O que é isto?

Nada mais fácil, todos podem ver o que é: uma maçã.

Sim, todos vemos que é uma maçã, podemos tocar, cheirar até mesmo saborear e percebemos que é uma maçã. Mas será que conseguimos provar definitivamente aos outros (e a nós mesmos) que é mesmo uma maçã?

Este exercício procura levar os alunos a exercitar, entre outras competências de pensamento crítico, a capacidade argumentativa, o raciocínio lógico, o levantamento de hipóteses para pensar, o questionamento, a problematização e o pensamento lateral (explorar vias pouco comuns de pensamento). A partir de uma simples maçã os alunos são levados a questionar se podiam com segurança dizer o que tinham ali à sua frente o que se mostrou um exercício divertido também uma forma de testarem os limites do pensamento e da linguagem: ser redonda é suficiente para ser uma maçã?; ser verde é necessário para ser uma maçã?; podemos dizer que tem a forma de uma maçã se ainda não sabemos o que é uma maçã?; etc.). Ao fazê-lo os alunos afinam o seu cepticismo filosófico testando ao mesmo tempo os limites do conhecimento e da linguagem.
A Filosofia é um exercício radical de dúvida e de exploração, é mais um saber-fazer que um saber-que, mais uma prática quotidiana que um colecionar de conhecimentos e teorias criadas por outros. Filosofar deve ser tão fresco e saboroso como uma maçã.

Exercício

1 – Apresentamos uma maçã ao grupo e perguntamos O que é isto? (esperamos pela resposta em coro: Uma Maçããã!!)

2 – Provem em menos de 12 palavras que isto é uma maçã.

3 – Apresentação individual (ou em grupo) das várias hipóteses.

4 – Diálogo crítico com a turma toda avaliando cada uma das hipóteses.

5 – Um bom “estímulo” para o debate passa por dizer que quem conseguir convencer a turma toda de que aquilo é uma maçã (Nada mais fácil, certo?) fica com ela (com a maçã). Desta forma todos dão o seu melhor para provar que é uma maçã e todos dão o seu melhor para refutar as hipóteses dos seus amigos.

Nota: este exercício é um pouco como convidar os alunos a escalar uma montanha impossível de ser escalada. Até hoje nunca nenhum aluno levou a maçã para casa. Isto pode desencorajar alguns professores de sequer tentar fazer este exercício, mas pense-se no que há de bom em tentar escalar uma montanha impossível de ser escalada e talvez aí se perceba o que há de bom neste exercício.

Mais exercícios com maçãs aqui e aqui

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Diálogo Socrático 1×1 – A Fuga do Eu

Tomás – Tens uma pergunta?

M. – Sim. Como é que podemos descobrir-nos a nós próprios?

Tomás – O que te motiva a fazer esta pergunta?

M. – As pessoas têm um problema em descobrir-se a elas mesmas.

Tomás – Vês algum problema na forma como respondeste à minha pergunta?

M. – Não.

Tomás – Qual é o sujeito da minha pergunta?

M. – Eu.

Tomás – E o sujeito da tua reposta?

M. – As pessoas, os outros.

Tomás – O que é isso de responder pelos outros quando a pergunta é sobre ti?

M. – É uma estratégia de fuga.

Tomás – E do que estás a fugir?

M. – Estou a fugir do sujeito.

Tomás – Por que é que estás a fugir do sujeito?

M. – Por insegurança, por ter medo de enfrentar o sujeito.

Tomás – Que sujeito?

M. – Eu. Por ter medo de me enfrentar a mim.

Tomás – Uma vez que descobrimos isto já podes começar a responder à tua própria pergunta: Como é que podemos descobrir-nos a nós próprios?

M. – Sim. Devemos começar por enfrentar o medo do que podemos descobrir.

(…)

Tomás – Podemos começar já. Queres?

M. – Sim, vamos.

Tomás – O que tem esse sujeito medo de descobrir?

M. – Tem medo de descobrir algo que não quer ser.

Tomás – O que é que ele não quer ser?

M. – Não sabe o que não quer ser.

Tomás – Mas então se não sabe de que é que tem medo?

M. – Tem medo de algo que não conhece e que pode até nem existir.

Tomás – Então para que é que queres conhecer?

M. – Se não me conheço, como é que me posso descobrir?

Tomás – Reparaste que introduzimos aqui uma nova ideia?

M.- Qual?

Tomás – A de conhecer. Qual é a diferença entre descobrir e conhecer?

M. – Acho que querem dizer a mesma coisa, são sinónimos.

Tomás – Tens a certeza?

M. – Sim. Quando descobrimos algo conhecemos algo.

Tomás – Ora pensa melhor. Quando Vasco da Gama descobriu o caminho para a Índia conheceu a Índia?

M. – Não.

Tomás – Então, qual é a diferença entre descobrir e conhecer?

M. – Descobrir é contactar pela primeira vez. É ter uma primeira impressão. Conhecer é ir mais além dessa primeira impressão, é aprofundar aquilo que descobrimos.

Tomás – Consegues pôr cada um numa categoria diferente?

