sobre “ser humano” e “ser pessoa”.

“Certo dia, enquanto brincava com um primo meu apareceu, vindo do lado do mar, um mergulhador com um escafandro que se arrastava lentamente pela rua até parar ao nosso lado.

Abriu a pequena escotilha do capacete e vimos a cara de um rapaz asiático um pouco mais velho que nós (15-16 anos) que parecia mudo perante as nossas perguntas. “De onde vinha”, “O que estava ali a fazer.”

Quando lhe perguntamos o nome acenou negativamente com a cabeça, como se não tivesse nome. Se não tinha nome, “então quem era ele?”, perguntámos. Ajoelhou-se e com a mão direita desenhou na terra a seguinte palavra: “Ninguém”.

“Pois, se não tem nome então é ninguém”, disse o meu primo.

1 – Concordas com o meu primo?

2 – O que é “ser ninguém”.

Não concordei com o meu primo e respondi-lhe, como alguns de vocês, que tinha de ser alguém pois era um ser humano, um rapaz com uns 15, 16 anos. Então o meu primo exclamou:

“Sim, é um ser humano, mas não é uma pessoa, pois não tem nome.”

3 – Concordas com o meu primo?

4 – Qual a diferença entre “ser humano” e “ser uma pessoa”?

Resolvemos dar-lhe um nome e chamamos-lhe Ícaro, em homenagem a uma personagem mitológica que ambos admirávamos.

5 – Podemos dar um nome a uma pessoa?

Levamos Ícaro pela até casa da senhora “Más Notícias”, a única pessoa asiática que conhecíamos no bairro e deixá-mo-lo à porta de sua casa. O que aconteceu em seguida fez-nos pensar.

6 – Quem seria Ícaro e o que lhe aconteceu?

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Esta última pergunta precisa ser contextualizada no conto a que este exercício se refere. Na Livraria Flanêur, no Porto, poderá encomendar a obra “Contos dos Subúrbios” de Shaun Tan onde estão publicados este e outros contos encantadores.

 

 

 

FILOSOFIA GO!

Inspirado na recente febre do jogo Pokémon Go, e como não me apetece andar por aí à caça de bichinhos virtuais, mas apetece-me andar por aí, criei uma nova modalidade filosófica: a Filosofia Go!

Trata-se de sair à rua e, armados com a câmara do telemóvel, capturar “Filocoisas”, objectos filosóficos que encontremos por ai.

“Filocoisas” são objectos ou situações que nos fazem pensar mais além deles próprios.

Aqui estão algumas capturas que fiz hoje passeando pelas salas do meu colégio. No próximo ano lectivo espero contaminar os meus alunos com este novo jogo.

1 – Mala deixada no chão.

Uma mala deixada no chão é um objecto abandonado. Só abandonamos aquelas partes do mundo que fazem parte de nós e não as que já não nos fazem falta. Filhos, animais e carteiras abandonam-se. Frigoríficos, torradeiras e TV´s deitam-se fora.

Uma carteira faz parte de nós pois é uma sobra de eu, um acrescento da minha identidade. Eu não sou apenas o meu corpo e o meu espírito. Eu sou também algumas das minhas coisas. Há, assim, um Eu corporal, um Eu espiritual e um Eu material composto por essas coisas a que dou valor.

Há algo de estranho em ver uma carteira assim abandonada. Uma carteira abandonada é sempre uma situação temporária, uma suspensão da acção. Sabemos que não ficará assim muito tempo. Como um iman, uma carteira abandonada atrai ou repele. Repele as pessoas e os corpos, se acharmos que dentro tem explosivos, ou outra coisa perigosa. Atrai as pessoas e os corpos se acharmos que tem algo de valor. 

Mais “Filocoisas” aqui.

 

 

LUÍS I – O REI DAS OVELHAS

E se um golpe do destino pusesse um reino aos teus pés?

Foi o que aconteceu à ovelha Luís quando, numa colina ventosa, uma rajada de vento levou até si uma coroa dando início assim ao seu reinado como Luís I, rei das ovelhas.

Rapidamente Luís I foi adquirindo tiques e vícios de déspota acabando por expulsar do “reino” todas as ovelhas que não se parecessem consigo.

Até que, por outro golpe do destino, uma nova rajada de vento retira a coroa da cabeça de Luís I, o rei das ovelhas que voltou a ser a ovelha Luís novamente.

Esta é uma bela fábula que nos fala de Poder (ganhar, perder e exercer o Poder), de Justiça e Injustiça e de como num momento podemos estar em cima dos outros como logo a seguir voltamos a estar por baixo.

As lutas pelo poder são uma constante entre as crianças e talvez o mau uso e abuso de poder que tantas vezes vemos em tantos adultos tenha a sua origem numa infância  em que essas lutas pelo poder ficaram mal resolvidas. Um motivo mais para que esta história de uma ovelha embriagada pelo súbito poder que lhe caiu em mãos (aos pés) seja uma boa fonte de reflexão e diálogo com as nossas crianças.

