Nasreddin e os doces

Foto de Oscar Brenifier.

“Nasreddin está a tentar dormir a sesta, mas lá fora algumas crianças perturbam o seu sono com o barulho das suas brincadeiras. Irritado Nasreddin vai à janela e manda-as embora. Como não saem dali resolve dizer-lhes que está uma senhora do outro lado da aldeia a dar doces a todas as crianças que lá forem. Quando as crianças ouvem isto partem a correr com água na boca em busca dessa senhora.  Passado algum tempo, ainda sem dormir, e como as crianças não tinham voltado Nasreddin diz para si mesmo: “Acho que vou lá também. Aquilo que lhes disse deve ser verdade.”

Soube desta história e aprendi o seguinte exercício em torno do mestre “Nasreddin” com o meu próprio mestre Oscar Brenifier a quem devo muito da minha prática em Filosofia com Crianças (e não só). A ideia é evitar o dogmatismo que a nossa mente é propensa a cair quando se agarra a uma ideia. Às vezes apenas por que é a primeira ideia que nos ocorreu, sendo que as outras ideias que entretanto surgirem durante o diálogo já não serão “a nossa ideia” e estaremos menos predispostos a aceitá-las, mesmo que sejam melhores (mais válidas, com mais sentido, verdadeiras, etc.) que a nossa primeira ideia.

  • Apresenta 3 hipóteses de resposta à seguinte pergunta: “Por que é que Nasreddin acredita na sua própria história?”
  • Critica com argumentos as hipóteses com que não estás de acordo.

No decurso deste diálogo crítico vamos tentando perceber com os nossos alunos quais as hipóteses que fazem mais sentido e porquê, quais foram bem fundamentadas e porquê, etc.

No final podemos fazer uma votação em torno das hipóteses mais populares e eleger uma delas.

Outra questão interessante que esta história levanta, sobretudo para os nossos alunos mais “velhinhos” (2 e 3 CEB) é a questão de saber “o que é a “verdade” e em que consiste “dizer a verdade”:

  • Nasreddin acreditava que estava a mentir às crianças quando lhes disse que estava uma senhora a dar doces do outro lado da aldeia, mas a verdade é que estava mesmo uma senhora a dar doces do outro lado da aldeia. Neste caso, Nasreddin mentiu às crianças?
  • Para mentir é preciso conhecer a verdade?
  • Posso dizer a verdade e mentir ao mesmo tempo?

Não me comas a mim!

 

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Conheci esta história pela voz (e música, e expressão teatral e etc.) do excelente contador Paulo Alexandre Jorge.

Vi, ao vivo, o efeito que uma história bem contada tem nas crianças. Os meus filhos ainda hoje cantam o refrão que o Paulo criou para musicar o conto: “Mateus Ai Ééé, Mateus Ai Ááá, Mateus é que Ééé, Mateus é que Hááá!”
Aconselho, portanto, a que, na medida das vossas possibilidades, teatralizem e dêem a vossa própria cor e corpo a esta história da Margarita del Mazo e às suas engraçadas personagens: o Mateus, o monstro vermelho, o seu peluche, o seu cão, a sua tia e a sua mãe.

A personagem principal, o Mateus, é daquelas figuras que representam o Ser Humano (complexo, dúbio, com medos, com vontade de os vencer, com decisões para tomar, etc.) e a história está cheia de momentos eticamente interessantes, com escolhas no mínimo duvidosas (“O Mateus deve sacrificar o seu peluche para se salvar?”) que, por isso mesmo, nos dão excelentes pretextos para pensarmos e dialogarmos sobre o rumo que a história vai tomando.

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Durante a história, e à medida que os perigos e os dilemas morais do Mateus forem surgindo, podemos ir perguntando o que é que o Mateus deverá fazer, se fez bem em fazer o que fez e se deveria ter feito outra coisa (e o quê).
Após esta fase de especulação criativa poderemos, no final da história, levar o diálogo para além de si próprio, para uma fase mais “filosófica” (abstracta, geral, universal) com questões como

  • É possível fazer sempre o correcto?
  • Como podemos saber o que é correcto fazer?

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Um paradoxo interessante nesta história é que as crianças sentem um “medo de morte” ao ouvi-la, mas ao mesmo tempo, um fascínio que as leva a querer ouvir mais e mais à medida que o Mateus vai cometendo atrocidades e sacrifícios horríveis que arrepiam qualquer ser humano com um pingo de consciência moral. Esta confusão de sentimentos é a mesma que nos leva a gostar de “coisas horríveis e sombrias” como filmes de terror, histórias de espíritos e fantasmas, música fúnebre, etc. E a partir daqui poderá ser interessante levar as crianças a pensar sobre isto, com perguntas como:

  • É bom ter medo?
  • Por que é que gostamos de sentir medo quando ouvimos uma história de Terror?
  • O medo é uma coisa má?

Poderão encomendar este livro na Livraria Salta Folhinhas.

 

Mais histórias e exercícios no Projecto Filocontos

O elefante e os seis sábios.