M. – Sim, a descoberta é mais superficial e o conhecimento é mais profundo.

Tomás – És mais superficial ou profunda?

M. – Gosto do profundo.

Tomás – Não perguntei o que gostas, mas o que és.

M. – Estou outra vez a fugir (risos).

Tomás – Então gostas do profundo, mas exploras profundamente?

M.- Sim, procuro explorar profundamente.

Tomás – Então como é que ainda não te descobriste a ti própria?

M. – Por que eu exploro os outros e não a mim.

Tomás – Ou seja, outra vez a fuga do eu.

M. – Pois. Parece que sim.

Tomás – Mas explorar os outros é explorar o eu profundamente?

M. – Não, é uma fuga para os outros.

Tomás – És uma exploradora do eu ou dos outros?

M. – Do eu.

Tomás – Sim? O que já encontraste?

M. – Nada.

Tomás – É possível explorar e não encontrar nada?

M. – Não. Encontramos sempre alguma coisa. Mesmo que insignificante.

Tomás – Então, que coisas insignificantes é que já descobriste acerca do eu?

M. – Sei lá. Coisas como “gosto do azul” ou “gosto de desporto”.

Tomás – Consegues pôr essas descobertas nas categorias que encontraste em cima (superficial e profundo)?

M. – Sim. “Gosto de Azul é uma descoberta superficial. Gosto de Desporto é uma descoberta entre o superficial e o profundo.

Tomás – Por quê?

M. – Porque tem elementos superficiais que levam a algo profundo (desejos, vontades, sacrifícios, etc.).

Tomás – Boa. Isto pode ajudar-nos a responder à tua primeira pergunta? Como é que podemos descobrir-nos a nós próprios?

M. – Pode. Podemos partir do superficial, do início e daí partimos para o mais profundo.

Tomás – Mas isso não mostra o como, mas o onde deves começar.

M. – Pois. Quanto ao como acho que podemos ir analisando o nosso comportamento, a forma como nos comportamos (algo interior), reagimos (algo exterior) e lidamos com as coisas (uma mistura de interior e exterior).

Tomás – O que explica esta tua constante “fuga do eu”?

M. Parece que o mostro sou eu!

Tomás – És um monstro?

M. – Não sei.

Tomás – Como lidar com monstros?

M. – Não sei.

Tomás – Lembras-te do monstro que enfrentou o Vasco da Gama?

M. Sim, o Adamastor.

Tomás – Se Vasco da Gama não tivesse enfrentado o Adamastor o que tinha feito?

M. – Não tinha chegado à Índia. Tinha andado às voltas.

Tomás – Tu, no desporto, andas às voltas?

M. – Não. O contrário disso. Supero obstáculos e tenho uma meta.

Tomás – Então no desporto já fazes o que devias fazer na exploração do eu.

M. – Sim.

Tomás – De que forma atuas no desporto?

M. – Com persistência e dedicação.

Tomás – Isto pode ajudar-nos a descobrir-nos mais profundamente?

M. – Sim, da mesma forma, com persistência e dedicação.

Tomás – Então por que já não o fazes?

M. – Pois. Se calhar não me quero conhecer a mim mesma.

Tomás – Conhecer ou descobrir?

M. – Conhecer. O que procuro é auto-conhecimento.

Tomás – Qual seria o objetivo de te conheceres a ti mesma?

M. – Para ter noção e ficar em Paz.

Tomás – Um monstro pode trazer paz?

M. – Se o encontrar e vencer, sim.

Tomás – Se te encontrares e descobrires que és um monstro podes matar o monstro?

M. – Não, se o que encontrar for um monstro tenho de aprender a coexistir com ele.

Tomás – Vês alguma ligação entre este coexistir e a auto-conhecimento?

M. – Sim, ter auto-conhecimento é saber coexistir com o que somos. Preciso de me aceita e ainda não me aceito a mim mesma.

Tomás – Por que é que ainda não te aceitas?

M. – Por que sou muito exigente.

Tomás – É fácil coexistir com alguém exigente?

M. – Não.

Tomás – É fácil coexistir contigo?

M. – Não.

Tomás – Acho que encontramos o teu monstro. Sabes qual é?

M. – Sim. A exigência. Sou demasiado exigente comigo.

Tomás – Se calhar era bom começarmos a coexistir com ele. Queres tentar.

M. -Sim.

Tomás – O que há de bom nesse monstro da exigência?

M. – A exigência tem de bom o constante estímulo que leva à evolução.

Tomás – Já reparaste que já não foges tanto de ti como fazias no início?

M. – Sim.

Tomás – Por que é que já não foges tanto?

M. – Comecei a aceitar-me.

Tomás – E estás contente com isso?

M. – Sim.

Tomás – Que bom. Adeus.

M. – Adeus.

Qual é a tua cena?

Atenção, este livro vem armadilhado.

Para qualquer professor de Filosofia com Crianças qualquer livro que apresente um caminho único de pensamento, uma moral da história claramente presente, é um livro difícil de trabalhar com os nossos alunos pois o que queremos é que eles pensem, não que repitam os pensamentos que achamos correctos ou adequados.

