COMO SE CONSTRÓI UM SONHO

peripateticos

“Podemos ser o sonho de um homem morto?” Rodrigo, 9 anos.

No conto “Ruínas Circulares” Jorge Luís Borges fala-nos de um homem que se esconde na selva e procura sonhar outro homem até ao ponto de o tornar real. Quando no fim um incêndio o cerca e repara que as chamas não o queimam compreende que ele sim é um homem sonhado por outro homem.

(continua em breve)

QUERO UM ABRAÇO

 

Filipe era um cacto que queria muito um abraço. – Ui!

Só por aqui percebemos que Filipe não devia ter a vida facilitada. Na verdade nunca teve. A sua família, compreensivelmente, não era muito dada a proximidades e as pessoas pareciam evitar o contacto com o Filipe. Até um dia em que um amigo “confiante e corajoso” começou a aproximar-se de Filipe. O problema é que esse amigo era… um balão.

Este é um livro que nos faz pensar sobre aceitação, incompatibilidades e a dificuldade em fazer amigos.

BUUMM! Aconteceu uma tragédia e o Filipe isolou-se e aprendeu a gostar de estar sozinho. Até que um dia percebeu que havia como ele alguém com dificuldade em fazer amigos. Uma pequenina pedra. Nesse dia “o Filipe soube exactamente o que fazer.”

 

 

Este pequeno exercício pode ajudar os nossos alunos a envolver-se com a história:

0) Levar para a aula um balão, um pequeno cacto e uma pedra. Encher bem o balão e colocar os três objectos lado a lado, sem se tocarem.

Antes de ler a história:

Pergunta 1: Quem pode ser amigo? (balão e cacto? cacto e pedra? pedra e balão?)

Ler a história até ao fim.

Pergunta 2: Todas as pessoas podem ser amigas?

Pergunta 3: Há pessoas de quem não conseguimos ser amigos?

Pergunta 4: Uma amizade pode fazer-nos mal?

 

 

 

OS ANIMAIS ESTAVAM ZANGADOS

Um livro sobre gostar, não gostar e aceitar a diferença.

“Era um dia quente na selva. Os animais não tinham nada para fazer.”

Ok, os animais estavam com calor e aborrecidos, mas isso não era motivo para começarem a implicar uns com os outros. “O leão estava zangado” e  acusava a tartaruga de ser lenta. E ela, coitada, é mesmo muito lenta. A tartaruga, zangada por lhe lembrarem deste seu defeito, pôs-se a dizer que odiava o elefante pois este era muito grande. Nada mais certo, mas o que é que ele pode fazer? E assim foi-se desenrolando um fio de zangas, frustrações e acusações com uns animais a apontar para os defeitos de outros animais, que mais não fizeram que nascer assim.

Pelos vistos Wondriska, o autor de “A long piece of string“, gosta deste tipo de narrativas sequenciais que costumam fazer as delícias das crianças e são excelentes formas de exercitar a memória e o raciocínio narrativo.

Mas, voltando à história, quantos de nós já não fizeram isso? Implicar com alguém apenas por que nos irrita a maneira como essa pessoa é. Nessas alturas talvez nos tivesse ajudado receber a visita de alguém, como a pomba desta história, que lembrou a cada um dos animais que todas essas suas características não são necessariamente defeitos. Até o cheiro de uma doninha fedorenta pode ser uma coisa boa.

Ao contrário do que pode parecer este não é um livro acerca de tolerância (toleramos aquilo que não gostamos, e isso nunca é um pacto muito seguro), mas acerca de aprender a gostar do que é diferente.

Wondriska acaba por nunca nos dizer por que motivo é bom ser lento, gordo, barulhento ou ter cheiro, mas esse é um “trabalho para pensar” que podemos deixar para as nossas crianças. Elas vão adorar.

Algumas perguntas poderão ajudar as crianças a “pensar o impensável”, ou seja, a pensar o contrário do que é habitual pensar:

– Quando é bom ser lento?

– Quando é bom ser pequeno?

– Quando é bom ser gordo?

Outras perguntas podem ajudá-los a perceber melhor o que nos leva a gostar ou a não gostar de alguém:

– O que nos leva a não gostar de uma pessoa?

– É possível gostar de toda a gente?

– Como começar a gostar de alguém que não gostamos?

