Consultório Filosófico: fazer o que não quero fazer

sofa

O nosso leitor Bento Espinhoso partilha com os nossos Doutores Filósofos a seguinte angústia.

Caros Doutores,

todas as noites adormeço no sofá a ver televisão. Sei que não devo, tenho consciência que me tira horas de sono tranquilo e, na verdade, não o quero fazer. mas não consigo deixar de o fazer e, invariavelmente, deito-me todos os dias muito mais tarde do que queria e acordo muita mais cansado do que devia. 

A pergunta que queria que me ajudassem a perceber é:

Como é possível eu fazer uma coisa que não quero fazer?

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6 thoughts on “Consultório Filosófico: fazer o que não quero fazer

  1. Porque a ação não resulta apenas da cognição (razão)mas , também , da vontade(emoção/afeto) e, neste caso , há uma dissonância entre a componente cognitiva ( conhecimento dos malefícios das poucas horas de sono ) e a componente afetiva ( o prazer de ver TV no sofá até tarde) . Aqui , a busca do prazer sobrepõe-se à razão . A razão arruinada pela paixão faz-nos agir/ser o que não projectamos . Escravos das paixões , menos humanos ?

  2. Doutor Mendes – “Bem, o problema interessa-me bastante. Como se sabe, trata-se do problema da akrasia, o qual vem de longe, já recebeu diversas interpretações e sofreu diversas tentativas de o resolver. Eu chamaria a atenção para apenas três pontos.
    1. Há, em primeiro lugar, o problema de saber o que se quer dizer por “querer”. Por um lado, podemos dizer que o Bento quer ir cedo para a cama, mas também quer, de facto, ficar a ver televisão. Aparentemente, no momento de agir, ficar a ver televisão no sofá é mais forte. Nesta acepção, querer designa uma tensão, algo que exerce uma pressão sobre o sujeito. Acontece, porém, que parece haver no sujeito várias tensões e uma delas acaba por dominar e ter eficácia. Se alguém apontasse uma arma ao Bento e lhe dissesse que ou ia para a cama ou levava um tiro, talvez ele se levantasse e fosse para a cama. Teria a tentação de dizer que fez o que queria sob coacção externa, o que seria uma situação curiosa. Normalmente, as coacções externas servem para nos obrigar a fazer coisas que “não queremos”.
    Ora, neste primeiro sentido, nós fazemos sempre o que queremos. Podemos imaginar que as coisas ficassem neste nível. De facto, podemos admitir que seja assim com a generalidade dos animais. O leão quer comer, então come, ou, pelo menos, esforça-se por isso. Depois de comer quer descansar e descansa. Aparentemente, o leão não é capaz de entrar em conflito consigo mesmo, a vida não tem enigmas para ele, sabe sempre o que “quer”, etc. Aqui surge um segundo sentido de querer. Um sentido, inclusivamente, que admite que um sujeito diga que “não sabe o que quer”. Evidentemente, isso não significa que o sujeito não saiba que tem fome, ou que tem este ou aquele desejo. Simplesmente, pode ser que um sujeito não saiba o valor, ou o sentido, que deve atribuir a cada tensão que encontra em si mesmo. Na verdade, o sujeito pode até não reconhecer qualquer valor, nem qualquer sentido nas tensões que imediatamente reconhece em si. E pode, por exemplo, recusar seguir essas tensões imediatas, pode entregar-se ao celibato – ou esforçar-se para isso – pode fazer greve de fome. O sujeito tem fome, mas pode querer não comer. Há aqui um querer que entra em conflito com o primeiro querer, por assim dizer. E, neste sentido, o sujeito pode ter, ou não ter, força suficiente para levar este segundo querer à execução prática: o sujeito pode ser suficientemente forte para fazer greve de fome, suportar a tortura, ou pode ser fraco e não ser capaz de resistir perante a comida, perante o doce, perante a beleza de uma mulher, etc. É neste sentido que Frankfurt se refere, justamente, ao “querer de segunda ordem,” ou seja, à vontade.