 

Alguns exercícios e perguntas para pensarmos sobre esta história:

 

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Levar uma coroa de Rainha/Rei para a sala e deixar que os alunos a ponham à vez levantando-se do seu lugar para falar e permanecendo de pé enquanto os seus amigos “discursam”.

1 – O que farias se fosses Rainha / Rei

Esperar que muitos alunos, sobretudo os mais novos, revelem a sua faceta mais egocêntrica neste exercício.

Começar a ler a história e incutir a seguinte dinâmica. Todos os alunos começam a ouvir a história de pé (já sem encontram de pé devido ao exercício anterior) e devem sentar-se quando acharem que devem responder “não” à seguinte pergunta:

2 – A ovelha Luís merecia ser rei?

Quase de certeza começaremos com todos os alunos de pé e acabaremos com todos os alunos sentados. Quando os interrogarmos do “porquê” e “quando” se sentaram os alunos irão seguramente verbalizar os abusos de poder perpetrados pelo déspota Luís I .
Uns irão sentar-se apenas no final da história quando Luís I expulsar do seu “reino” algumas ovelhas do rebanho por serem “diferentes”. Outros logo no início pois consideram que a forma como a ovelha Luís tomou o poder, por algo tão fortuito como uma rajada de vento, não é justa logo Luís não merece ser rei.

 

Nesta altura alguns alunos já terãoreparado que o comportamento de Luís I não é muito diferente do que alguns dos seus colegas anunciaram e quererão expressá-lo.

Para muitos será ainda o primeiro contacto que tiveram com a ideia de que talvez seja necessário que alguém exerça o poder, que alguém mande e outros obedeçam. Uma pergunta que pode levar o grupo a pensar sobre esta questão é a seguinte:

3 – Quem deve mandar:

  • Um Rei
  • Todas as pessoas
  • Ninguém

Ao ter de escolher entre uma destas opções os alunos serão levados a pensar sobre questões como a organização da sociedade, as regras necessárias a essa organização e a necessidade de alguém zelar pelo seu cumprimento, assim como sobre o direito e as virtudes necessárias a quem exerce esse poder.

Uma boa pergunta que nos ajudará a sintetizar o diálogo e a assumir uma atitude mais pessoal sobre a questão do poder é a seguinte:

4 – É bom mandar?

Alguns alunos continuarão a dizer que sim, pois o poder dá-nos liberdade de escolha mas alguns terão entretanto percebido a armadilha que o poder pode representar se for mal exercido, podendo mesmo mudar a nossa personalidade afectando negativamente “aquilo que somos”.

Título: Louis I – King of the sheep

Autor/Ilustrador – Olivier Tallec

Pode encomendar este livro na Livraria Flâneur

 

 

CAFÉ COM KOHAN

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O nosso amigo argentino Walter Kohan está de novo pelo Porto.

Veio para um Seminário sobre Educação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPCEUP) na segunda-feira e nós vamos aproveitar mais uma vez para realizar um Café Filosófico com a sua presença.

Será este domingo no Yoga sobre o Porto (R. das Carmelitas, 100 3º esq.) às 21h30

Como sempre o Café Filosófico é gratuito mas, por limitações de espaço, só poderemos aceitar um número máximo de 20 participantes .

Inscrições para:

clubefilosoficodoporto@gmail.com

Para conhecerem um pouco melhor o Walter seguem

uma entrevista
e o vídeo do seu último Café Filosófico aqui no Porto

Abraços,

Tomás

A ILHA DO DESTINO

 

Em Filosofia adoramos o contra-factual e o hipotético. Colocar os nossos alunos em situações irreais (mas não necessariamente irrealistas) em que tenham de tomar decisões “como se” as suas vidas dependessem disso é uma fórmula garantida para uma aula intensa e divertida.

Aqui é proposta uma experiência mental e um jogo de tomada de decisão em conjunto que levam os nossos alunos a pensarem sobre questões como a Justiça, o Sacrifício, a Fidelidade e o Destino.

“Numa pequena ilha no Atlântico Norte, a Ilha do Destino, um ditador governa de forma implacável o seu pouco numeroso e atemorizado povo. Um dia escapa por pouco a um atentado à bomba e resolve aproveitar esse golpe de sorte para eliminar os poucos opositores ao seu regime que ousam pôr em causa o seu governo. Prende-os a todos apesar de estarem inocentes e ameaça matá-los caso não indiquem dois acusados. Se o fizerem os restantes serão libertados.

Vocês (os alunos) são esses opositores ao regime que foram presos e que terão de escolher dois acusados de entre vós. Esses dois acusados serão julgados de acordo com a crença principal da cultura desta ilha: o Destino decidirá se são culpados ou inocentes sujeitando-os a um sorteio macabro em que têm 50% de probabilidades de sobreviver, sendo então inocentados, ou de morrer sendo então reconhecida a sua culpa.”

Pergunta 1: Devemos acusar dois companheiros ou deixar que toda a gente morra?