O segredo de um bom diálogo com as crianças é evitar cair no erro de muitos professores, pais e educadores e procurar perguntas que convidem as crianças a pensar por elas mesmas e não simplesmente perguntas que conduzam a uma resposta que achamos correcta (normalmente a nossa resposta).

Em “Big Ideas for little kids o filósofo e professor norte-americano ” Thomas Wartenberg aconselha-nos a abordar as histórias infantis através de três tipos de perguntas: de interpretação, de especulação e de reflexão, servindo as duas primeiras de preparação para as últimas de cariz filosófico.

Em relação a este livro proponho a seguinte sequência de perguntas que tem resultado muito bem em sala de aula.

Começamos por pedir hipóteses explicativas com uma pergunta de especulação.

1 – (antes de ler o livro) Por que é que os animais estariam zangados?

Em seguida colocamos uma pergunta de interpretação do texto.

2 – (parar a meio, no momento em que parece que os animais vão lutar entre si) Por que ia haver uma zaragata?

Agora é o momento de colocarmos uma pergunta de reflexão.

3 – Por que é que às vezes odiamos alguém?

Depois de lermos a história até ao fim acabamos com outra pergunta para pensar.

4 – O que nos ensina esta história?

Boas leituras!

Pode comprar este livro na Livraria Flâneur.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ESCURO

 

Esta é uma história para aquelas crianças que gostam de encarar os seus medos de frente. E todas as crianças gostam de falar dos seus medos, por isso este é um livro para todas as crianças.

O medo do Lucas é o escuro, que vive com ele em sua casa, “uma grande casa, com um telhado que rangia”. E este livro conta-nos a história de uma viagem do Lucas para enfrentar o seu medo, a viagem do seu quarto até à cave, “que era o sítio onde morava o Escuro”.

No final dessa viagem não estou seguro se o Lucas venceu o medo ou se apenas aprendeu a viver com ele. O que nos é dito na última página é que “o escuro continuou a viver com o Lucas, mas nunca mais o incomodou.” Talvez seja isso que podemos fazer com os nossos medos, conseguir que não nos incomodem, mas eles estão sempre lá. Deixemos as crianças pensar sobre isso.

Algumas perguntas que nos podem ajudar a explorar esta história. Com os alunos mais velhos, já sabem, prefiro que sejam eles a escolher o tema e as perguntas da sessão.

1 – Por que é que o escuro mete medo?

2 – O escuro é mau?

3 – Seria bom que o escuro não existisse?

4 – Para que serve o escuro?

5 – Se pudesses eliminavas o medo do mundo?

6 – Para que serve o medo?

7 – O medo pode ser divertido?

(sobre o Medo ver também este exercício)

Poderá encontrar este livro à venda na Livraria Flâneur.

 

 

O JOGO DO CONHECIMENTO

Flor_2015

A partir do exercício Conhecimento I que a minha amiga Joana Rita Sousa adaptou aqui resolvi simplificar o exercício, torná-lo mais lúdico e transformá-lo num jogo: O Jogo do Conhecimento. Com este jogo é garantido que terão uma hora inteira de alunos empenhados em ganhar o jogo e para isso terão de dialogar entre si, dar exemplos, avançar e testar hipóteses, criar critérios, criticar ideias. Para ganhar o jogo terão, enfim, de Pensar Criticamente.

Material: Uma caixa de papelão; um puzzle com 9 a 16 peças.

O objectivo lúdico deste jogo é os alunos decidirem, em conjunto, se a peça que falta no Puzzle está ou não dentro caixa. Se acertarem ganham os alunos, se falharem ganha o professor. A introdução deste objectivo é importante pois dá aos alunos um pretexto mais para duvidarem da ideia (mais comum) de que a peça está na caixa, “pois o professor pode ter posto lá outra coisa para nos enganar e assim ganhar o jogo”.

Já como objectivo pedagógico pretendemos que os alunos experimentem diferentes formas e métodos de procurar e testar o conhecimento: por contacto, por inferência, através de hipóteses e do teste dessas hipóteses, etc.

0) Apresentamos aos alunos uma caixa com um puzzle lá dentro. Retiramos uma a uma as peças do puzzle e deixamos uma na caixa sem os alunos verem.

