OFICINA DAS CRENÇAS

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Fazer Filosofia é, entre outras coisas, um processo de verificação da consistência de um conjunto de crenças.

Da mesma forma que quando adiamos a revisão periódica do nosso carro quase invariavelmente encontramos surpresas desagradáveis, sujas e caras, passa-se o mesmo com as nossas crenças. Quando não verificamos regularmente aquilo em que acreditamos, o resultado que obtemos (as decisões que tomamos, por ex.) é também desagradável, sujo e, possivelmente, de custo elevado. O melhor é, como com o nosso carro, levar as nossas crenças periodicamente à oficina. À Oficina das Crenças.

Proponho aqui uma estrutura de exercício pode ser aplicada a uma série de temas e perguntas de que a seguir dou alguns exemplos:

1 – Começamos por levar os alunos a tomarem uma posição sobre um tema ou questão filosófica. Ajuda ao nosso exercício se for um tema ou questão normalmente consensual (como os exemplos que aqui dou), pois isso fará com que mais alunos avaliem e, possivelmente abandonem a sua crença inicial.

2 – Em seguida pedimos que analisem um determinado episódio (real ou fictício) relacionado com o tema ou a pergunta anterior (se bem que muitas vezes os alunos não percebam de imediato a natureza dessa relação).

3 – Depois pedimos aos alunos que se posicionem criticamente face a esse episódio (concordam, não concordam; acham bem ou mal; aceitam, não aceitam; etc.)

4 – Por fim, já em diálogo com o grupo todo testamos as respostas individuais de cada um pedindo aos colegas que as avaliem. Aqui interessa que digam se concordam ou não com as razões apresentadas, se encontrem alguma inconsistência entre as várias respostas e razões).

Exemplos 1 – Liberdade de Expressão

Começamos a sessão com um breve diálogo sobre a seguinte pergunta

1 – Deve haver Liberdade de Expressão?

Em seguida apresentamos e contextualizamos a seguinte notícia em que um eurodeputado polaco foi multado por expressar as suas opiniões misóginas no Parlamento Europeu e perguntamos:

Em seguida os alunos analisam o episódio sem se posicionarem criticamente perante ele.

2 – “Houve Liberdade de Expressão?”

Agora sim os alunos deverão posicionar-se criticamente perante o episódio da multa ao eurodeputado.

3 – Concordas com esta multa?

Podemos ir escrevendo no quadro à frente das perguntas as respostas (“Sim” ou “Não”) dos alunos, um a um, para depois ser mais compreensível para todos o passo 4:

4 – Encontram algum problema nestas respostas?

Aqui lguns alunos acharão estranho que se possa responder, por ex.

“Sim” a 1),

“Não” a 2) e

“Sim” a 3)

Aparentemente há aqui uma contradição em defender que se defende a Liberdade de Expressão, mas que se concorda que ela seja censurada em algumas situações.

Escrevi aparentemente pois o diálogo seguramente fará ver alguns alunos que uma forma de evitar a contradição é defender noções mais fracas de Liberdade de Expressão, ou seja, uma Liberdade de Expressão não absoluta mas com limites.

Aqui entramos noutra discussão interessante que é a de descobrir onde deveremos colocar os limites à Liberdade de Expressão. No insulto?; no mal-estar de quem é criticado?; em lado nenhum?

Prepare-se para ouvir aquela expressão tantas vezes repetida de forma acrítica “A minha Liberdade termina onde começa a Liberdade do outro.” Se aprofundar com os alunos um pouco esta expressão perceberá que há pouco ou nenhum entendimento comum quanto ao que ela quer dizer e que, na verdade é apenas uma forma de tentar responder (de forma insatisfatoria) à anterior questão dos limites.

Prepare-se, também, para algum desconforto sentido por alguns alunos, fruto da dissonância cognitiva gerada pelo confronto entre crenças incompatíveis.


Exemplo 2 – Direitos dos animais 

  1. Os animais têm direitos?
  2. Relato de experiências com animais para fins de investigação científica/médica.
  3. Concordas com estas experiências?
  4. Vês algum problema nestas respostas?

Exemplo 3 – Valor da vida humana

  1. Todos temos o mesmo valor?
  2. Episódio em que alguém salva a vida de um amigo e não um desconhecido.
  3. Fez bem em salvar o amigo?
  4. Vês algum problema nestas respostas?

Exemplo 4 – A moralidade da guerra

  1. A guerra é um mal.
  2. A II Guerra Mundial contra Hitler.
  3. Foi um mal entrar nessa guerra?
  4. Vês algum problema nestas respostas?

DEUS OU O ACASO

 

 

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Para simplificar vamos pôr as coisas assim:
ou foi o senhor de barbas em cima (Deus) que criou os Seres Humanos, ou foi como disse o senhor de barbas em baixo (Darwin) e somos o resultado de uma série de acasos e necessidades fisíco-biológicas.

Pensando, por hipótese, que apenas uma destas hipóteses é verdadeira (criacionismo ou darwinismo) como respondes a esta pergunta:

Charles-Darwin

“O Ser Humano tem mais valor se tiver sido criado por Deus ou pelo acaso?”

 

nota: este exercício surgiu a partir desta discussão na minha página no Facebook, que por sua vez surgiu como reacção a este artigo do Padre Gonçalo Portocarrero de Almada.

