Consultório Filosófico: o dilema do vegetariano

O leitor Pedro Cantor deixou na nossa caixa de mensagens este difícil dilema para os nossos Doutores Filósofos resolverem.

hamb

Caros Doutores Filósofos,

sou um conhecido activista dos direitos dos animais além de um conhecido vegetariano. Tenho inúmeros seguidores no Facebook e Instagram, pessoas para quem sou uma espécie de guru que aderiram activamente a esta minha causa, que são directamente influenciados por aquilo que digo e faço, influenciando eles por sua vez muitas mais pessoas. Somos agora muitos milhões de defensores dos animais e, consequentemente, vegetarianos convictos e eu sou uma das figuras proeminentes deste movimento que considero bom e justo.

Acontece que há umas semanas atrás cai na tentação de comer um delicioso e suculento hamburger de carne de vaca. Ainda hoje não há um dia que passe em que não me arrependa do que fiz e, julgo eu, nunca mais voltarei a fazer (ando a evitar passar perto de MacDonalds). Mas a minha questão não é tanto o que fiz mas o que devo fazer agora.

A minha consciência diz-me que deveria confessar o que fiz à minha comunidade de seguidores vegan e que deveria partilhar nas redes sociais imagens desse almoço (sim, tirei fotos do meu crime horrendo para me deliciar sozinho com as memórias desse repasto).
Não fazê-lo seria, julgo eu, sinal de hipocrisia da minha parte. Por outro lado tenho medo de se o fizer influenciar negativamente milhares, talvez milhões de pessoas que me veem como um modelo a seguir e que, desiludidos poderão deixar de seguir o vegetarianismo, o que seria um golpe enorme para a nossa causa.

Assim, Doutores Filósofos, deixo-vos aqui este meu dilema para que o resolvam como acharem melhor. Farei o que me disserem.

Devo confessar o que fiz ou devo escondê-lo e esperar que ninguém descubra?

(só lhes peço para não me obrigarem a apagar as fotos)

 

Caro Pedro,

seguem as respostas de três doutores ao seu dilema. Espero que lhe sirvam bem, tem-nas para todos os gostos.

Resposta do Dr. Rolino

rolino

Nunca confessar, por duas razões:
– se o Pedro for convictamente um defensor dos animais e dos seus direitos e se for convictamente um vegetariano, a confissão iria prejudicar os animais que ele defende. Uma vez que, sendo o seu activismo seguido por milhares de pessoas, que até o imitam, o facto de confessar uma quebra no seu comportamento vegetariano, levará a um efeito em cadeia de varias quebras por vários vegetarianos seus seguidores e o consequente abate de mais animais,
– se, por outro lado, o Pedro Cantor não for um defensor convicto dos direitos dos animais e não for realmente um vegetariano, então todo o seu activismo é apenas um papel por ele representado, um fingimento para os seus seguidores. Logo, tendo sempre fingido, continuará a fingir e não confessará. O medo causado pela sua quebra no vegetarianismo, comendo carne, é apenas o medo de ser apanhado na sua farsa original. Logo, nunca confessará, sob pena de estar a trair as suas fingidas convicções com uma confissão do seu fingimento

Resposta do Dr. Silva

joao
Num certo sentido, engenhosamente, ele já resolveu o problema: ao divulgar aqui no Blog aquilo que fez, acabou por confessar a verdade e aliviou a consciência, mantendo no entanto o segredo dos seus seguidores. O Dr. Freud provavelmente diria que, de forma inconsciente, ele resolveu a sua ambivalência fazendo as duas coisas, isto é, ao mesmo tempo, revelando a verdade e conservando o segredo. E como ainda por cima delega o problema moral da sua consciência para a suposta autoridade moral dos filósofos, junta o útil do deslocamento ao agradável do alívio. Agora quanto ao dilema moral em si mesmo, entre manter a posição hipócrita do santo do pau ôco e revelar a verdade do seu pecado aos seus seguidores, atendendo ao mal que daí poderia resultar, não tanto para si mesmo, como para as pessoas que o seguem e acreditam nele, e, sobretudo, para as potenciais vítimas animais que o seu descrédito e a desilusão dessas pessoas poderia eventualmente vir a causar no futuro, a minha sugestão é que o senhor se aguente à bronca com a sua consciência e, pelo menos neste caso, siga Mill em detrimento de Kant, preferindo ser um falso santo infeliz em vez de um bom pecador confesso. Em suma, como diria um padre, se está sinceramente arrependido, que Deus o abençoe, vá em paz e não volte a pecar.
Resposta do Dr. Borges
borges
Para mim, são duas as questões em aberto: o problema da escolha e a questão da consciência, e o problema da verdade.
Quanto à escolha, ela é do foro íntimo e não parece ter sido objecto de coacção – quando muito foi o próprio que violou um imperativo moral seu. E qto a isso, é algo c/ q o próprio terá q conviver.
Associado a isso está a questão da verdade/mentira, a propósito da divulgação ou não do acto. É o próprio q terá de decidir. Já sabemos q a máxima cristã “a verdade liberta” faz sentido, mas mtas vezes ela liberta matando, não em sentido literal mas numa “morte civil, moral”… Por outro lado, a mentira tb n é caminho válido pq basta q algum vegano seguidor do Pedro ande aqui pelas Filosofias p descobrir tal “recaída”, acusando-o de hipocrisia.
Assumir claramente talvez seja o melhor caminho: não em tom de tragédia, mas como algo que é natural. Somos humanos e não deuses, por isso erramos e o erro é um processo natural de evolução pessoal e moral. Haverá uns q serão mais puritanos q os Fariseus e mandá-lo-ão às ortigas: outros há q compreenderão, sobretudo se a sua adesão à causa vegana for livre, consciente e verdadeira. Estes últimos são os que importam: pq os primeiros, adoptando uma atitude intransigente, são fomentadores de intolerância e fundamentalismo, não de respeito ou compreensão…

 

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8 thoughts on “Consultório Filosófico: o dilema do vegetariano

  1. Esta notícia… é um falso dilema inventado para atrair muitos laikes muitos heites, cabazes de comentários etc. Um verdadeiro defensor dos animais não colocaria uma foto destas a ilustrar o seu ‘desvio’, pedindo por tudo que não a retirem. Por tudo o que esta imagem implica em termos da defesa da Causa Animal e da Causa Ambiental. A criação de carne, em regime intenso, tem perpretado os maiores crimes ambientais que há memória. A destruição das floresta tropicais deve-lhe tudo. Acima de tudo, esta imagem é profissional. publicitária. Experimentem fotografar o hambúrguer que encomendaram, tal e qual, a ver se conseguem uma obra destas. Já sem entrar por outros caminhos, que facilmente fariam desmontar toda esta falsa cartinha.

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