    2. Há, portanto, uma questão no querer que não se esgota na força de executar uma dada tensão. Se o querer se esgotasse nessa noção, o sujeito faria sempre o que quer. Por isso, mesmo, o “querer” parece querer dizer mais do que simplesmente ter um desejo. Ou seja, a noção de querer não se esgota na noção de “querer imediato”, de “primeira ordem”, como lhe chama Frankfurt, ou de “inclinação”, como lhe chama a tradição. Este querer de segunda ordem envolve, também, a reflexão: a possibilidade de proferir juízos sobre o próprio querer de primeira ordem. De tal modo é assim, que um sujeito pode “querer” deixar de beber, de fumar, de trair, de ficar a vegetar no sofá, de ficar acordado até tarde – ainda que essas tensões sejam mais fortes, tão mais fortes que são elas que, efectivamente, têm eficácia causal. O segundo querer designa, portanto, em primeiro lugar, não a “força”, mas sim a reflexão, a razão, a racionalidade, um processo de justificação, uma validação ou autenticação que o sujeito opera. Assim, o sujeito reconhece que “deve” ir para a cama (porque algo nisto inclui um justificação, uma razão para a exclusão da alternativa). O sujeito tem consciência que ir dormir tem do seu lado razões que justificam a rejeição da alternativa. Normalmente, é a este segundo querer que nós chamamos querer, ou seja, nós identificamo-nos com este querer, e tudo aquilo que se lhe opõe dizemos ser diferente de nós, seja por coacção externa, seja ao nível da força das tensões imediatas. Por isso, o Bento diz que, apesar de ficar a ver televisão, “não o quero fazer”, embora seja verdade que “não consigo deixar de o fazer”. Nietzsche, por exemplo, chegou a pôr em questão esta identificação. Ou seja, levantou a questão de saber o que permite que eu me identifique com o querer de segunda ordem quando há um outro de primeira ordem que é eficiente – pois, se é eficiente, isso significa que corresponde, precisamente, àquilo que eu sou. E aqui surge outro aspecto: que este querer de segunda ordem parece designar, não aquilo que o sujeito é, mas aquele que ele quer vir a ser. O sujeito reconhece que é preguiçoso, mas quer não o ser. Perante este conflito, o sujeito pode adoptar diversas atitudes, nomeadamente, recusar o querer de segunda ordem como demasiado exigente, utópico, ou inútil. Pode, também, aproximá-lo do querer de primeira ordem até coincidirem. Um pouco como a raposa que ao perceber que as uvas estão muito altas diz que estão verdes.
    3. O decisivo parece ser atribuir ao querer de segunda ordem (consciente, reflexivo, intencional, racional) força suficiente para se sobrepor aos de primeira ordem – imediatos – que, eventualmente, se lhe oponham: à preguiça que me faz ficar no sofá, ao desejo de ver televisão, etc. Como fazer que o reconhecimento de que a saúde é mais importante se torne efectivamente eficiente sobre os meus desejos imediatos de comer doces, ficar a vegetar no sofá, de fumar, etc.? Esta é a questão, desde que, evidentemente, o sujeito mantenha o querer de segunda ordem. O ponto é que o querer de segunda ordem se torne um querer de primeira ordem – isto é, que seja “incorporado pelo sujeito”. Ou seja, que o querer de segunda ordem não seja apenas um querer vazio, uma intenção meramente ideal, um propósito sem força, mas que tenha “força causal”, por assim dizer. Isto, a acontecer, corresponde a um “acto de querer”, na medida em que o sujeito agiu sobre si mesmo.
    Portanto: é possível fazer algo que não quero fazer porque aquilo que eu quero, aquilo que reconheço como meu querer, não é apenas algo que desejo, mas também algo ao qual atribuo uma justificação, como melhor, como racionalmente preferível – numa palavra, como mais válido; e, por outro lado, é possível que aquilo a que, conscientemente, reconheço superioridade, prioridade, mais importância, não tenha, do ponto de vista daquilo que efectivamente me move, força suficiente.
    Haveria que analisar outra questão: será que, no momento em que age, o Bento diz para si mesmo que quer ir para a cama ao mesmo tempo que fica no sofá? Ou será que, nesse momento, o sujeito racionaliza, justifica (por exemplo, dizendo “é só mais um pouco”, “afinal este programa até vale a pena”, etc.) o “ficar no sofá” e que é só, mais tarde, quando acaba por ir para a cama, ou no dia seguinte, que se recrimina? Será que o sujeito que pede a sobremesa quando havia jurado fazer dieta, no momento em quer pede a sobremesa, formula a decisão e o juízo de que não deve pedir a sobremesa? Mais tarde, o Bento diz que fez o que não queria. Mas será que no momento em que o fez também tinha presente esse juízo? Mas esta é uma questão diferente.”

