Stephen Gough: Liberdade vs. Lei

 

Stephen Gough The Naked Rambler.

Como um Diógenes contemporâneo, o britânico Stephen Gough insiste em andar nu pela rua, aguentando penas de prisão sucessivas por acreditar ser esse o seu direito.

Esta notícia pode levar os nossos alunos a interessantes diálogos sobre a tensão que existe entre a liberdade de escolha e a lei, a nossa vontade e a sensibilidade alheia.

Começamos por “atrair” os alunos para a arena conceptual da liberdade de escolha com as seguintes perguntas:

1 – A liberdade de escolha é um valor fundamental. Concordas?

2 – Devemos poder escolher como viver as nossas vidas desde que não prejudiquemos os outros. Concordas?

Depois de um curto diálogo sobre estas duas perguntas apresentamos e contextualizamos a posição de Stephen Gough e lançamos novamente o dialogo com a seguinte pergunta

3 – Stephen Gough deve ser preso?
Se virmos que as intervenções dos alunos estão muito presas a concepções legalistas de direito comum então devemos procurar que os alunos pensem sobre a moralidade da lei com a seguinte pergunta:

4 – É moralmente errado andar nu pela rua?

Desta forma os alunos perceberão a distinção entre seguir uma lei por que é uma lei ou porque é uma lei justa. Exactamente aquilo que Stephen Gough parece contestar com esta sua atitude.

 

 

 

 

.

GANHAR OU PERDER

Muhammad Ali vs Sonny Liston, 1965 World Heavyweight Title

Imagens como esta fazem parte da nossa dieta habitual de ideias feitas e raramente postas em causa. Imagens que dizem coisas como “ganhar é melhor que perder”, “ser um vencedor é melhor que ser um vencido”, “a glória é superior à humilhação”.

Como pôr certezas destas em causa? Porquê pô-las  em causa? Mas… porque não pô-las em causa?

Afinal saber pensar não é simplesmente repetir de forma automática ideias feitas que “todos sabem que é verdade”. Como podemos saber se alguma coisa é verdade se nunca verdadeiramente pensamos sobre ela? Alguma vez pusemos em causa se a derrota é melhor que a vitória? Se Liston (Sonny) foi mais feliz que Ali (Muhammad) por ter perdido este combate?

Pensar por que motivos (ou por que motivos) “perder é melhor que ganhar” é o objectivo deste exercício.

1- “É melhor ganhar ou perder?”

Aqui os alunos deverão escrever num papel a sua resposta dando um argumento com apenas uma razão. Ex: É melhor ganhar pois a vitória faz-nos sentir melhor.

É de esperar que nenhum (ou muito poucos) dos nossos alunos defendam que é melhor perder, no entanto alguns poderão fazê-lo, sobretudo aqueles mais habituados às “armadilhas” dos nossos diálogos filosóficos.

Depois de ouvirmos algumas respostas dos alunos, a  próxima pergunta deverá levá-los a “pensar o impensável“, ou seja, a pensar o contrário daquilo que habitualmente pensam. Na verdade agora é que, libertos do peso e da rigidez do hábito, os nossos alunos estarão verdadeiramente a pensar.

2 – “Em que é que é melhor perder?”

Os alunos voltam a escrever num papel a sua resposta dando um argumento com uma razão. Ex: É melhor perder pois a derrota dá-nos uma oportunidade de nos superarmos.

3- Para terminar podemos reservar o final da aula para um breve diálogo em torno da primeira pergunta (agora liberto das concepções rígidas iniciais) ou, em alternativa, podemos pedir aos alunos que escrevam um pequeno ensaio argumentativo (pg.6) em torno dessa mesma pergunta.

A MANCHA VERMELHA

Uma investigação infantil em torno da verdade, da mentira e da fantasia.

Neste conto narrado pela contadora de histórias Jara Cuentacuentos, o pequeno Pedro inventa à sua mãe uma história tão engraçada quanto irreal. Será que o Pedro está a mentir à mãe? Seguramente que não está a dizer a verdade. Então qual é a diferença entre dizer uma mentira e contar uma história? Os contadores de histórias são mentirosos?

  1. Inventar uma história é contar uma mentira?
  2. Qual a diferença entre a mentira e a fantasia?

 

 

 

A VIDA DO TOZÉ_ESCOLHAS

1

As crianças adoram histórias e adoram desenhá-las. Com este exercício vamos seguir um dia na vida do Tozé para perceber se aquilo que faz é fruto de escolhas suas ou não.

“De manhã bem cedo os pais do Tozé levaram-no à escola. Era o seu primeiro dia de aulas.”

1.O Tozé escolheu ir à escola?

“Nos intervalos da manhã não fez nenhum amigo e por isso não brincou com ninguém. Foi só ao almoço quando, por acaso, ficou ao lado da Renata e do Martim que meteram conversa com eles que o Tozé arranjou amigos para brincar.”