Se os alunos escolherem acusar dois companheiros sujeitando-os ao “julgamento” do Destino devem propor uma forma de indicar esses dois nomes (sorteio, voluntários, etc.)

O diálogo em torno do que deve ser feito e de como deve ser feito irá ocupar-nos a quase totalidade da aula com alguns alunos a defenderem que não é justo indicar qualquer nome pois todos estão inocentes e outros a defender que deverão tentar salvar o maior número possível de pessoas sendo que, com alguma sorte, todos poderão ser salvos. A forma como deverão escolher os acusados também poderá tomar várias formas.

Dificilmente um grupo escolherá sacrificar todos os elementos. Realizei este exercício umas 15 vezes e apenas numa turma a maioria dos alunos decidiu sacrificar-se. Mas neste caso, como o diálogo foi muito vivo e demorado, ocupando a totalidade da aula, não foi necessário encontrar uma forma de dar continuidade ao exercício. Mas se pretendermos podemos fazê-lo incluindo uma regra ad hoc em que apenas aceitamos o sacrifício de todos se houver unanimidade em relação à primeira opção:

  • Ao não acusar dois colegas Todos têm 0% de sobrevivência.
  • Ao acusar dois colegas esses têm 50% de hipóteses de sobrevivência cada um e Todos  os outros 100%.

Usando esta artimanha praticamente forçamos o grupo a escolher dois acusados pois dificilmente todos concordarão em sacrificar o grupo todo com base num princípio da justiça. Seguramente que considerações mais pragmáticas, ou utilitaristas, convencerão alguns dos nossos alunos, o que nos pode interessar se quisermos levar o grupo a pensar sobre mais algumas questões e temas.

Após a nomeação (quase certa) de dois “acusados” perguntamos:

Pergunta 2: Houve justiça?

Desta forma os alunos são levados a pensar sobre dois diferentes níveis de justiça: uma justiça em absoluto em que não houve justiça pois todos estão falsamente acusados à partida, e uma justiça em contexto em que dadas as circunstâncias impostas houve a melhor justiça possível.

“Agora que temos dois acusados o Destino decidirá se são culpados ou inocentes.”

Usando este simulador de “Roleta Russa” que encontrei na net (graças aquelas horas de navegação ociosa) em que podemos colocar as probabilidades em 50% deixamos o “destino” decidir a sorte dos dois acusados.

Depois de sabermos se foram considerados culpados ou inocentes voltamos a repetir a:

Pergunta 2: Houve justiça?

Como é óbvio a discussão que tivermos daqui para a frente será totalmente influenciada pelo resultado do “sorteio” que acabámos de realizar. Se ambos forem considerados “culpados”, se ambos forem considerados “inocentes”, ou se um for uma coisa e outro outra. Mas é de esperar algumas considerações sobre o Destino e o justo sacrifício dos “acusados”.

Uma forma de continuar a sessão, levando os alunos a pensar mais uma vez sobre Justiça mas também sobre as ideias de Castigo e Vingança, é revelando algo que aconteceu na ilha após o julgamento/sorteio:

“Atenção! Aconteceu algo. Uma revolução na ilha. Vocês foram soltos! O ditador foi preso. A situação é a seguinte:

O ditador será julgado à maneira da ilha. Pelo destino.

A questão é quantas balas colocar na pistola. Têm três hipóteses:

1, 3 ou 5

O QUE É MAIS JUSTO FAZER?

 

 

 

 

Qualquer que seja o resultado, se jogarmos bem a “cartada” do suspense na altura da decisão do destino temos aqui uma daquelas sessões de filosofia explosivas que ficará na memória de todos.

(adaptado de “Diktatia” – Problema 12 em 101 Philosophy Problems, de Martin Cohen)

 

 

 

O LEÃO E O PÁSSARO

 

Marianne Dubuc quase não usa palavras para nos contar esta história de uma amizade incomum entre um leão sedentário e um pássaro nómada, mas à medida que vamos folheando as suas páginas vamos percebendo que as usa na medida certa, apenas para pontuar aqui e ali uma situação, um sentimento ou uma ideia: “E assim foi. Às vezes a vida é assim.”

Na verdade os desenhos falam-nos tanto, são tão fortes e significativos que uma vez compreendida a sua linha narrativa o texto torna-se desnecessário e, até mesmo, excessivo numa segunda leitura onde podemos deixar-nos envolver poeticamente pelo silêncio que algumas páginas inesquecíveis deste livro nos oferecem.

 

 

Uma história que pode levar-nos a reflectir sobre a amizade, a solidão, o abandono, a partida, o cuidado com os outros e a saudade.

Algumas perguntas:

1 – O que levou o leão a gostar do pássaro?

2 – É mais fácil gostar de alguém muito diferente de nós ou muito parecido connosco?

3 – O leão tinha obrigação de cuidar do pássaro?

4 – Temos obrigação de cuidar de um desconhecido?

5 – Por que é que o bando deixou o pássaro para trás?

6 – Se pudessem, os pássaros deviam voltar para trás?

7 – A natureza é cruel?