O Elmer é um elefante diferente dos outros elefantes. Como podemos ver logo na capa o Elmer é um elefante colorido e toda a sua história é uma tentativa de aceitar essa sua diferença e de nos fazer ver que é bom ser diferente e blá blá blá.

É claro que queremos que os nossos alunos respeitem a diferença nos outros e aceitem viver com a sua própria diferença mas queremos que o façam por vontade própria e por realmente acharem que é isso que é bom, não porque aprenderam esses valores na escola ou num livro infantil. É apenas percorrendo um caminho pessoal de reflexão sobre a igualdade e a diferença, vendo os aspectos positivos e negativos de ser diferente e de ser igual, lidando com as diferenças e as semelhanças em variados contextos e em vivências reais que os nossos alunos irão realmente compreender o que é ser diferente e incorporar no seu conjunto de valores aqueles que realmente são bons e adequados (respeito, autonomia, confiança em si, etc.). Para isso não podemos usar este livro para que nos digam a moral desta história, é melhor tomar outro caminho e foi isso que fizemos com o exercício que propomos aqui.

0 – Leitura partilhada do Elmer (cada aluno lê uma “cena” da história).

1 – Cada aluno escolhe (escreve ou desenha) aquela que para si é a cena mais importante do livro: Qual é a tua cena?

2 – Os alunos vagueiam livremente pela sala formando grupos de amigos que tenham escolhido a mesma cena.

3 – Em grupo dão um título à sua cena (A transformação do Elmer; A fuga do Elmer; Amigos Coloridos, etc- exemplos reais).

4 – Cada grupo apresenta “a sua cena” e com a turma toda discute-se qual é a cena mais importante e porquê.

Desta forma conseguimos que o diálogo não se centre na moral da história o que nos dá espaço para trabalharmos algumas ferramentas dos pequenos filósofos como a síntese (distinguindo o essencial do acessório), a argumentação (justificando as suas escolhas), a conceptualização (dando um nome a uma cena), a categorização (hierarquizando os valores das diferentes cenas), etc.

Afinal, qual é a tua cena?

Por que é que os outros não são como eu?

Diálogo Socrático 1×1 com P.S.

Tomás – Tens alguma pergunta para começar?

P. – Temos de lutar para resolver?

Tomás – Qual o conceito que te incomoda nessa pergunta?

P. – O de luta.

Tomás – E qual é o problema da luta?

P. – A luta reduz as possibilidades.

Tomás – Por oposição a quê?

P. – À ampliação de possibilidades.

Tomás – Então evitas a redução, certo?

P. – Certo.

Tomás – Mas vamos analisar isso. O que tem de bom a redução?

P. – A redução dá-nos concentração e foco.

Tomás – E o que tem de mau a ampliação?

P. – A ampliação leva à dispersão.

Tomás – Então, pela lógica, se evitas a luta acabas por dispersar.

P. – Exacto.

Tomás – Então nem sempre é mau lutar.

P. – Pois não.  

Tomás – Tu não gostas de lutar, não costumas lutar?

P. – Prefiro a concórdia.

Tomás – E pela concórdia consegues resolver problemas?

P. – Sim, a concórdia também resolve problemas.

Tomás – Então és capaz de responder à tua pergunta inicial, se Temos de lutar para resolver?

P. – Sim, consigo. Não temos de lutar para resolver, a concórdia também resolve.

Tomás – Então se já tens a resposta qual foi a motivação dessa tua pergunta?

P. – Quero saber por que é que os outros lutam em vez de procurarem a concórdia?

Tomás – Queres saber por que é que os outros não são como tu?

P. – Pelos vistos é isso.

Tomás – O que tu queres saber desde o início é Por que é que os outros não são como eu?

P. – Pois, parece que sim.

Tomás – E como é essa pessoa que não é como tu.

P. – É uma pessoa fechada.

Tomás – E uma pessoa que é como tu?

P. – É uma pessoa aberta.

Tomás – Deixa-me propor-te o seguinte. Vamos tentar fazer um exercício de transvalorização dos valores (como Nietzsche nos ensinou), isto é, ver o que pode haver de bom num conceito normalmente considerado mau e vice-versa. Podemos tentar?

P. – ´bora lá!

Tomás – De que forma as coisas podem ser ao contrário? De que forma uma pessoa que luta é uma pessoa aberta?

P. – Não consigo ver.

Tomás – Deixa-me propor-te algo. A luta leva à evolução da pessoa. O boxeur, por exemplo, tem de evoluir e melhorar para vencer o seu adversário.

P. – Sim, nesse sentido permite-se evoluir, não está estagnado. Assim como nas artes marciais a luta é um caminho para o desenvolvimento pessoal.

Tomás – Isso é um sinal de abertura?

P. – Sim.

Tomás – Então se a luta pode ser um sinal de abertura de que forma a concórdia, que faz parte da tua natureza, pode ser um sinal de fechamento?

P. – Ao evitar a luta acabamos por ficar parados, estagnados e isso é um sinal de fechamento.

Tomás – Então com tudo isto se calhar já podemos responder à última pergunta, Por que é que os outros não são como eu?