2

2. O Tozé escolheu ser amigo da Renata e do Martim?

Continuamos a contar e a desenhar a história. O Tozé volta a casa onde janta, dorme, sonha e acorda. No dia seguinte,  o seu segundo dia de aulas, o Tozé encontra à porta da escola a Mariana, uma menina muito bonita por quem se… apaixona.

3. O Tozé escolheu apaixonar-se?

3.jpg

À medida que o diálogo se desenrola os alunos vão apresentando as suas razões e, para os ajudar a seguir as posições que vão surgindo, nós podemos ir ligando aquilo que o Tozé vai fazendo (?) à “Caixa das Escolhas” ou à “Caixa das não escolhas”.
No seu “Caderno da Filosofia” os alunos podem, se quiserem, ir desenhando a história à sua maneira (ver em baixo).

4

DONALD TRUMP: AMERICAN IDIOT?

Resultado de imagem para american flag

Como um elefante na sala este seria sempre um tema impossível (ou pelo menos extremamente penoso) de ignorarmos nas nossas aulas de Filosofia aqui no Colégio Novo da Maia. Ao longo do dia fui sendo interpelado por alunos atrás de alunos a dizer quer devíamos falar do resultado das eleições de ontem à noite nos EUA. Uma aluna chegou mesmo a sugerir que começássemos a aula ao som da música American Idiot, dos Green Day. Assim o fizemos, no 8ºB.

Os diálogos começaram com algumas perguntas que nos levaram a reflectir sobre questões como o “populismo”, o “poder da imprensa”, a “confiança na democracia”, os “valores democráticos” e a possibilidade de “desobediência cívil e revolução” para defender esses valores.

  1. Devemos aceitar a eleição de Donald Trump?
  2. Seria legítimo os norte americanos revoltarem-se contra esta eleição?
  3. O Donald Trump será bom para a América (e para o mundo)?
  4. Donald Trump ganhou justamente?
  5. Donald Trump é um idiota?
  6. Seria correcto substituir a Democracia (em que todos votam) pela Epistocracia (em que só pessoas educadas votam)?

 

 

Nota Final: Muitos dos nossos alunos entrarão na sua vida adulta com Donald Trump como presidente da maior potência mundial. Acredito que só com mais destes diálogos, só com muito mais Filosofia, esta realidade se poderá tornar única e irrepetível.

O NORMAL BOMBISTA SUICIDA

“Um bombista suicida é uma pessoa normal?”

Esta é a pergunta que dá início ao nosso diálogo e que nos permitirá pensar sobre questões como a relatividade ou universalidade do Bem e do Mal, a definição de “normalidade”, a questão de se pessoas normais podem ter crenças e ideias más, etc.

A estrutura do exercício (uma proposta) permitirá ainda aos nossos alunos terem a percepção de como um bom diálogo pode influenciar ou, até mesmo, alterar radicalmente as nossas crenças. É importante que os alunos tenham essa noção de que a flexibilidade (no sentido de estarmos abertos à possibilidade de sermos influenciados pelas ideias e argumentos dos outros) é algo desejável num diálogo filosófico. Esta última ideia abre caminho a uma última questão que podemos deixar para outra sessão – ver ponto 7.

  1. Pesquisar no Google e mostrar aos alunos algumas notícias de recentes atentados suicidas (infelizmente é fácil encontrar essas notícias).
  2. Fazer uma primeira votação sobre a pergunta inicial:”Um bombista suicida é uma pessoa normal?”
  3. Encontrar a percentagem de alunos que respondem “Sim” e “Não” à pergunta inicial feita no início da aula (esta é uma tarefa que alguns alunos mais dados à matemática farão de bom grado por nós).
    Exemplos reais com duas turmas do 6º e 7º anos do Colégio Novo da MaiaRespostas do 7ºA no início da aula de Filosofia
    Sim – 53%
    Não – 47%

    Respostas do 6ºA no início da aula de Filosofia
    Sim: 13,2%
    Não: 86,8%

  4. Abrir o diálogo onde os alunos apresentam as suas razões para terem votado “Sim” ou “Não”. Registar no quadro as razões, argumentos, críticas, exemplos e contra-exemplos que acharmos importantes.
  5. Fazer uma segunda votação à pergunta inicial e registar no quadro as percentagens.Respostas do 7ºA no final da aula de Filosofia
    Sim – 31%
    Não – 5%
    “Nim” – 57%
    Respostas do 6ºA no final da aula de Filosofia

    Sim: 13,2%
    Não: 6,6%
    “Sim e Não”: 80,2%

    Note-se como nestas duas turmas as posições finais dos alunos sofreram ligeiras alterações com mais alunos a defenderem posições menos rígidas e dogmáticas. Em alguns destes casos o diálogo serviu para abrir algumas brechas de “dúvida” que, espero eu, servirão para uma maior abertura em diálogos futuros sobre este tema.

  6. Comentários finais dos alunos às mudanças ocorridas durante o diálogo.
    Tendo em conta este resultado final (esperado) do diálogo faz sentido colocar uma última questão aos nossos alunos que pode ser abordada numa outra aula:
  7. “Pelo diálogo podemos fazer um extremista candidato a bombista suicida mudar de ideias?”