FILOSOFAR COM ULÍSSES II

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Ulísses no Hades – A descida de Ulísses aos infernos dá-nos algumas oportunidades para dramatizarmos cenários e cenas interessantes com grutas tenebrosas, sombras terríficas, personagens assustadoras. Tudo elementos que nos ajudarão a cativar a atenção da nossa audiência para os diálogos que nos interessam ter sobre dois conceitos bastante próximos: o Castigo e a Justiça.

Ulísses enfrenta Cérbero

Apenas cinco pessoas venceram Cérbero. Ulísses foi um deles. A forma como o fez foi descobrindo e aproveitando o truque de Cérbero que vigia de olhos fechados e dorme de olhos abertos. Ulísses escondeu-se num momento de vigília (olhos fechados) e entrou num momento de sono (olhos abertos).

Pergunta 1 – Como é que Ulísses enganou Cérbero e entrou na gruta do Inferno?

Esta interação de Ulísses com o mostro Cérbero permite-nos, através de uma simples pergunta de interpretação da história “puxar” por alguns alunos normalmente mais calados ou tímidos que, desta forma, terão um incentivo para se sentirem à altura do grupo e dos desafios lançados nas aulas de Filosofia.

Ulísses e Tântalo

O castigo de Tântalo parece claramente desproporcionado. Em vida foi um rei egoísta e, como tal, foi condenado a não conseguir matar a fome e a sede para toda a eternidade.

Esta situação permite-nos reflectir sobre temas como a Justiça e o Castigo.

Pergunta 2 – O castigo de Tântalo foi justo?

Com os nossos alunos mais velhos poderemos ter aqui uma boa oportunidade para levar os nossos alunos a refletirem sobre uma versão do célebre dilema de Eutífron, apresentado por Platão no diálogo com o mesmo nome:

Pergunta 2.1 – O castigo é justo pois os Deuses lhe deram esse castigo, ou os Deuses deram-lhe esse castigo por ser justo?

No entanto só devemos “arriscar” esta pergunta se sentirmos que os nossos alunos são capazes de a compreender (na minha opinião a partir do 5º ano).

Muitos dos nossos alunos responderão que sim, pois há reciprocidade no castigo (não deu nada a ninguém em vida, não deve receber nada agora).

No entanto poderão mudar de opinião quando lhes dermos uma perspetiva do que é a eternidade comparada com o tempo de vida em que foi egoísta.

Uma forma de lhes dar essa perspetiva da eternidade é através de números:

30 anos de vida de Tântalo

vs.

300000000000000000000000000000000000000000000000000000

de “vida” no inferno (e muito mais)

Mas parece-me melhor o uso de uma imagem.

Há uns tempos contaram-me a história de um padre do seminário que explicava, para efeitos de aterrorizar os seus pupilos com uma condenação eterna no inferno, da seguinte forma a dimensão da eternidade. Usei-a em alguns grupos (sem referência ao castigo eterno, claro) e isso mostrou-se bem mais eficaz, levando mais alunos a mudarem de opinião quanto à justeza do castigo. Dá-me a impressão que perante esta imagem os nossos alunos mais novos têm maior noção da dimensão da eternidade que perante uma série de zeros (talvez por isso o tal padre a tenha utilizado):

Imaginem uma bola de ferro. Agora imaginem uma bola de ferro do tamanho da Terra. Agora imaginem uma bola de ferro ainda maior que a Terra, do tamanho de mil Terras.

Agora imaginem uma formiga e coloquem-na nessa bola de ferro a esfregar as patinhas a gastar a bola de ferro do tamanho das mil Terras. Quando a formiga acabar de gastar a bola de ferro toda a eternidade ainda estará a começar.”

(agora imaginemos nós os alunos do padre a imaginarem-se a arder no inferno todo este período de tempo. Eficaz não?)

Voltamos a colocar a Pergunta 2 e verificamos se alguém mudou de ideias e porquê.

Agora que já temos mais alunos a defender a injustiça do castigo podemos levá-los a reflectir sobre se devemos sempre fazer o que é justo.

Ulísses tem agora a possibilidade de dar um pouco de água e fruta a Tântalo, apesar de saber que poderá ser castigado pelos Deuses e já sabemos como os Deuses são susceptíveis e vingativos nos seus castigos.

Pergunta 3 – Ulísses deve ajudar Tântalo?

Esta pergunta leva a uma outra que lhe está próxima mas que, pelo seu carácter mais geral, deverá ser a que os alunos deverão discutir:

Pergunta 4 – Devemos sempre fazer o que é justo?

Para o fim desta sessão, ou para uma outra, poderemos reservar uma questão ainda mais essencial:

Pergunta 5 – Podemos saber o que é justo?

 

Outras sessões

Filosofar com Ulísses I

Filosofar com Ulísses III

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2 thoughts on “FILOSOFAR COM ULÍSSES II

  1. Olá, Tomás. Tudo bom? Encontrei seu blog hoje através de uma postagem do facebook e achei incrível! Trabalho com o material da Philosophy Foundation aqui no Brasil, com adolescentes de 13 a 16 anos. Uma das minhas maiores dificuldades nas Comunidades Investigativas é fazer com que os alunos escutem uns aos outros para que haja realmente um diálogo entre eles e não vários monólogos. O que você pensa sobre isso? Parabéns pelo seu trabalho! Abraços.

    1. olá Anita,

      para evitar cair numa sequência de monólogos uso a técnica dos “Sinais para Dialogar” que desenvolvi com os meus grupos.

      Antes falarem os alunos têm de assinalar com as mãos o que vão fazer (uma pergunta, uma crítica, etc.) isto obriga-os a duas coisas:
      – pensar no que vão fazer antes de falar o que os leva a ser mais claros e pertinentes nas suas intervenções;
      – dirigir as suas intervenções para o grupo e em relação ao grupo, i.e., mantendo uma ligação com o que foi dito antes deles (“concordo com a ideia do João”, “discordo…”, “Tenho uma pergunta a fazer ao Pedro, etc.)

      Aqui estão os sinais (entretanto temos mais um sinal, o de “Mudei de opinião”):
      http://aartedodialogo.blogspot.pt/2014/11/sinais-para-dialogar.html

      Uma forma de conseguir que os alunos liguem as suas intervenções às dos seus colegas criando momentos de dialética ou questionamento é através da nossa própria moderação.
      Criar dialética: “Quem não concorda com esta ideia?”, é uma boa forma de levantar oposições entre os alunos;
      Criar questionamento: “Para a Joana o Luxo é algo com valor. Quem tem uma definição diferente de Luxo?”, é uma boa pergunta para levantar críticas aos pressupostos em discussão.

      Espero que tenha ajudado.
      Um abraço,
      Tomás

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