SERÁ VERDADE? COMO SABER?

ment

Às vezes conseguimos criar um exercício que entusiasma os nossos alunos, que os leva a trocar ideias, a colaborar na resolução de problemas e, imagine-se, a quererem ficar na sala de aula muito para além da hora de saída. Nessas alturas sabemos que criámos um bom exercício. Este, parece-me, é um bom exercício e tudo devido a este pequeno maravilhoso livro. Aqui encontram uma pequena amostra gratuita das primeiras páginas do livro.

Não hesitei no adjectivo, “maravilhoso”, pois parece-me que cumpre uma função que poucos livros conseguem. Levar as crianças a querer devorá-lo (com os olhos, leia-se).

Há uns dias atrás lia uma entrevista a Daniel Handler, conhecido como Lemony Snicket, o autor de “O Escuro” e co-produtor da nova série na Netflix “A series of unfortunate events”, onde revela um estratagema dos seus pais para lhe dar vontade de ler por ele mesmo os livros que lhe narravam à noite. Depois de deixarem uma história em suspenso num qualquer cliffhanger narrativo (“O bandido entra em casa pela janela, sobe as escadas para o quarto e…”), os seus pais fechavam o livro, pousavam-no numa mesa perto da cama, desligavam a luz e proibiam o pequeno Daniel de se levantar e ir ler aquela parte do livro que deixavam marcada e sublinhada. Desta forma, clato, conseguiam o que queriam, que Daniel se levantasse a meio da noite cheio de curiosidade e… fosse ele mesmo ler o que o bandido ia fazer a seguir. Daniel Handler não tem dúvidas de que foi este pequeno jogo que os seus pais faziam com ele que o transformou num ávido leitor.

Este livro, “É mentira! Será mesmo?” recorre a um estratagema diferente do dos pais de Daniel, mas consegue o mesmo efeito de levar as crianças a querer saber mais e saber porquê. Leva-as a querer ler as páginas seguintes do livro e isto é, em si mesmo, uma pequena maravilha.

O estratagema deste livro é o seguinte. Cada capítulo apresenta uma séria de “factos”. Uns factos verdadeiros e outros falsos. Os leitores devem assinalar quais os “verdadeiros” e quais os “falsos” para, umas páginas mais à frente descobrirem se acertaram na resposta juntamente com uma explicação científica do facto (ou não facto) em causa.

Mal vi este pequeno livro na biblioteca do meu colégio apercebi-me do enorme potencial que tinha para fomentar diálogos e exercícios filosóficos com os meus alunos.

Este é um dos exercícios que este livro permite:

  1. Agrupamos os alunos em grupos/equipas de 5.
  2. Partilhamos com os alunos as regras do jogo. – Ganha a equipa que tiver mais pontos. Podem ganhar um ponto se acertarem na resposta: É um facto verdadeiro ou falso? Podem ainda ganhar mais dois pontos extra se derem uma resposta satisfatória à pergunta: Como poderiam descobrir se o facto é verdadeiro ou falso? As outras equipas podem criticar ou fazer perguntas acerca do tipo de prova avançado e no fim decidem se merecem 0 pontos – resposta insatisfatória – 1 ponto – resposta incompleta – ou 2 pontos – boa resposta.
  3. Desta forma estamos a mostrar aos nossos alunos que chegar à verdade não é uma questão de sorte, ou de dar palpites, mas requer um trabalho prévio que pode ser bem ou mal feito (avançar teorias, hipóteses, fazer experiências em laboratório ou na natureza, estudar documentos, etc.) Assim estamos a dar-lhes um pequeno vislumbre do que é o trabalho de descobrir a verdade (por cientistas, historiadores, filósofos, etc.), mas também a mostrar-lhes que a verdade existe, deve ser respeitada e valorizada em relação à falsidade e à mentira. A isto chama-se combater o relativismo e a pós- verdade.

Alguns exemplos:

Facto 1: “As árvores podem transformar-se em pedra.”

Os alunos devem discutir e decidir nos seus grupos se esse “facto” é verdadeiro ou falso. Em seguida deverão responder à pergunta de como o poderiam descobrir, provar, verificar se esse facto é verdadeiro ou falso.

Depois de discutirmos em grande grupo as provas e as experiências apresentadas por cada mini-grupo distribuímos os pontos e partimos para uma “segunda ronda”

Facto 2: “Algumas alforrecas podem viver para sempre.”

Alguns alunos avançarão explicações em vez de provas, ou dirão que já sabem a resposta certa pois leram num livro de ciência ou os pais lhes contaram. Aí devemos mostrar-lhes que, em alguns casos (factos científicos empíricos), ler num livro ou aprender com os pais não serve de prova. Têm de nos mostrar como descobririam se não tivessem lido ou se não tivessem aprendido com os pais (para algumas turmas mais novas vai ser difícil que distingam uma explicação de uma justificação ou prova. Aí sugiro que avancem com o que têm para não “matar” a dinâmica do exercício).

Facto 3: “Boadiceia era uma rainha guerreira que liderou uma revolta contra os romanos.”

Este facto (é verdadeiro, já agora) já pede um tipo de prova diferente do anterior. Ter aprendido isto num livro pode ser considerado uma boa prova, pois factos históricos são acessíveis através de prova documental (ou arqueológica). Desta forma os alunos percebem que diferentes tipos de factos pedem diferentes tipos de provas.

Até aqui os nossos alunos não estão propriamente a fazer filosofia, mas ciência, ou história. No entanto estão a usar ferramentas cognitivas próprias dos filósofos (e dos cientistas e historiadores). Numa segunda sessão podemos trazer a filosofia “à baila” com algums perguntas ligadas ao exercício mas já do foro filosófico:

4 – Existem “factos” falsos?

5 – A verdade existe?

6 – Em filosofia existem factos?

7 – Como se prova uma verdade em filosofia?

 

 

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s