FILOSOFAR COM ULISSES I

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Aprendi com o Peter Worley, da excelente Philosophy Foundation, a criar diálogos filosóficos a partir de momentos de storytelling. Comecei de forma tímida com alguns contos tradicionais e histórias infantis que já conhecia bastante bem e sentia-me à vontade para os contar “sem rede” (isto é, sem livro) em sala de aula.

Entretanto fui ganhando prática e já me sinto perfeitamente à vontade para pegar numa história qualquer (pode ser um episódio vulgar do meu dia a dia), fazê-la crescer e dar-lhe a estrutura certa para que os alunos fiquem presos à narrativa durante o tempo certo para lhes colocar uma ou duas perguntas que provoquem interessantes trocas de ideias nos pequenos intervalos que estrategicamente coloco no meio história. Claro que o essencial da sessão de Filosofia com Crianças está nestes intervalos, mas os alunos não têm de saber isso. Shiuuu.

A dificuldade maior em usar contos tradicionais e a maioria da literatura infantil está em fugir à “moral da história”, uma pesada bagagem que normalmente trazem associada e que serve mais para veicular determinadas ideias e valores (os que o autor defende) que para fazer pensar. Para evitar isso procuro literatura infantil alternativa, difícil de encontrar (como tudo o que vale a pena) mas facilitado pela ajuda de alguns bons amigos com conhecimentos. Visitem a Flanêur quando puderem e apoiem o nosso comércio tradicional.

Uma obra clássica que tem todos os condimentos de uma série da HBO para prender a miudagem à história (amor e saudade, tragédia, violência e guerra, desespero, esperança, desespero, etc.) é a “Odisseia” de Homero traduzida pelo grande Frederico Lourenço.

Para conhecermos os detalhes deliciosos desta história magnífica é imprescindível irmos beber ao original (ou pelo menos ao mais perto do original que consigamos chegar) e para isso a tradução do Frederico Lourenço é do melhor que conheço. Lembro-me de assistir há uns anos à apresentação da obra na Almeida Garrett aqui no Porto e de ficar fascinado com o amor e dedicação com que o Frederico falava de alguns pormenores da sua tradução. “Palavras apetrechadas de asas”, foi o exemplo que deu na altura para exemplificar uma dificuldade de traduzir uma aliteração do original para o português.

Mas para preparar as nossas sessões devemos contar mais com a nossa capacidade de improvisar e, mesmo, “inventar” detalhes e acontecimentos que não estão na história mas que, por algum motivo achamos que, não a deturpando, vão prender os nossos alunos. Por exemplo, na obra original, o episódio dos “comedores de lótus” ocupa apenas alguns versos, enquanto na “minha versão” estendo-o por um bom quarto de hora de narração com “caminhos que se estreitam tanto, tanto, tanto que os homens tinham de passar de lado.” Tenho a certeza que o bom Homero (também ele um aedo) me perdoaria estas liberdades narrativas que apenas têm o fito de prender a atenção dos ouvintes. Esta coragem para sair da história original e criar a minha própria Odisseia também aprendi com o Pete aqui.

Para facilmente encontrarmos os episódios relevantes e uma espécie de resumo dos mesmos podemos recorrer a esta adaptação para jovens da Maria Alberta Menéres que faz parte do Plano Nacional de Leitura (este ainda não foi censurado). Também há uma adaptação para jovens do Frederico Lourenço, mas essa ainda não pude ler.

Não se esqueçam, o truque aqui está seguir as linhas gerais da história original mas ir criando e efabulando à vontade em função daquilo que queremos fazer.

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Sessão 1 – Onde Ulisses é visitado em Ítaca por dois emissários que o pretendem convencer a combater na guerra de libertação da princesa Helena em Tróia.

Aqui temos uma boa oportunidade para levar os nossos alunos a falarem sobre conceitos como os de “responsabilidade”, “amor”, “família” e sobre se uns devem tomar precedência sobre outros

Pergunta 1 – “Ulísses deve agir como rei e cumprir o acordado ou deve agir como pai e marido e ficar em Ítaca?”

Sessão 2 – O estratagema de Ulísses para vencer a guerra de Tróia. Ulísses e os seus marinheiros regressam a casa.

Neste episódio surgem várias questões sobre a ética da guerra que podemos explorar (como faz Peter Worley) mas aqui preferi trazer à baila as noções de “aventura”, “risco” e “segurança”, imaginando uma hipotética discussão (das muitas que se seguirão) entre Ulísses e os seus marinheiros.

Pergunta 1 – “Devem regressar pelo caminho conhecido ou devem experimentar um caminho novo por onde nunca nenhum homem navegou?”

Sessão 3 – Na terra dos comedores de Lótus, o fruto da felicidade. Quem o come fica infinitamente feliz, mas incapaz de fazer mais qualquer coisa.

As ligações ao tema das drogas e da felicidade fácil são aqui muito próximas e alguns alunos as farão facilmente.

Aqui é interessante começar com a seguintes pergunta que um dos amigos de Ulísses, Euríloco, lhe faz à noite no convés.