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No livro “Tertúlia de Mentirosos”, uma colectânea de pequenos contos filosóficos de todo o mundo, Jean Claude Carriére conta-nos a história de seis sábios que num quarto escuro tentam identificar o animal que está lá dentro (noutras versões deste mesmo conto os sábios são cegos). Cada um agarra-se a uma parte diferente do corpo do bicho (tromba, orelha, cauda, etc.) e diz estar perante algo diferente dos demais (uma cobra, um leque gigante, uma corda, etc.). Nenhum reconhece o elefante que tem à sua frente, apesar de todos terem parcialmente razão.

Uma narração oral deste conto aqui

Contada com um pouco mais de detalhe e fantasia (os sábios vieram das seis províncias mais longínquas do império persa, o desafio foi lançado pelo rei Dario que quis provar algo aos seus sábios, por exemplo) este conto pode ser um bom estímulo para um diálogo sobre várias perspetivas acerca da verdade, assim como uma boa oportunidade de os alunos perceberem como um diálogo mais que uma arena onde se debatem opiniões deve servir como oportunidade de pôr à prova as nossas ideias e, possivelmente, alterar essas ideias ou, até mesmo  arranjar outras.

1) Conta-se a história aos alunos.

2) O que é que o rei Dario quis provar aos seis sábios? (neste ponto muito rápidamente o diálogo passa das interpretações do conto para aquilo que os alunos defendem sobre a verdade).

Neste ponto o professor pode sugerir algumas frases representativas de posições filosóficas distintas :

i) Todos temos a nossa verdade.

ii) A verdade não existe.

iii) A verdade existe, é só uma, e é possível conhecê- la.

iv) A verdade existe, é só uma, mas não é possível conhecê- la.

v) Outra.

3 – Verificar por votação de braço no ar quem defende o quê antes do diálogo

4 – Diálogo em torno das várias teorias sobre a verdade defendidas pelos alunos.

5 – Verificar novamente por braço no ar as posições dos alunos após o diálogo.

6 – Metadiálogo entre os alunos sobre os porquês de terem mudado de posição  as opiniões válidas que ouviam  as boas razões que descobriram para posições contrárias à sua, etc.

Um bom exercício alternativo é simplesmente pedir aos alunos que nos digam aquele que entendem ser o significado deste conto numa frase. Escrevemos algumas dessas frases no quadro e avançamos para o diálogo a partir daqui com os alunos a avançarem razões e críticas às interpretações uns dos outros, como se pode ouvir aqui.

 

 

5 histórias, 5 ideias

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Cada história pode ter em si várias histórias. Dependendo do ponto de vista que escolhermos (do leitor, de uma das personagens, etc.), da importância que dermos a determinada situação, de o nosso enfoque estar nos acontecimentos,  nas suas causas ou consequências, etc.

Este exercício é uma forma de obrigarmos os nossos alunos a explorarem essas diferentes perspectivas que uma história permite

Em grupos de 5/6 alunos estes devem ligar cada história,  contada à vez, a um dos conceitos propostos inicialmente. A cada história nova a adequação a esses conceitos deverá ser reavaliada e, se assim os alunos decidirem, alterada.

No final deste exercício as cinco histórias terão sido seguramente viradas do avesso várias vezes e, também seguramente  nunca mais serão as mesmas.

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A Mulher ou o Tigre

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Por vezes procuramos, procuramos e quando deixamos de procurar encontramos. Foi o que me aconteceu com esta história, uma pequena pérola narrativa escrita por Frank R. Stockton para a “Century Magazine” em finais do século XIX. Há dias que percorria antologias de contos fantásticos, literatura russa e tradicional portuguesa à procura de uma história surpreendente para juntar  à já rica colecção que temos no projecto Filocontos. Desde que comecei este projecto ando constantemente atento a novas histórias que podem surgir em qualquer lado e, desta vez, fui chamado à atenção para este conto pelo Nicholas Rescherno no seu surpreendente livro “Uma viagem pela filosofia em 101 episódios”.

Pesquisei um pouco e encontrei aqui uma transcrição áudio em inglês de “A mulher ou o tigre” e comecei logo a preparar um exercício para sala de aula.

Entre outros temas interessantes este conto faz-nos pensar sobre as fronteiras ténues entre sentimentos como o amor, a posse, o ciúme e o ódio. Como o próprio conto nos deixa em suspenso quanto ao final é também uma excelente oportunidade para pedirmos aos nossos alunos finais alternativos, outros rumos de acção  cenários prováveis  etc., tudo isto enquanto pensam e falam sobre questões como “o que nos leva a agir?”, “a razão tem mais força que a emoção?”, “o amor é egoísta ou altruísta?”, “o que nos faz sermos boas pessoas?”  etc.

“Olho por olho, dente por dente” no CNM

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Talvez motivados pelos recentes casos de violência no desporto e pela sensação de injustiça e inimputabilidade que eles despertam, os meus alunos no 8°B do Colégio Novo da Maia (uma das minhas turmas mais antigas – desde o 4°ano) escolheram a “lei de Talião” como o mote para aquele que poderá ser o nosso último Diálogo Filosófico, em que participei como mais um filósofo à procura de respostas. Encontrámos algumas  mas como quase sempre  não totalmente satisfatórias. Continuemos a tentar.