P. – Não são como eu, ou seja, não procuram a concórdia, por que não querem ficar estagnados.

Tomás – Noto algum desalento na tua cara.

P. – Pois.

Tomás – Não vale a pena, o objetivo aqui é seguirmos o mote do nosso mestre, Sócrates, e conhecer-nos a nós mesmos, não é ficarmos chateados com nós mesmos. Vamos tentar uma reconciliação de ti com a tua natureza. Vamos recorrer outra vez a Nietzsche e tentar ver algo de bom nesta ideia de estagnação.

P. – Siga!

Tomás – De que forma é que é bom ter esta natureza que de uma forma geral favorece a estagnação?

P. – Bem, a estagnação faz com que fiquemos parados e isso permite-nos conhecer melhor as coisas, permite-nos observar, melhor o mundo.

Tomás – Vamos buscar outro filósofo para nos ajudar aqui. Soren Kierkegaard sugeriu-nos a categoria existencial da repetição para explicar essa atitude de quem vive dessa forma mais lenta e ponderada. Alguém assim não busca a novidade e a inquietude, mas a repetição. Essa pessoa busca a sabedoria profunda, um conhecimento, num certo sentido, religioso em vez do conhecimento superficial. Procura a transcendência e não a imanência, favorece o tempo lento ao tempo rápido, a estagnação à correria dos dias. Pareces ser essa pessoa.

P. – Julgo que sim.

Tomás – Sentes-te melhor?

P. – Sim.

Tomás – Ainda bem. Adeus!

P. – Adeus!

Diálogo Socrático sobre “querer o Absoluto”

Diálogo Socrático 1×1 com Ana J.

Tomás – Qual é a sua pergunta?

Ana – Qual é o sentido ou a utilidade da Filosofia?

Tomás – Sentido e utilidade é a mesma coisa?

Ana – Acho que sim.

Tomás – Pense bem. Qual o significado que damos a sentido e a utilidade?

Ana – Sentido tem mais a ver com a razão de algo existir. A utilidade tem mais a ver com a aplicação prática de alguma coisa.

Tomás – E o que quer saber, a razão para a Filosofia existir ou a sua aplicação prática?

Ana – A segunda. Qual é a aplicação prática da Filosofia?

Tomás – Por que é que isto é para si um problema?

Ana – Por que não encontro aplicação prática nenhuma na Filosofia?

Tomás – Está a repetir a pergunta. Qual o problema disso?

Ana – A Filosofia não me ajuda a decidir entre dois valores diferentes, por exemplo.

Tomás – Pensar sobre diferentes valores não a ajuda a decidir entre um deles?

Ana – Não.

Tomás – Por que é que isso acontece?

Ana – Por que a Filosofia só me dá várias opiniões (dos filósofos) e todas elas são viáveis.

Tomás – Mas se todas são viáveis seria fácil escolher uma. Todas são boas.

Ana – Sim, mas não há nenhuma absolutamente boa. A Filosofia não me ajuda a priorizar os valores. Não há valores absolutos.

Tomás – E por que é que quer valores absolutos?

Ana – Por que se os valores fossem absolutos isso evitaria os conflitos.

Tomás – Qual o mal dos conflitos?

Ana – São maus, é óbvio.

Tomás – Não tão depressa. Vamos analisar esse óbvio. Veja assim, o que pode haver de bom num conflito?

Ana – Bem… um conflito pode levar a uma evolução.

Tomás – Já tem uma coisa boa dos conflitos. E agora veja, o mundo em que vivemos é um mundo com conflitos ou sem conflitos.

Ana – Com conflitos, claro.

Tomás – E a Ana quer viver num mundo sem conflitos. Certo?

Ana – Sim.

Tomás- Está a ver o problema aqui?

Ana – Não.

Tomás – Conhece o filme “The Truman Show”?

Ana – Vagamente.

Tomás – Trata-se de um homem, interpretado por Jim Carrey, que vivia num mundo perfeito, sem conflitos mas onde, sem ele saber, tudo era encenado para um programa de televisão, a sua mulher, os seus filhos, os seus vizinhos, todos eram actores. Truman vivia num mundo irreal, mas quando descobriu quis libertar-se e passar a viver num mundo real.

A Ana faz o contrário de Truman, vive num mundo real mas quer viver num mundo irreal.

Ana – Pois.

Tomás – Em que é que a Filosofia pode ajudar alguém que viva neste dilema? Para voltarmos à pergunta inicial, que aplicação prática pode ter a Filosofia para si?

Ana – Pode ensinar-me a pensar.

Tomás – Como é que a Filosofia faz isso?

Ana – Mostrando os argumentos de vários filósofos.

Tomás – Em que consistem esses argumentos?

Ana – Os argumentos dos Filósofos são as razões e os raciocínios que os levaram a defender o que defendiam. A Filosofia, a história da Filosofia, mostra-me a forma como esses filósofos pensam e construíram os seus raciocínios.

Tomás – E isso não é suficiente?

Ana – Não, porque não sou capaz de escolher entre raciocínios e argumentos igualmente bons.

Tomás – Mesmo quando os argumentos são contraditórios? Quando um diz uma coisa e o outro o seu oposto?