Pergunta 1 – “Ulísses, diz-me lá. Há alguma coisa mais importante que a Felicidade?”

Ulísses fica pensativo por uns momentos.O que pensam os nossos alunos? Mas voltaremos a esta pergunta no final.

Depois segue-se a narrativa (inventada) de toda uma aventura exploratória da ilha vivida pelos marinheiros, até que chegarem a uma clareira com um cesto com o frutos da felicidade. Aqui segui a sugestão de Peter Worley e coloquei o seguinte dilema:

Pergunta 2 – “Os homens devem comer o fruto e ficar na ilha felizes para sempre ou devem ir embora sem comer o fruto?”

Esta não é propriamente a pergunta mais eficaz para um bom diálogo pois tende a gerar algum consenso entre os alunos, que geralmente preferem não comer o fruto. Mas a próxima questão já os fará pensar um pouco mais e, sobretudo, fará repensar a sua resposta à pergunta inicial que voltamos a colocar:

Pergunta 3 – Há algo mais importante que a Felicidade?”

Sessão 4 – Após saírem da terra dos “lotófagos” Ulísses e os seus marinheiros vivem uma das suas mais intensas aventuras. Chegam a Ciclópia, a ilha dos Ciclopes. Lá encontram Plolifemo, o mais terrível deles todos, e filho de Poseídon, o rei dos mares.

Se for bem contado o episódio em que Ulísses engana Polifemo dizendo chamar-se ninguém é garantido que irá arrancar algumas gargalhadas à nossa plateia. Mas o mais interessante serão as suas tentativas para explicar o estrategema usado por Ulisses que os fará “andar às voltas” com o conceito de “nada” e de “ninguém”.

Pergunta 1 – Como é que Ulísses enganou o Polifemo?

Pergunta 2 – “Ninguém pode ser alguém?”

Sessão 5 – Fugindo apressadamente da fúria de Polifemo os nossos marinheiros chegam a Eólia, a ilha do rei dos ventos, Eólo. Uma ilha misteriosa envolta num estranho nevoeiro. Aqui os marinheiros entrarão numa fictícia discussão com Ulísses que quer ir a terra enquanto aqueles querem ir embora. São trinta (não se enganem na contabilidade à medida que vão “perdendo” marinheiros, em Ciclópia, por exemplo, as crianças não perdoarão erros de matemática grosseiros) enquanto Ulísses é apenas um. Mas é o capitão. Pelo que temos aqui um belo pretexto para uma discussão sobre “democracia” e “autoridade”:

Pergunta 1 – O que devem fazer? O que quer Ulísses (1) ou o que querem os marinheiros (30)?

Se a turma escolher fazer o que a maioria quer irão ficar desapontados em saber que Ulísses acabou por levar a melhor. Mais à frente, na parte em que os marinheiros discutem se devem abrir o saco dos ventos maus (prenda do rei Eólo a Ulísses) perceberão que por vezes seguir o que a maioria quer pode ser um erro. E foi…

Pergunta 2 – A maioria tem sempre razão?

Pergunta 3 – Como podemos saber quem tem razão?

Sessão 6 – Com o barco desfeito Ulísses chega ao reino da feiticeira Circe. Acorda e não vê ninguém no barco. À volta deste dezenas de porcos vagueiam pela areia. Estão vestidos com roupas de marinheiros. “Só posso estar a sonhar.” – diz Ulísses.

Temos aqui um pretexto para abordar um dos temas mais interessantes da história da filosofia, o da natureza da realidade

Pergunta 1 – Ulísses pode saber se não está a sonhar?”

Por esta altura enquanto trabalhava este episódio do Ulísses com os meus alunos do 1º ciclo, discutia este episódio de Westworld sobre a mesma temática com os “irmãos mais velhos” do 2º e 3º ciclo – podem imaginar o que foram os jantares destas famílias durante estas semanas.

Depois de saber que está acordado e de ver os seus amigos realmente transformados em porcos Ulísses vai ao encontro de Circe que, após algum drama romântico terão de empolar na vossa narrativa, lhe propõe o seguinte acordo: bebes este licor e transformas-te num porco a viver num eterno presente, sem consciência do tempo a passar. Se não beberes permanecerás humano mas constantemente torturado com saudades de casa para o resto dos teus dias.

Pergunta 1 – “Ulísses deve beber o licor?”

Pergunta 2 – “É bom sentir saudades?”

Finalmente Ulísses escolhe permanecer humano e não beber o licor. Vendo o amor que sente pela sua família e cidade Circe decide libertar Ulísses e os seus amigos, permitindo que voltem ao mar e tentem regressar a Ítaca.

Outras sessões

Filosofar com Ulísses II

Filosofar com Ulísses III

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2 thoughts on “FILOSOFAR COM ULISSES I

  1. Tomás, sem o mesmo percurso que tu (sim, leitora atenta dos trabalhos do Peter Worley) tenho estado a explorar o meu lado de “contadeira de histórias”.
    Agora chama-se storytelling, mas cá entre nós é uma coisa muito antiga, que os nossos avós já faziam.
    Obrigada por partilhares. Sempre.

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