Pergunta 1: “Como posso saber se estão aqui as peças todas?”

Esperar que alguns alunos sugiram que devemos montar o puzzle para verificar e convidar dois para o fazerem.

Pergunta 2: “A peça que falta está na caixa?”

Esta é a pergunta que dá início ao jogo e aqui deverão explicar que se a turma acertar ganha o jogo, se falhar ganha o professor. É neste momento que alguns alunos mostrarão algum cepticismo e desconfiarão que vocês terão escondido a peça noutro local.

Neste momento podemos perguntar:

Pergunta 3: “Como podemos saber se a peça está na caixa, sem a  abrir?”

E é aqui que os alunos começarão a sugerir hipóteses e experiências para testar essas hipóteses. É muito interessante ver como estes cientistas miúdos replicam o mesmo tipo de trabalho dos cientistas graúdos com hipóteses que se vão apurando através dos resultados obtidos com as experiência e com as críticas que vão sendo feitas. Também é interessante ver que em alguns alunos mais novos ainda está presente uma espécie de raciocínio mágico, à semelhança do que acontecia com os primeiros cientistas.

Aqui deixo-vos algumas dessas hipóteses, experiências e críticas que surgiram com alunos do pré-escolar e do 1º ano do Colégio Novo da Maia.

Hipótese 1 – Devemos fechar os olhos e pensar muito para descobrir.

(realizamos esta experiência)

Crítica – Mas isso não chega. Estamos a pensar e não sabemos.

Hipótese 2 – Devemos fazer magia. Uma poção mágica para saber se está lá a peça.

(perguntamos como fazer essa magia)

Crítica – Mas aqui ninguém sabe fazer magia. Não dá.

Hipótese 3 – Devemos trazer uma máquina de raio-x.

(concordam?)

Crítica – Não conseguimos trazer para aqui uma máquina dessas.

Hipótese 4 – Devemos abanar a caixa e ouvir o barulho da peça.

(abanamos acaixa muuuuito devagarinho)

Hipótese 5 – Tens de abanar com mais força.

(melhoramos a experiência)

Crítica – Mas o professor pode ter posto lá outra coisa de madeira.

Hipótese 5 – O professor pode pôr uma das peças do puzzle dentro da caixa, abanar e ver se fazem o mesmo barulho.

(fazemos isso)

Crítica – Não dá para distinguir o som das peças.

Hipótese – O professor primeiro abana a caixa com a “coisa” lá dentro”. Depois, sem nós vermos, tira a “coisa” de dentro da caixa e põe lá uma peça do puzzle. Depois abana a caixa e nós vemos se faz o mesmo barulho.

(fazemos essa experiência e o som é semelhante)

Crítica – Pode ser uma peça de madeira mas de outro puzzle. Os meninos do pré-escolar (de onde veio o puzzle) podem ter arrumado mal as peças.

Hipótese – Posso tocar na “coisa” da caixa e ver se é da mesma grossura e forma.

(deixamos que toque sem ver)

Crítica – É parecida. Mas mesmo assim pode ser outra.

Hipótese – O professor pode desenhar, sem vermos, a peça no quadro e vemos se encaixa no puzzle.

(desenhamos a peça virada ao contrário no puzzle).

Crítica – Temos quase a certeza que é a mesma, mas como está desenhada ao contrário não dá para saber se é mesmo. Só vamos descobrir se tentarmos nós encaixar.

Por esta altura já deve ter passado quase o tempo todo da nossa aula e é altura de votar. Quem acha que a peça está na caixa, quem acha que não está? A resposta da maioria será a resposta da turma.

Deixamos que os alunos conversem livremente entre si antes de votarem e depois registamos os braços no ar no quadro.

No fim, ao verem que a peça encaixa, é de esperar uma enorme ovação de alegria ou uma “ohhhhh” de desalento, conforme tiverem ganho ou perdido o “Jogo do Conhecimento”.

Na verdade ganhamos todos!

 

 

 

 

 

Cry, Heart, But Never Break

“Esta é uma história infantil ou Filosófica?”, perguntou uma aluna depois de ouvir este conto. Na verdade uma não exclui a outra e uma história infantil pode ser Filosófica e, se olhadas com atenção, praticamente todas o são.

