CAFÉ COM KOHAN

kohan

O nosso amigo argentino Walter Kohan está de novo pelo Porto.

Veio para um Seminário sobre Educação na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPCEUP) na segunda-feira e nós vamos aproveitar mais uma vez para realizar um Café Filosófico com a sua presença.

Será este domingo no Yoga sobre o Porto (R. das Carmelitas, 100 3º esq.) às 21h30

Como sempre o Café Filosófico é gratuito mas, por limitações de espaço, só poderemos aceitar um número máximo de 20 participantes .

Inscrições para:

clubefilosoficodoporto@gmail.com

Para conhecerem um pouco melhor o Walter seguem

uma entrevista
e o vídeo do seu último Café Filosófico aqui no Porto

Abraços,

Tomás

A ILHA DO DESTINO

 

Em Filosofia adoramos o contra-factual e o hipotético. Colocar os nossos alunos em situações irreais (mas não necessariamente irrealistas) em que tenham de tomar decisões “como se” as suas vidas dependessem disso é uma fórmula garantida para uma aula intensa e divertida.

Aqui é proposta uma experiência mental e um jogo de tomada de decisão em conjunto que levam os nossos alunos a pensarem sobre questões como a Justiça, o Sacrifício, a Fidelidade e o Destino.

“Numa pequena ilha no Atlântico Norte, a Ilha do Destino, um ditador governa de forma implacável o seu pouco numeroso e atemorizado povo. Um dia escapa por pouco a um atentado à bomba e resolve aproveitar esse golpe de sorte para eliminar os poucos opositores ao seu regime que ousam pôr em causa o seu governo. Prende-os a todos apesar de estarem inocentes e ameaça matá-los caso não indiquem dois acusados. Se o fizerem os restantes serão libertados.

Vocês (os alunos) são esses opositores ao regime que foram presos e que terão de escolher dois acusados de entre vós. Esses dois acusados serão julgados de acordo com a crença principal da cultura desta ilha: o Destino decidirá se são culpados ou inocentes sujeitando-os a um sorteio macabro em que têm 50% de probabilidades de sobreviver, sendo então inocentados, ou de morrer sendo então reconhecida a sua culpa.”

Pergunta 1: Devemos acusar dois companheiros ou deixar que toda a gente morra?

Se os alunos escolherem acusar dois companheiros sujeitando-os ao “julgamento” do Destino devem propor uma forma de indicar esses dois nomes (sorteio, voluntários, etc.)

O diálogo em torno do que deve ser feito e de como deve ser feito irá ocupar-nos a quase totalidade da aula com alguns alunos a defenderem que não é justo indicar qualquer nome pois todos estão inocentes e outros a defender que deverão tentar salvar o maior número possível de pessoas sendo que, com alguma sorte, todos poderão ser salvos. A forma como deverão escolher os acusados também poderá tomar várias formas.

Dificilmente um grupo escolherá sacrificar todos os elementos. Realizei este exercício umas 15 vezes e apenas numa turma a maioria dos alunos decidiu sacrificar-se. Mas neste caso, como o diálogo foi muito vivo e demorado, ocupando a totalidade da aula, não foi necessário encontrar uma forma de dar continuidade ao exercício. Mas se pretendermos podemos fazê-lo incluindo uma regra ad hoc em que apenas aceitamos o sacrifício de todos se houver unanimidade em relação à primeira opção:

  • Ao não acusar dois colegas Todos têm 0% de sobrevivência.
  • Ao acusar dois colegas esses têm 50% de hipóteses de sobrevivência cada um e Todos  os outros 100%.

Usando esta artimanha praticamente forçamos o grupo a escolher dois acusados pois dificilmente todos concordarão em sacrificar o grupo todo com base num princípio da justiça. Seguramente que considerações mais pragmáticas, ou utilitaristas, convencerão alguns dos nossos alunos, o que nos pode interessar se quisermos levar o grupo a pensar sobre mais algumas questões e temas.

Após a nomeação (quase certa) de dois “acusados” perguntamos:

Pergunta 2: Houve justiça?

Desta forma os alunos são levados a pensar sobre dois diferentes níveis de justiça: uma justiça em absoluto em que não houve justiça pois todos estão falsamente acusados à partida, e uma justiça em contexto em que dadas as circunstâncias impostas houve a melhor justiça possível.

“Agora que temos dois acusados o Destino decidirá se são culpados ou inocentes.”

Usando este simulador de “Roleta Russa” que encontrei na net (graças aquelas horas de navegação ociosa) em que podemos colocar as probabilidades em 50% deixamos o “destino” decidir a sorte dos dois acusados.

Depois de sabermos se foram considerados culpados ou inocentes voltamos a repetir a:

Pergunta 2: Houve justiça?

Como é óbvio a discussão que tivermos daqui para a frente será totalmente influenciada pelo resultado do “sorteio” que acabámos de realizar. Se ambos forem considerados “culpados”, se ambos forem considerados “inocentes”, ou se um for uma coisa e outro outra. Mas é de esperar algumas considerações sobre o Destino e o justo sacrifício dos “acusados”.

Uma forma de continuar a sessão, levando os alunos a pensar mais uma vez sobre Justiça mas também sobre as ideias de Castigo e Vingança, é revelando algo que aconteceu na ilha após o julgamento/sorteio:

“Atenção! Aconteceu algo. Uma revolução na ilha. Vocês foram soltos! O ditador foi preso. A situação é a seguinte:

O ditador será julgado à maneira da ilha. Pelo destino.

A questão é quantas balas colocar na pistola. Têm três hipóteses:

1, 3 ou 5

O QUE É MAIS JUSTO FAZER?

 

 

 

 

Qualquer que seja o resultado, se jogarmos bem a “cartada” do suspense na altura da decisão do destino temos aqui uma daquelas sessões de filosofia explosivas que ficará na memória de todos.