 

 

 

 

 

 

 

SER EUROPEU

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Polícias e médicos londrinos tentam salvar a vida de Khalid Masood, um terrorista que momentos antes assassinara com uma faca Keith Palmer, um polícia inglês, depois de ter tentado atropelar centenas de pessoas na ponte de Westminster, ferido cerca de quarenta e morto quatro.

É numa civilização como esta, que tenta salvar a vida de terroristas e criminosos, que queres viver?
A tua resposta dirá se és ou não um Europeu.
Ser Europeu é isto.

O PROFESSOR ANTERIORMENTE CONHECIDO COMO “PROFESSOR TOMÁS”

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Em Filosofia os nossos instrumentos de trabalho são as palavras. Por vezes aos nossos alunos (sobretudo aos nossos alunos mais novos) faltam as palavras certas para pensarem um pouquinho melhor sobre os problemas que lhes colocamos. Este exercício pretende fazer com que os nossos alunos sintam a necessidade de determinadas palavras (ou conceitos) para os ajudar a dar corpo às ideias com que se debatem. Trata-se de um exercício muito dinâmico que irá certamente arrancar gargalhadas dos seus alunos e é extremamente flexível tendo-o alterado substancialmente e com sucesso, a cada nova sessão e usado com turmas do pré-escolar ao 9º ano.

As palavras em torno das quais esta sessão se desenrola são “saber” e “acreditar”, mas só as vamos introduzir mais a frente no exercício. Para já vamos criar nos nossos alunos a necessidade de usarem essas palavras.

Nas aulas de Filosofia usamos um objecto a que chamamos “microfone mágico” para falarmos apenas na nossa vez. Esse objecto costuma ser uma bola e e essa bola que dará início a esta sessão.

“Olhem bem para esta bola.”

Saímos da sala por uns segundos e voltamos a entrar.

Pergunta 1 – “É a mesma bola?”

Pergunta 2 – “Como sabem?”

Esperar por respostas como “É a mesma pois tem as mesmas cores.” “É a mesma pois tem a mesma forma e o mesmo aspecto.” À medida que os alunos forem apresentando razões vamos registando-as no quadro e pedimos a outros alunos que as critiquem: “Por ter as mesmas cores, forma e aspecto não significa que sejam a mesma. Podem só ser iguais.”

Deixamos o diálogo avançar um pouco sempre procurando críticas e contra-argumentos às ideias que forem sendo avançadas. Desta forma vamos criando um certo “capital de dúvida” no seio do grupo que fará com que alguns alunos comecem a questionar se “sabem mesmo” que é a  mesma bola (como de facto é).

“Ok, meninos. Agora vou apresentar-vos duas palavras que vocês já conhecem e que nos serão úteis para compreendermos um pouco melhor este problema. Desenhamos no quadro as palavras “SEI” e “ACREDITO” (ou “saber” e “acreditar”, como preferirem). E perguntamos:

Pergunta 3 – Quem me pode dizer por que estas palavras nos são úteis nesta discussão?

Aqui devemos dar oportunidade a vários alunos de falarem para irem completando e complementando o que uns e outros vão dizendo, construindo assim uma rede de compreensão mais alargada sobre estes dois conceitos. A distinção entre estas duas palavras estará a cargo de outras que os alunos já dominam como “certeza e incerteza”, “segurança e insegurança”, “verdade e dúvida”, “grande conhecimento e pequeno conhecimento” (caso real), pelo que esta é a altura de colocarmos a pergunta seguinte:

Pergunta 4 – Acreditam ou sabem que a bola (não) é a mesma?

Depois de gastarmos uns bons 20 minutos com esta discussão podemos tentar “subir a parada” filosófica da sessão com o seguinte desafio:

“A bola não foi lá para fora sozinha, pois não? Quem a levou? E quem a trouxe para dentro?

Pergunta 5 – A pessoa que levou a bola lá para fora é a mesma pessoa que a trouxe para dentro?

Por esta altura, com os alunos munidos destas duas palavras, da noção de “conhecimento seguro e duvidoso”, “certeza e incerteza” e também dos critérios e argumentos que usaram para questionar a “mesmidade” da bola (cores, forma, peso, etc.) com toda a certeza alguns deles avançarão divertidos a hipótese de a pessoa que têm à sua frente não ser o “professor Tomás” mas talvez um seu clone ou irmão gémeo (ou ser o professor Tomás, mas no início da aula ser um clone ou um irmão gémeo – Vasco e António foram os nomes sugeridos para esse meu putativo irmão).

É possível que, com alunos mais velhos, o diálogo se desenvolva para questões de “identidade” (“Sou a mesma pessoa que era no início da aula?”) mas com os alunos mais novos o mais provável é que o diálogo se mantenha em torno dos critérios epistémicos que nos fazem “saber algo” ou “acreditar em algo”, assim como da questão cartesiana, a dúvida radical, de se podemos saber com certeza alguma coisa?

Como exercício para uma aula seguinte podemos, exactamente, desafiar os alunos a encontrarem:

“algo que saibamos com certeza absoluta.”

Prefiro “jogar” com as sugestões dos alunos (e eles também) mas “para o caso” seguem algumas ideias:

1 + 1 = 2

Temos cérebro

A Terra é redonda

Eu sou eu

etc.

Este exercício é uma adaptação do exercício “Rulers” do Peter Worley em “40 Lessons to get children thinking“.

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