Ana – Sim.

Tomás – Quando isso acontece a Ana aceita os dois?

Ana – Sim.

Tomás – Está a ver qual é o problema de aceitar argumentos contraditórios?

Ana – Sim,  fico bloqueada.

Tomás – A ideia de conflito de valores não pode ajudá-la a desbloquear?

Ana – Não estou a ver como.

Tomás – Já ouviu falar da armadilha do macaco?

Ana – Não.

Tomás – Trata-se de uma armadilha para apanhar macacos em que se coloca dentro de um jarro com uma entrada estreita um bocado de arroz. Para apanhar o arroz o macaco enfia a mão pela abertura do jarro mas quando fecha a mão para apanhar o arroz já não a consegue tirar e fica preso. Fica bloqueado. Sabe porque é que o macaco não tira a mão?

Ana – Por que não consegue decidir entre a comida e a liberdade. Não consegue abdicar do valor que tinha quando enfiou a mão no jarro para comer o arroz.

Tomás – Está bloqueado por um conflito entre que valores?

Ana – Matar a fome e liberdade.

Tomás – E trata-se de um bloqueio irresolúvel?

Ana – Não, o macaco podia abrir a mão e abdicar de comer o arroz para se libertar. Depois iria procurar comida noutro sítio.

Tomás – Trata-se de um bloqueio interno ou externo?

Ana – Interno. Ele não consegue ver o que deve fazer.

Tomás – Como é que o macaco poderia resolver esta situação?

Ana – Não sei.

Tomás – Deixe-me propor o seguinte: se o macaco perguntasse a um e nós o que devia fazer nós dizíamos-lhe pois vemos claramente o que ele não vê por estar bloqueado. Nós, que vemos de fora, percebemos que o macaco deve largar o arroz, libertar-se e procurar comida noutro sítio. Pensando de forma objetiva e não subjetiva. Certo?

Ana – Certo.

Tomás – É esse também o seu problema? É por isso que está bloqueada?

Ana – Talvez. A minha necessidade irreal de algo Absoluto, de ficar com tudo ao mesmo tempo, impede-me de tomar decisões.

Tomás – E como é que a Filosofia a poderia ajudar aqui?

Ana – Não sei.

Tomás – Espinosa tem uma noção muito interessante que nos pode ser útil aqui. A de pensar a partir do ponto de vista da eternidade (sub specie aeteritatis). Esse seria o ponto de vista que o filósofo deveria procurar atingir. Um ponto de vista exterior a si, mais objetivo e universal. O mais próximo possível do pensamento de Deus, que Espinosa identificava com a Natureza. Acha que procurar esse ponto de vista a ajudaria a desbloquear-se e a escolher?

Ana – Talvez. Não sei.

Tomás – Ficamos com o talvez. Já não é mau. Até à próxima.

Lógica para Crianças: Sabes ou Achas?

Introdução

Como todos nós as crianças apenas são capazes de dois tipos de raciocínio: indutivo ou dedutivo. E, também como todos nós, as crianças são por vezes competentes e outras vezes incompetentes ao usar as suas capacidades lógicas. Este exercício ao mesmo tempo que vai pôr toda a turma a trabalhar o raciocínio lógico numa divertida competição entre eles, também vai ajudar os nossos alunos a perceber que a lógica dedutiva pode dar-nos a mesma certeza que a matemática (100% certeza), mas que nem sempre é possível usarmos a dedução e, nessas alturas, o melhor que podemos conseguir é uma boa indução.

Claro que não vamos usar estas palavras complicadas com os nossos alunos (dedução e indução) mas podemos conseguir o mesmo efeito usando duas palavras bem mais próximas deles: saber ou achar.

É sempre uma boa ideia começar uma aula com uma pergunta como “Há alguma diferença entre saber e achar?” Normalmente os alunos aproximam-se muito de respostas como “Sabemos que 2 + 3 = 5”; “Achamos que amanhã vai chover.”

Mas uma coisa é saber em teoria outra coisa é sentir essa diferença.

Este exercício começa com uma pequena experiência inicial para lhes fazer ver que uma coisa é achar e outra coisa é saber e depois avança para um exercício de raciocínio lógico que os faça sentir essa diferença com o seu próprio esforço.

Experiência inicial

– Pedimos aos alunos que cada um pense num amigo da turma mas não diga a ninguém quem é.

– Chamamos um aluno para junto de nós e perguntamos à turma se alguém sabe em quem é que ele pensou. Imediatamente vamos ter dezenas de braços no ar a tentar adivinhar quem é esse aluno mistério. E quando perguntarmos se sabem ou acham muitos dirão que sabem e, mais que isso, têm 100% certeza que sabem! E a verdade é que muitas vezes acertam pois os miúdos são excelentes a ler pistas (olhares furtivos, companhias habituais, BFF´s, ie. best friends forever, etc.).