(adaptado de “Diktatia” – Problema 12 em 101 Philosophy Problems, de Martin Cohen)

 

 

 

O LEÃO E O PÁSSARO

 

Marianne Dubuc quase não usa palavras para nos contar esta história de uma amizade incomum entre um leão sedentário e um pássaro nómada, mas à medida que vamos folheando as suas páginas vamos percebendo que as usa na medida certa, apenas para pontuar aqui e ali uma situação, um sentimento ou uma ideia: “E assim foi. Às vezes a vida é assim.”

Na verdade os desenhos falam-nos tanto, são tão fortes e significativos que uma vez compreendida a sua linha narrativa o texto torna-se desnecessário e, até mesmo, excessivo numa segunda leitura onde podemos deixar-nos envolver poeticamente pelo silêncio que algumas páginas inesquecíveis deste livro nos oferecem.

 

 

Uma história que pode levar-nos a reflectir sobre a amizade, a solidão, o abandono, a partida, o cuidado com os outros e a saudade.

Algumas perguntas:

1 – O que levou o leão a gostar do pássaro?

2 – É mais fácil gostar de alguém muito diferente de nós ou muito parecido connosco?

3 – O leão tinha obrigação de cuidar do pássaro?

4 – Temos obrigação de cuidar de um desconhecido?

5 – Por que é que o bando deixou o pássaro para trás?

6 – Se pudessem, os pássaros deviam voltar para trás?

7 – A natureza é cruel?

 

QUARTA-FEIRA

Um círculo cor de laranja e um quadrado azul juntam-se todas as quartas-feiras para jogarem o seu jogo favorito. Um nomeia uma coisa e os dois têm de se transformar nessa coisa. A brincadeira começa bem com os dois a transformarem-se em cogumelos e flores, mas depois o grande quadrado azul, mais versátil pois têm ângulos, vértices e superfícies planas, começa a tomar formas que o pequeno círculo não consegue acompanhar: “uma vedação, um papagaio, um pinheiro, uma casa, etc.” É aqui que a brincadeira acaba e vai cada um para o seu canto. Até que o círculo tem uma ideia.

“Vamos construir algo em conjunto.”

Sabemos que um bom enredo tem a capacidade de nos levar a simpatizar com as personagens retratadas, mas é surpreendente ver as crianças a sentirem pena dos dois amigos que se zangam e afastam pois um não consegue brincar com o outro, a darem sugestões do que devem fazer para se voltarem a aproximar e (spoiler alert) a se alegrarem quando finalmente o fazem. Sobretudo quando esses dois amigos não são pessoas ou animais com corpo e espessura com os quais facilmente nos identificamos, mas antes anódinas figuras geométricas.

Esta é uma história que nos fala de fazer e manter amigos e da importância de nos preocupar-nos com os limites e vontades do outro. A solução encontrada pelos dois também nos mostra como uma boa amizade nos pode tornar mais fortes ajudando-nos a ultrapassar essas nossas limitações.

Tudo coisas que dizem muito às crianças que vivem constantemente e intensamente situações de conquista e perda de amigos, de capacidade e incapacidade de brincar com o outro, praticamente a cada intervalo da escola.

 

 

Algumas perguntas para pensar:

1.Por que foi “cada um para seu lado”?

Esta é uma pergunta de interpretação do texto e é um bom ponto de partida para o nosso diálogo uma vez que é relativamente fácil de responder, mesmo pelas crianças mais inseguras e geralmente menos participativas. Ainda assim é de esperar alguma controvérsia quanto às causas da zanga.

2. De quem foi a culpa de se terem zangado?

Depois de explorarem várias razões para a zanga é altura de apurarmos responsabilidades. Esta pergunta leva os alunos a assumirem um posicionamento moral sobre o comportamento de cada uma das personagens. O quadrado será acusado por alguns de egoísmo, para outros o círculo amuou sem razão e devia ter -se esforçado mais para acompanhar o quadrado. Para muitos a culpa é dos dois.

3. O círculo e o quadrado ainda são amigos?

Esta é já uma pergunta que leva as crianças a reflectir sobre o conceito de amizade. Por exemplo se uma amizade pode ser intermitente (admite períodos de recuo) ou se tem de ser contínua (apenas com uns momentos bons e outros menos bons). Podemos ilustrar estas duas noções de amizade com uma linha contínua

a) _______________

e uma linha intermitente

b) ____     _____     _____     _____

e perguntar algo como:

3. A amizade é contínua (a) ou intermitente (b)?

O livro termina com esta imagem muito sugestiva sobre a qual podemos perguntar:

4. O que significa esta imagem?

Preparem-se para, consoante a maturidade e desenvolvimento dos nossos alunos, ouvirem respostas como “o quadrado emprestou a boca ao círculo” ou tiradas mais filosóficas como “para sermos amigos temos de dar um pouco de nós aos outros”.

Podem comprar/encomendar este livro na Livraria Flâneur no Porto.

Sessões de continuidade:

  • Pedir às crianças joguem o jogo preferido do quadrado e do círculo e que desconstruam círculos e quadrados em partes mais pequenas e com essas partes construam algo. Aqui têm alguns exemplos dos alunos dos 5 anos da Educadora Carina no Colégio Novo da Maia.

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COMO SE CONSTRÓI UM SONHO

peripateticos

“Podemos ser o sonho de um homem morto?” Rodrigo, 9 anos.

No conto “Ruínas Circulares” Jorge Luís Borges fala-nos de um homem que se esconde na selva e procura sonhar outro homem até ao ponto de o tornar real. Quando no fim um incêndio o cerca e repara que as chamas não o queimam compreende que ele sim é um homem sonhado por outro homem.

(continua em breve)