Consultório Filosófico: ser preguiçoso

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O leitor nosso Diógenes da Silva partilha com os Doutores Filósofos o seu problema.

Amigos Doutores,

em solteiro sempre me considerei (e os outros me consideravam) um enormíssimo preguiçoso. Uma verdadeira lesma em forma humana.

A minha marca de água era acordar com o despertador apenas do décimo toque para cima. Premia o botão do “snooze” tantas vezes que acabou por avariar e tive de o substituir por um martelo. Além disso, como estava desempregado, passava o dia em casa a ver programas de entretenimento e a contribuir para a subida da quantidade per capita de colesterol nacional.

Tudo mudou quando casei. Agora, a minha mulher obriga-me a levantar cedo e logo ao primeiro toque. Pior que isso arranjou-me emprego na empresa do pai, que me faz trabalhar como um cão das 09h às 19h00 como forma de pagar a renda fictícia de um dos quartos que lhe ocupo lá em casa.

O meu único momento de saborosa preguiça é ao domingo depois do almoço quando arranjo 30 minutos redondos para dormir no carro a pretexto de o ir lavar à bomba.

Ou seja, acordo todos os dias cedo e contrariado… mas acordo. Trabalho de segunda a sábado, 60 horas por semana, também contrariado… mas trabalho. Apenas preguiço ao domingo apesar de, se dependesse de mim, fazia-o todo o dia e todos os dias.   

A pergunta que coloco ao consultório filosófico é a seguinte:

O que sou eu verdadeiramente: preguiçoso ou trabalhador? 

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2 thoughts on “Consultório Filosófico: ser preguiçoso

  1. Se entendermos o termo trabalhador como alguém que trabalha, então, se o leitor trabalha, é trabalhador. E se tem preguiça, apesar de trabalhar, então é preguiçoso. Neste sentido literal e imediato a questão perde qualquer interesse. Mas podemos perceber que a questão visa outro sentido.
    Ora, o leitor Diógenes da Silva parece encontrar-se na situação paradigmática da moralidade: encontrar-se em esforço para. O paradigma ético é, justamente, que o sujeito se reconhece à distância de um determinado ideal e, portanto, esforça-se por modificar-se. Portanto, eu diria que o caro leitor, não sendo, ainda, um “trabalhador” – se por tal entendermos aquele sujeito para quem o trabalho constitui a situação natural, aquilo a que se dedica de alma e coração – está empenhado em sê-lo e, portanto, de algum modo, pode considerar-se, já, um trabalhador, ou pelo menos alguém que tem como ideal ser um trabalhador e que está seriamente empenhado em tornar-se isso. Mas há um aspecto que deve também ser mencionado. O leitor parece empenhado apenas em cumprir uma lista de tarefas que lhe são atribuídas por outros, pela sua mulher e pelo seu sogro. Penso que este dado também é relevante. Se o leitor se reconhecesse como preguiçoso e estivesse empenhado por tornar-se um trabalhador convicto, diria que, como disse, de alguma maneira, já seria um trabalhador. Mas, visto que se limita a seguir algo que a sua mulher lhe impõe, é duvidoso que aquilo pelo qual se esforça seja, de facto, por tornar-se trabalhador. Talvez esteja apenas apaixonado e deseje satisfazer a sua amada. Talvez deseje apenas evitar discussões. Provavelmente, está a fazer apenas aquilo que, bem vistas as coisas, lhe dá menos trabalho: apesar de tudo, parece-lhe menos trabalhoso trabalhar 60 horas por semana do que discutir com a sua esposa, como inevitavelmente aconteceria se ficasse a vegetar em casa. Enfim, muito provavelmente o caro leitor é um preguiçoso que se encontra na curiosa situação de ter de trabalhar porque tem preguiça de ousar não o fazer.

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