PEQUENO AZUL E PEQUENO AMARELO

… e às vezes o livro perfeito vem parar às nossas mãos. “Pequeno Azul e Pequeno Amarelo” é esse livro.
Este que foi o primeiro livro do grande autor e ilustrador Leo Lionni (Frederico), criado em 1959 para os seus netos, é de uma simplicidade e beleza comoventes.

Duas manchas coloridas (o “Pequeno Azul” e o “Pequeno Amarelo”) vivem uma singela história com todo os condimentos de uma grande novela, capaz de deixar as crianças em suspenso quando os dois amigos se separam (onde estará? será que nunca mais se vão ver?), em lágrimas quando surgem mudados em frente aos pais e estes não os reconhecem e rejeitam (e agora? o que vai ser deles?) e, finalmente aliviados quando tudo acaba bem, com brincadeira e abraços como os nossos pequenos mais gostam.

Em Wednesday, da ilustradora francesa Anne Bertier, já tínhamos visto como as crianças são capazes de se emocionarem com os problemas e as aventuras de simples figuras geométricas, e agora vemos que fazem o mesmo com manchas de tinta.

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Qual será o segredo destas grandes histórias (e da literatura) que nos levam a dar vida e criarmos ligações tão fortes com simples manchas em papel? Só alguns conhecem o segredo e Leo Lionni, de alguma forma, descobriu-o em 1959 quando criou esta história para os seus netos.

Muito resumidamente “Pequeno Azul e Pequeno Amarelo” é a histórias de dois amigos o Azul e o Amarelo que por gostarem tanto um do outro, se abraçam com muita força e acabam por ficar os dois Verdes.

Só este tema das cores primárias e da mistura de cores fará as delícias de todas aquelas Educadoras de Infância mais criativas que tirarão desta história inúmeros pretextos para actividades “mão na massa” com plasticinas, lápis de cera, transparências coloridas, etc.

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No entanto, uma leitura atenta desta história pode mostrar-nos vários temas de interesse filosófico que poderemos aprofundar com os nossos alunos. Entre os que já experimentei em sala de aula e posso garantir que resultam bem estão os seguintes:

Eu e os Outros: “Os outros mudam quem eu sou?”

Qualidades Essenciais e Acidentais: “Eu sou aquilo que pareço?”

Lógica (pricípio da identidade): “Uma coisa pode ser duas coisas?”

Amizade: “A amizade torna-nos iguais?”

Identidade Pessoal: “O que é ser uma pessoa?”

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Estas são algumas das perguntas filosóficas de carácter mais geral que queremos que os nossos alunos pensem e discutam sobre elas. No entanto a nossa sessão estará condenada ao fracasso se as colocarmos “de chofre” aos nossos alunos, sobretudo aos mais novos.

Antes disso deveremos ir preparando terreno começando por explorar a capa e o título (“De que acham que nos vai falar esta história?”) ou, até mesmo, com alguma actividade prática muito simples, tal como pintar as duas personagens, o “Pequeno Azul” e o “Pequeno Amarelo” a lápis de cera, sobrepondo os desenhos quando as personagens se abraçam, etc. Desta forma chamamos ao diálogo aqueles alunos mais avessos a participar, assim como aqueles com uma forma de pensar mais plástica e artística que conceptual e dialógica.

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Em seguida devemos procurar colocar algumas perguntas “certeiras”, i.e., perguntas fechadas (que peçam uma resposta sim ou não) e de âmbito concreto (acerca de um acontecimento ou de uma personagem da história) para que seja mais fácil às crianças entrarem no diálogo. Depois, à medida que as repostas vão surgindo, as ideias fluindo e a compreensão geral do grupo for aumentando, quando acharmos ser a altura certa colocamos algumas daquelas perguntas mais gerais e filosóficas que vimos em cima.

Aqui estão algumas das perguntas preparatórias (para esses temas e perguntas gerais) que usei nos diálogos com os meus alunos:

  • Quantas “pessoas” estão na capa do livro?
  • E agora (quando se transformam num círculo verde)?
  • Por que é que os pais não os reconheceram?
  • A amizade transformou o Azul e o Amarelo noutras pessoas?
  • Onde estão o Azul e o Amarelo?
  • Agora que ficaram verdes Azul e o Amarelo já não são a mesma pessoa?
  • Um corpo pode ser duas pessoas?
  • Dois corpos podem ser uma pessoa?

Perguntas fechadas como esta última (que pedem uma resposta Sim ou Não) são excelentes pontos de partida de um diálogo filosófico. Em primeiro lugar levam os alunos a tomarem uma posição clara, sendo depois mais fácil apresentarem razões para essa posição. Uma pergunta fechada também nos permite antever que seremos confrontados com uma de duas respostas (“Sim” ou “Não”), pelo que será mais fácil para nós prepararmos duas perguntas que problematizem cada uma dessas respostas.

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No caso de os alunos responderem que ainda são as mesmas pessoas, o “Azul” e o “Amarelo”, então mostramos-lhes a imagem em que os dois amigos estão verdes e perguntamos: “São azul e amarelo?”

Face a esta “evidência” de que não são azuis e amarelos, alguns alunos poderão reparar na diferença entre nomear algo de “Azul” ou “Amarelo” e ser de facto de cor azul e amarela. Outros poderão avançar alguns critérios para se ser uma pessoa, como “sentem emoções, pensam, têm pais, respiram”, etc. e adiantarão que não é preciso ter uma determinada cor para se ser pessoa e que uma mesma pessoa pode mudar de cor ao longo da vida. Aqui estaremos a caminhar com os nossos alunos em campos da lógica argumentativa nomeadamente no domínio das condições necessárias e suficientes para se ser pessoa, ou a mesma pessoa.

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Por outro lado, se os alunos responderem que “não são já a mesma pessoa” então poderemos perguntar “se os pais fizeram bem em os rejeitar?” Confrontados com esta terrível pergunta alguns alunos reconsiderarão a sua reposta, outros ficarão na dúvida suspendendo o juízo (“não sei”, “estou confusa”) e outros, ainda “morderão a bala” e, apesar das consequências aparentemente inaceitáveis do seu raciocínio, continuarão a achar que “já não são o Azul e o Amarelo, por isso deverão ir viver juntos”.

O que isto nos mostra é que, independentemente de concordarmos com as razões dos nossos alunos, de acharmos que deveriam ou não mudar de ideias em face das perguntas que lhes colocámos, o que é importante é verificar se os nossos alunos são capazes de ter consciência das consequências, implicações e possíveis contradições para que os seus próprios raciocínios apontam. Perceber isso mesmo e não ignorar as ideias que lhes são contrárias (o muito comum “é a minha opinião e pronto!”), mas sim respondendo em consonância com o problema que lhes é levantado é sinal de maturidade intelectual e é quase tudo o que lhes podemos pedir num diálogo: que tenham em consideração as ideias do outro e deixem que estas os contagiem e os modifiquem, mesmo que ligeiramente.

Além da riqueza filosófica por trás desta história os alunos também encontrarão bastantes oportunidades de mostrar e explorar os seus conhecimentos em áreas como o Português, a Formação Cívica, o Estudo do Meio, Expressões Artísticas, etc.

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Aqui está por que este livro é perfeito: duas manchas e uma pequena história dão-nos a possibilidade de “irmos por aí”, filosofando com os nossos alunos durante umas belas horas.

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