– Mas se lhes perguntarmos se sabem quem é esse aluno mistério da mesma forma que sabem que “2 + 3 = 5” aí alguns dirão que não, que não têm essa certeza. Outros estão tão seguros da sua certeza que dirão que têm tanta certeza que “2 + 3 = 5” quanta que o “Mário está a pensar no Martim pois eles estão sempre juntos no recreio”. E a verdade é que, neste caso, estão a fazer um bom raciocínio indutivo mas que, apesar de bom e de muito provavelmente se revelar verdadeiro, não é um tipo de raciocínio que nos dê 100% certeza.  Mas muitos alunos não conseguirão perceber isto pois estão tão seguros da sua certeza que o seu pensamento está congelado, um fenómeno que não é exclusivo das crianças. Para descongelar o raciocínio os alunos, como os adultos, precisam de algo mais que apenas palavras, precisam de sentir que estão errados e nada melhor que um jogo para os fazer sentir a diferença entre achar e saber.

Exercício: Sabes ou Achas?

1 – Pedimos aos alunos que desenhem nos seus cadernos 6 quadrados como na imagem.

2 – Depois que em cada quadrado escrevam ou desenhem uma pista para que possamos descobrir em que amigo pensaram (exemplo: uma bola de futebol, óculos, um estojo da Marvel, uma camisola amarela, cabelos pretos, etc.). A única coisa que não podem escrever é, claro, o nome do amigo ou amiga.

3 – Pedimos a um dos alunos que venha ao quadro e que escreva uma dessas pistas no primeiro quadrado. (ex. óculos)

4 – Depois perguntamos à turma se apenas com esta pista podemos saber de quem se trata. Muitos dirão que sim e quererão arriscar mas aí entra em jogo uma regra cruel que os fará hesitar em arriscar uma hipótese. Se o fizerem sem ter a certeza e falharem são eliminados e não podem participar mais nesta rodada. Muitos encolherão o braço indicando claramente que percebem a diferença entre uma dedução e uma indução (mesmo que não conheçam estas palavras), outros irão arriscar. Muito provavelmente irão falhar, mas se acertarem temos aí um bom momento para discutir com a turma se o aluno sabia quem era o amigo mistério ou se apenas achava e foi um palpite de sorte. (nota: para criar ainda mais emoção esta parte do jogo pode ser feita em pequenos grupos com os alunos a terem de negociar se devem ou não arriscar).

5 – Uma a uma vamos pedindo mais pistas até termos todos os seis quadrados completos. Em princípio nesta fase já teremos excluído todos os alunos menos um (só a Maria usa óculos, tem cabelo loiro, está de calças pretas, tem um casaco com carapuço, tem uma irmã mais nova e gosta de dançar) e, neste caso, chegam a essa conclusão (É a Maria) através de uma dedução lógica, ou seja, se as pistas nos quadrados estiverem todas certas (se não nos enganarmos na cor do cabelo ou das calças, por ex.) teremos 100% certeza que acertamos na aluna mistério. Teremos tanta certeza de que É a Maria quanto que “2 + 3 = 5”.

Como a Matemática a Lógica, se for bem usada, conduz sempre à verdade!

Uma vertente mais competitiva deste jogo é aquela em que os alunos, em grupos de 3 ou 4, procuram revelar quem é o “aluno mistério” com o mínimo de pistas possível. A cada pista que vão revelando a turma decide se ainda só podemos “achar” (marcando a pista com um “?”, de dúvida) ou se já podemos “saber” (marcando a pista com um “!”, de certeza).

A 1ª Aula de Filosofia

A primeira aula de Filosofia com Crianças é a mais importante do ano. É aqui que conseguimos que os alunos tenham o seu primeiro vislumbre sobre o que é isto de fazer filosofia. Arriscar hipóteses, analisar ideias, apresentar razões, criticar razões, fazer perguntas. É deste material que é feito o pensamento de um filósofo e não vale a pena descrever aos alunos como isso se faz. O ideal é começar imediatamente a pensar como um filósofo. Este exercício serve para isso mesmo. Vamos a isso:

– Meninos, este livro tem um problema. Alguém consegue perceber qual é?

Muito rapidamente os alunos percebem que este livro é uma enorme contradição. Um livro é escrito para ser lido, logo aberto. Mas este livro pede para não ser aberto, logo para não ser lido.

– Porquê? Por que motivo alguém iria escrever um livro para não ser lido?

Nesta altura é-nos extremamente útil um mecanismo psicológico chamado de “suspensão do cepticismo”. Aquela coisa que “ligamos” quando lemos um livro que nos fascina ou vemos um filme que nos aterroriza. Sabemos que tudo não passa de letras num papel, ou de atores numa tela, mas não conseguimos deixar de nos sentir atraídos pela descrição de uma paisagem ou de sentir medo com o monstro atrás da porta. Neste livro os alunos “esquecem” que o monstro é um criação do autor e rapidamente entram em considerações cada vez mais fantasiosas sobre como o monstro interferiu no livro e por que o fez: “Não quer que saibamos coisas íntimas sobre ele”; “Não gosta do autor”; “Não gosta de crianças”; etc.

Depois de passarmos um bom bocado em considerações sobre o problema deste livro é altura de lançarmos a pergunta que todos queriam ouvir:

– Afinal, devemos ou não abrir o livro?

