REAL OU IRREAL

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Nada como uma história fantástica, cheia de coisas difíceis de acreditar misturadas com outras um pouco menos inverosímeis, para captar a atenção dos nossos alunos e desperta-lhes a vontade de pensar.

Enquanto ouvem uma história as crianças fazem o mesmo que nós quando vemos uma série ou lemos um romance, desligam o “operador de cepticismo” dos seus cérebros permitindo que aconteça algo a que se costuma chamar de “suspensão da descrença”, ou seja, ao ouvirem uma história as crianças acreditam em tudo o que lhes é dito, ou pelo menos, agem e sentem como se acreditassem. É isto que faz com que riam do tropeção que o herói dá quando tenta impressionar os amigos, que se arrepiam com a chegada do monstro mesmo por trás da princesa e que choram quando percebem que o pai nunca mais vai voltar a ver os filhos.

Quando usamos histórias para dar início a uma sessão de filosofia instalamos, então uma tensão entre duas atitudes contraditórias: a da suspensão da descrença e a da suspeição da crença.

Por um lado, ao ouvir uma história interessa acreditar no que nos é dito, para que a história seja mais emocionante, para a sentir como se estivéssemos a vivê-la, por outras palavras, para que o nosso sistema límbico nos leve a emocionar-nos e a criar empatia com as personagens e com o seu destino.

Por outro lado, ao pensar sobre uma história interessa pôr em causa o que nos é dito, para sermos capazes de distinguir o verosímil do inverosímil, o verdadeiro do falso, o que devemos acreditar do que não devemos acreditar para, dessa forma racional, cultivarmos um saudável cepticismo que nos ajuda a pensar melhor e a lidar de forma mais eficaz com o mundo à nossa volta. Pensar sobre uma história é então trabalhar com áreas do cérebro mais dedicadas à análise lógica e racional da realidade.

Daniel Kahneman fala de duas formas diferentes de o cérebro criar ideias e crenças, o sistema 2 (lento) por oposição ao sistema 1 (rápido). Ao ouvirem uma história as crianças activam o sistema 1, ao pensarem sobre ela activam o sistema 2. Com este exercício, começando por uma história e, depois, pensando sobre os seus elementos reais e irreais, queremos dar sentido a essa tensão contraditória que falámos atrás, queremos trabalhar os sistemas lento e rápido dos nossos alunos.
Bem feita esta é uma sessão explosiva, mas os cérebros dos nossos alunos agradecerão. E eles também!

História: “A origem dos Rubis” (versão inglesa aqui).

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  1. Começamos por contar uma versão adaptada por nós do conto “A origem dos rubis”.
  2. No final pedimos aos alunos que se juntem em grupos pequenos e decidam que elementos desta história são Reais e que elementos são Irreais.
  3. Deixamos que eles mesmos encontrem e discutam entre si os critérios que consideram relevantes para considerar algo Real ou Irreal (que, pela minha experiência pode ir da morte de alguém, à impossibilidade da existência, passando pelo facto de nunca ninguém ter visto algo assim). O sumo da sessão está mesmo aqui na tentativa de os alunos perceberem por si o que queremos dizer com as palavras “Real e Irreal”. Uma aluna minha do 1º ano chegou mesmo a sugerir  que “nesta história tudo é irreal”.
  4. Para ajudá-los durante o diálogo desenhamos no quadro um diagrama de Venn em que num dos círculos escrevemos as coisas que os alunos consideram “Reais” e noutro as “Irreais”. Na área onde os círculos se interceptam colocamos as dúvidas que forem surgindo no diálogo, fruto das críticas, das perguntas, dos exemplos e contra-exemplos que os alunos forem avançando.
  5. É nessa zona de intercepção, a Zona da Dúvida, que acabarão por ficar as ideias mais polémicas do diálogo e temos aí bom material para mandar para TPP (trabalho para pensar, como diz a Joana Rita Sousa) para que levem a história para casa e continuem a pensar sobre ela com os pais e irmãos.

Nota: esta história permite uma sessão alternativa a partir da parte em que, no barco, a rainha/mãe diz ao filho para não levar os rubis consigo pois isso seria roubar.
Uma vez que o principe/filho não deu ouvidos à mãe e levou um rubi consigo basta colocarmos a questão “Ele roubou os rubis?” para dar início a uma interessante discussão acerca da diferença entre roubar uma coisa e encontrar uma coisa.

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