Mas atenção, esta é uma história especial, que deve ser tratada com cuidado com os nossos alunos. É um livro que facilmente leva à lágrimas (a nós e a eles) pelo que devemos conseguir criar o distanciamento emocional necessário que permita pensar sobre as questões que formos encontrando. O que, neste caso não é muito fácil, pois é uma história que sai do cliché habitual do “e foram felizes para sempre” que muitas crianças começam desde cedo a desconfiar que não é verdade. Nada é para sempre e a felicidade não é constante.

Este livro leva-nos a pensar sobre a morte, um tema sempre difícil e que estamos habituados a “varrer para debaixo do tapete”, mas inultrapassável e, até, urgente para os jovens e as crianças que anseiam por falar e reflectir sobre ele. Muitos deles começam agora a viver a morte dos seus avós e amigos da família, outros vivem mortes bem mais próximas. A Filosofia, a reflexão séria, tranquila e crítica sobre tudo o que há, pode ajudá-los a compreender e aceitar melhor esta inevitabilidade sempre presente nas nossas vidas.O fio central da história é a visita de uma personagem, a Morte, à casa onde vivem quatro crianças com a sua avó agonizante.

 

Há ainda uma pequena história dentro da história, narrada pela própria Morte, fala-nos de dois irmãos (Sorrow e Grief – Tristeza e Lamento) e duas irmãs (Joy e Delight – Alegria e Prazer) que apenas se completam quando se apaixonam e casam uns com os outros  pode também levar-nos a reflectir sobre o papel das emoções, sentimentos e acontecimentos negativos nas nossas vidas.

Tenho desenvolvido este conto com alunos do 2º e 3º ciclos da seguinte forma:

1. Leitura do conto (com tradução simultânea pois não há edição portuguesa)

2. Pergunta 1: “A morte é uma coisa má?”

3. Diálogo entre os alunos.

Em relação a este tema podemos estar seguros que os nossos alunos terão muito a dizer pelo que o nosso papel deverá ser o de procurar que clarifiquem bem as suas ideias, que todos sejam ouvidos e respeitados de igual forma. No caso de algumas turmas menos habituadas a estes diálogos (talvez não seja um bom exercício para grupos imaturos ou que começaram recentemente a ter sessões de Filosofia), ou se sentirmos que há pouca diversidade de ideias no grupo podemos apresentar aos nossos alunos dois filósofos com duas posições distintas sobre esta questão e pedir-lhes que expliquem os seus argumentos e tomem posição por um deles, apresentando também as suas próprias razões.

Thomas Nagel, filósofo norte-americano contemporâneo, defende que a morte é sempre um mal pois impede-nos de obter coisas boas que a vida nos pode dar.

Epicuro, filósofo grego que viveu há cerca de 2200 anos, defendia que a morte não é nada para nós uma vez que quando estamos ela não esta e quando ela está, nós não estamos.”

4. Concordas com Nagel ou Epicuro. Porquê?

Outra boa alternativa (resulta melhor com grupos maduros e com bastante experiência de Diálogos Filosóficos) é pedir aos alunos que formulem as suas perguntas depois de ouvirem a história e mantenham um diálogo em torno dessas mesmas perguntas. Seguem algumas perguntas levantadas por alguns dos meus alunos dos 6º e 9º anos do Colégio Novo da Maia:

  • A vida ideal é uma vida sem tristeza?
  • Felicidade e tristeza são opostos?
  • O que é ser feliz?
  • Como ser feliz?
  • Há algo além da vida?
  • Esta é uma história sobre Morte ou sobre Vida?
  • Seria bom nunca morrer?
  • Como devemos encarar a morte?
  • A atitude de Nels (de deixar a Morte fizesse o seu trabalho e “levasse” a sua avó) foi a correcta?
  • É possível viver sem alegria ou tristeza?
  • Esta é uma história infantil ou filosófica?
  • A personagem mais importante das nossas vidas é a Morte?
  • A morte tem pena de levar os mortos?
  • É preferível viver muito tempo em sofrimento ou morrer cedo mas em paz?
  • Uma vida sem sofrimento e tristeza seria uma boa vida?

Título: Cry, Heart, but Never Break

Texto: Glenn Ringtved

Ilustrações: Charlotte Pardi

Pode encomendar este livro na Livraria Flâneur pelo preço de 19,90€