Agora é altura de os alunos porem em prática algumas ferramentas do pensamento filosófico apresentando razões, concordando ou discordando das opiniões dos amigos, fazendo perguntas, lançando hipóteses, prevendo consequências, traçando planos de acção alternativos, etc.

Depois disto tudo é chegada a altura de decidir o que fazer. Apesar de, por vezes, 1 ou 2 alunos não quererem abrir o livro (para não chatearem o monstro, por ex.) a turma decide sempre em maioria que o livro deve ser aberto, apesar da “vontade” do monstro.

– Devemos virar mais esta página?

O resto do livro passámos a perguntar se os alunos querem continuar a virar as folhas apesar dos pedidos, das súplicas, dos estratagemas do monstro para não o fazermos.

No final… bom deixemos que descubram com os vossos alunos a surpresa que o autor nos deixa no final deste engraçadíssimo livro, mas uma boa pergunta para finalizar a sessão é a de tentar saber:

– De quem foi a culpa do que aconteceu ao monstro?

Divirtam-se a pensar!

Café Filosófico sobre “O que é a Filosofia?”

O pensamento filosófico é um pensamento que se ocupa mais de pôr questões do que de dar respostas, e quando nele encontramos respostas, estas revelam-se novas questões.

                                                                                                                                                   GeorgeSteiner

Foi a partir desta descrição de George Steiner do trabalho do filósofo que estruturámos o primeiro Café Filosófico da segunda temporada do Clube Filosófico do Porto (a primeira acabou abruptamente em 2020 com a pandemia).

Como a sessão de ontem na Livraria Flâneur assinalava um recomeço quisemos voltar ao início e à questão mais fundamental, a de saber afinal o que é que andamos a fazer desde 2008 nestes nossos encontros? “O que é a Filosofia?” foi a pergunta que guiou este diálogo. No entanto não nos quisemos precipitar para a resposta. O ritmo do pensamento filosófico deve ser o de um passeio a pé ou de bicicleta e não o de uma corrida. Não quisemos que cada um dos participantes avançasse apressadamente a sua resposta a esta pergunta. Quisemos, antes, percorrer um caminho conjunto de pensamento em que fossemos, nas palavras de Steiner pondo questões e dando respostas que revelem novas questões. Foi esta sequência (uma pergunta que origina uma resposta que levanta outra pergunta) que nos guiou durante a 1h30 que durou este diálogo.

Julgo que ficou claro para todos os presentes que não se entra num Café Filosófico para se aventar opiniões avulsas e que dificilmente se sai de lá com as mesmas ideias com que se entrou. Um Café Filosófico bem-sucedido é uma espécie de laboratório de ideias ou, melhor, uma oficina de artesanato conceptual onde as ideias de cada um são forjadas, trabalhadas e transformadas através do uso dos utensílios próprios da arte da Filosofia: perguntas, respostas, exemplos e contra-exemplos, definições, analogias, argumentos e contra-argumentos, identificação de pressupostos, especulações, etc. Tudo isto sob o olhar atento e regulador da lógica.

A partir da pergunta inicial proposta no início da sessão, “O que é a Filosofia?”, os participantes deviam fazer alternadamente perguntas e respostas que fossem problematizando, especulando e construindo sobre que tinham diante de si, isto é, sobre a pergunta ou a resposta avançada pelo participante anterior. O resultado foi o que podem ver em baixo, um caminho de raciocínio que nos levou de uma ideia inicial sobre o objeto próprio da filosofia (o auto-conhecimento?), ao papel da dúvida na reflexão filosófica passando pelo questionamento acerca da realidade e da presença de forças convergentes e divergente no processo de investigação filosófica.

No fim voltámos ao início, mas já não eramos os mesmos. Estávamos mais fortes e poderosos pois tínhamos mais dúvidas. É o que a Filosofia faz, torna-nos poderosos.

Café Filosófico na Livraria Flâneur – 22/10/2022  

O que é a Filosofia?

Pergunta – A Filosofia é sobre auto-conhecimento?

Resposta – Sim, a Filosofia enquanto arte de interpretação de conceitos permite-nos conhecermo-nos melhor.

P – Ao conhecermos melhor o mundo estamos a conhecer-nos melhor a nós mesmos?

R – Sim, a visão que temos do real reflecte aquilo que acreditamos, as nossas crenças. Assim, ao conhecer melhor o mundo conhecemos melhor aquilo em que acreditamos.

P – Podemos conhecer a realidade?

R – Sim, a leitura de outros autores e filósofo permite-nos conhecer o real além daquilo em que acreditamos.

P – Somos (mesmos esses autores  filósofos) instrumentos legítimos de aferição do real?

R – Não somos instrumentos legítimos de aferição do real pois qualquer observador (mesmo os “outros autores e filósofos”) modifica a realidade observada.

P – Mas existe só uma realidade?

R – Não, a realidade é infinita como tal não a conseguimos abarcar.

P – E o coletivo, é capaz de abarcar o real?

R – Não, o coletivo, mesmo grande, é sempre finito.

P – Afinal, o que é o real?

R – O real é uma convenção criada por nós para evitar conflitos.

