DUAS NOVAS FALÁCIAS?

midas

Em conversa com o meu amigo Vítor Guerreiro julgo ter descoberto duas falácias de raciocínio que até agora passaram desapercebidas aos mais atentos filósofos e lógicos.

Se for verdade que é uma falácia nova peço-lhes que de cada vez que a refiram me enviem 1€ em jeito de royalty. Se me mostrarem que esta falácia já existe com outro nome enviem-me na mesma 1€ em jeito de consolação.

Falácia do dom de Midas

O rei Midas tinha o dom de transformar em OURO tudo aquilo em que tocava.

Alguém comete a falácia do dom de Midas se acreditar que apenas porque alguém diz ou defende algo esse algo passa a ser verdade. A analogia aqui está em que como a Midas bastava tocar em algo para se transformar em Ouro, a algumas pessoas bastaria afirmarem alguma coisa para isso ser verdade.

Esta falácia é um familiar próximo da falácia do apelo à autoridade, a diferença é que nesta última diz-se que a pretensa autoridade avaliza, ou dá crédito, a uma afirmação – “Se Einstein diz isso é porque deve ser verdade”- tornando (pretensamente) mais seguro acreditar nela que não acreditar (o que pode não ser o caso se Einstein estiver a falar, por exemplo de futebol, e não de Física). Já na falácia do dom de Midas acredita-se que a (pretensa) autoridade de alguém é a própria causa da verdade daquilo que é dito: “É verdade porque Einstein diz que é verdade.”
Platão abordou uma versão deste problema no célebre dilema de Eutífron.

Faço notar que não é necessário uma pessoa acreditar explicitamente nos termos “criacionistas” da falácia do dom de Midas para cometer essa falácia. A maioria das vezes (se não mesmo todas as vezes) essa falácia é identificada pelo tipo de pressuposto que alguém defende numa argumentação sem que saiba que os está a defender. Ou seja, aquilo que defende depende de uma (ou mais) premissa(s) que incorrem nesta falácia.

nota: como muito bem me fez ver o meu némesis dialéctico, Vítor Guerreiro, não existe tal coisa como “premissas falaciosas”, pelo que a nova versão do final do parágrafo anterior terá de ser afinada. Para já entenda-se “premissa falaciosa” como uma premissa que, sendo falsa, torna o argumento falacioso.

Falácia do dom de Sadim

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Sadim era o porqueiro de rei Midas (sadiM) que tinha o dom de transformar em MERDA tudo aquilo em que tocava.

Esta falácia tem uma estrutura lógica exactamente igual à anterior (falácia do dom de Midas) trocando, porém, os termos da analogia. Em vez de relacionarmos OURO com VERDADE agora relacionamos MERDA com FALSIDADE.

Cometemos esta falácia quando achamos que quando alguém diz ou defende alguma coisa isso se torna necessariamente uma falsidade.
Esta falácia é um familiar próximo da conhecida falácia ad hominem segundo a qual o que alguém diz ser verdade deve ser falso devido a alguma característica negativa dessa mesma pessoa (desonestidade, alcoolismo, etc.). Essa característica desacredita uma pessoa levando-nos a duvidar do que diz. “Não devemos acreditar no que diz Sadim, pois ele é um bêbado.”

A falácia do dom de Sadim é muito mais poderosa que um ad hominem pois torna aquilo que uma pessoa diz em algo necessariamente (e não apenas contingentemente) falso. “O que Sadim diz é falso pois é Sadim quem o diz.”

Tomás Magalhães Carneiro, 2017

nota 1: na realidade não estou completamente convencido de que estas duas falácias sejam diferentes das duas “falácias familiares” que referi (a ad hominem e o apelo à autoridade). Como referi, julgo ter detectado uma pequena “nuance” no carácter logicamente necessário destas duas falácias, mas este post serve para discutir se essa diferença existe de facto.

adenda à nota 1: Até agora não convenci ninguém da originalidade destas falácias, o que não quer dizer que esteja errado, mas enfraquece bastante a minha posição.

nota 2: seguem-se a trocas de ideias que mantive com alguns amigos filósofos no Facebook sobre se encontrei ou não duas novas falácias.

João Carlos Silva: “Assim à primeira vista parecem-me demasiado próximas ou semelhantes às outras duas para poderem ser consideradas novas falácias, sendo talvez apenas uma variação absolutista de ambas.”

Eu:”Pá, a minha dúvida é se as falácias “ad hominem” e “apelo à autoridade” nos impõem uma ligação necessária ou apenas contingente entre elas e a conclusão do argumento que servem
.Claro que para tornarem um argumento dedutivamente válido, uma premissa que cometa uma destas falácias tem de ser assumida como “necessária”.
Do tipo: “João é um bêbado, logo não devemos acreditar nele.” (sendo a premissa escondida aqui: “Não devemos acreditar em ninguém que seja um bêbado”).
Ora esta é uma premissa que só tem de ser tornada necessária (ou universal – acreditar em NINGUÉM) para vermos que seria absurdo tomar este argumento como dedutivamente válido. Agora o argumento poderia ainda assim ser um bom argumento mesmo que inválido.
Poderíamos dizer que “o João é uma daquelas pessoas em quem não podemos acreditar por ser um bêbado.”
Ou seja, uma premissa que recorra a um ad hominem só é vista como uma premissa universal quando é necessário sublinhar a grande brecha lógica que existe entre a razão e a conclusão do argumento (brecha essa preenchida pelo tal pressuposto absurdo, necessário para tornar o argumento válido).
Já um argumento que recorra numa das suas premissas à falácia do Midas abdica de um pressuposto pois a brecha lógica entre a razão e a conclusão é inexistente.
Ex: “Midas diz que é verdade, logo é verdade.”
O problema deste argumento é outro do do ad hominem. O problema aqui é de circularidade entre a razão “Midas diz que é verdade” e a conclusão “é verdade”.

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