P – Então o papel da Filosofia é originar conflitos?

R – Sim, a dúvida não conformista permite o aprofundamento não dogmático, logo leva ao conflito.

P – A dúvida incita mais à divergência ou à convergência?

R – A dúvida incita mais à divergência porque requer uma capacidade pessoal de aceitação.

P – A dúvida é fracturante com os outros ou também cria fracturas em nós mesmos?

R – A dúvida é um processo inerentemente positivo. Mesmo que crie fraturas (desligamentos) provisórios tende a levar a uma aceitação.

P – O que é a dúvida?

Por falta de tempo tivemos de ficar por aqui. Começámos este Café Filosófico com a pergunta “O que é a Filosofia?” e terminamos com “O que é a dúvida?”.

No final houve quem dissesse que andámos à volta e não saímos do mesmo sítio. Talvez seja verdade e talvez seja isso, apenas isso, que tem feito a Filosofia nos últimos 2500 anos. Andar à volta e não sair do mesmo sítio. Afinal “O que é a Filosofia?”

Próximo Café Filosófico: 4 de Dezembro às 17h00 na Livraria Flâneur.

Até lá.

Os Donos do Recreio

Os Donos do Recreio é um livro sobre crianças. É também um livro sobre crianças no recreio, o que torna a coisa muito mais divertida e complexa. O recreio, se bem nos lembramos, é um espaço de experiências muito intensas. O recreio foi o nosso primeiro campo de jogos, mas também o nosso primeiro campo de batalha. No recreio foi onde mais nos rimos mas também onde mais chorámos. No recreio ganhámos e perdemos, fomos justos e fizemos batota, caímos e ajudamos a levantar, roubámos e fomos roubados. No recreio pudemos experimentar a vida em toda a sua grandeza sem as consequências e os dissabores que depois, já adultos, tão bem sabemos.

Este livro é uma excelente oportunidade de falar com as nossas crianças sobre o recreio que é uma forma de falar sobre a vida.

A minha sugestão é que antes de ler o livro lancem algumas perguntas para que os alunos conversem entre ele em pequenos grupos:

  • O recreio deve ter donos?
  • O dono do recreio deve ser adulto ou criança?
  • O recreio deve ter regras?
  • Quem faz as regras do recreio?

Depois de uns minutos de discussão animada (não lancem as perguntas em tropel, se os alunos estiverem animados com uma delas deixem-nos saborear a discussão) leiam a história (ou mostrem-lhe este vídeo onde a excelente contadora de história Sofia o faz) e no fim voltem a colocar uma ou duas das perguntas anteriores.

Dica: evitem participar no diálogo, quando muito podem servir de moderadores dando a vez aos alunos para falar, mas o ideal é que eles mesmos o façam entre si, por exemplo, atirando uma pequena bola de espuma a quem desejam passar a palavra.

Encomende este livro na Livraria Flâneur. Use o código Academia 2020 e não pague portes de envio..

O Dilema da Bolacha

Democracia; Igualdade; Justiça/Injustiça; Mérito e Valor.

 Atenção: Contém Sessão Explosiva

Meninos, queria fazer-lhes uma surpresa para esta nossa última aula. Comprei um pacote de bolachas mas a minha cadela, a Maria, comeu-as todas… menos uma. Como fazemos agora?

Exercício – Após este anúncio (acompanhado de uma fotografia encenada da Maria com um pacote de bolachas na boca) deixamos aos alunos a tarefa de decidir o que é mais justo fazer. As sugestões costumam ser variadas mas, se não surgirem, podemos ser nós a coloca-las à consideração do grupo: Dividir uma bolacha por todos. Fazer um sorteio. Dar só aos melhores alunos. Ao delegado de turma. Só o professor é que come. Ninguém come. Etc.

Cada sugestão deve ser debatida pelo grupo mas o mais normal é os alunos decidirem que cada um deve dar uma trinca “mínima” na bolacha. O mais justo será dividir o pouco por muitos. – quando o grupo está a ter dificuldade em chegar a esta conclusão costumo forçá-la para chegarmos à parte Explosiva da sessão.

Depois de decidirmos que cada um deve dar uma trinca, incluindo o professor, começamos nós por trincar a bolacha. Nessa altura damos uma grande dentada comendo mais de metade da bolacha! Prestem atenção aos olhares dos alunos nesta altura. É o olhar de quem está a presenciar uma grande injustiça! Podemos deixá-los expressar um pouco aquilo que sentem, mas a verdadeira explosão, e a nossa redenção, está a seguir quando lhes apresentamos um pacote inteiro de bolachas para dividir por todos!!

Objetivos – O enorme potencial de diversão deste exercício torna-o ideal para uma aula de final de período ou de ano letivo. Além disso este dilema da bolacha permite que os nossos alunos pensem sobre temas como a igualdade, a justiça, a responsabilidade perante os outros (assim como o contrário disto tudo quando nos viram a dar uma dentada na bolacha maior do que a devida). É um bom exercício para que exercitem a tomada de decisão e trabalhem o espírito de democracia e solidariedade social (É justo que só os melhores alunos comam a bolacha?