  3. Doutor Sousa – Há duas camadas de “querer” aqui. Como a senhorita que quer emagrecer e não resiste à bola de Berlim. Há desejos aos quais não corresponde um poder para os concretizar (a maior parte deles, se calhar!). Ao desejo do bolo corresponde um poder para comê-lo, mas ao desejo de conter esse desejo, pelos vistos, não corresponde um poder pelo menos equivalente. Bem, estou para aqui a falar em bolos, mas mutatis mutandis, o problema do rapaz é da mesma ordem, creio…Fortalecer o poder correspondente ao desejo de contrariar o desejo de ficar a ver TV é uma questão a colocar aos psicólogos…

  4. Doutor Borges – Bom, lá voltamos nós ao problema da vontade e ao da consciência: como é q a nossa consciência pode reproduzir essa ideia ou desejo, sendo q aqui também jogam em conflito as noções de “razão” e de “vontade”. Ou seja: de q maneira o nosso Bento consegue inteligir essa ideia transmutada na necessidade de descanso – q aqui funciona como uma espécie intermédia de imperativo -, q todavia esbarra no plano da vontade, do volitivo q consubstancia-se na acção de dormir no sofá.
    Portanto, voltamos às dialécticas, ao problema do conhecimento, à questão da consciência, ao problema da vontade e do livre-arbítrio e por aí fora…
    Se tivesse q dar um conselho ao nosso estimado Espinhoso, dir-lhe-ía o seguinte: ponha em prática a máxima socrática do “conhece-te a ti mesmo”, p através quer do seu comportamento, quer do seu pensamento, desenhar os limites à sua propria acção. Era tb possível adoptar a estratégia da garrafa escondida no armário (mutatis mutandis, escondendo o comando da TV): mas como ou teria o desejo de ir buscar de novo o comando, ou de ligar a TV sem recorrer ao comando, ou ainda passar noites de insónia piores do q as do Camilo, o melhor será mesmo parar, olhar p si mesmo, perguntar-se sobre os seus limites e confrontar isso com os seus desejos. Se o Espinhoso for um cavalheiro prudente, o bom senso fará o resto. Senão, tem q recorrer ao Psicólogo mesmo (sim, pq ainda q algumas doutrinas filosóficas tenham um fundo mítico-religioso, n ha ” magia filosófica ” q resolva o assunto sem a intermediação da razão!…).

  5. Doutor Silva – É possível fazermos coisas que não queremos fazer, por necessidade ou quando a isso somos obrigados, mas não é esse certamente o caso do nosso amigo Bento Espinhoso. O problema dele – que eu também conheço muito bem por experiência própria – não é fazer o que não quer, é não querer o que faz ou querer não querer aquilo que quer e faz. Se ele quisesse verdadeiramente ir dormir mais cedo, simplesmente iria, sem se debater com esse conflito de consciência entre o que sabe dever fazer e aquilo que, na realidade, quer fazer, que é ficar a ver televisão. Todos sabemos por experiência própria o que isso é, e também sabemos que esse velho problema da acrasia, filosoficamente formulado, remonta pelo menos a Aristóteles. Também sabemos que é possível distinguir entre desejo e vontade, reservando para este último termo apenas aquilo que queremos determinado ou orientado pela razão e deixando ao desejo tudo o que escapa a esse domínio e em nós representa o lado animal, como fizeram os cristãos medievais e Kant. Mas para o caso talvez Freud e a psicanálise sejam suficientem, com o seu modelo de conflito e ambivalência entre as diferentes instâncias do psiquismo humano, o Ego, o Id e o Super-Ego, uma vez que aqui o nosso amigo Bento sofre por ter o Id a querer algo que o seu Ego e Super-Ego não aprovam, não conseguindo, no entanto, que estes prevaleçam, na prática, sobre as razões morais do último nem sobre as razões práticas do primeiro, dao que aquele só preocupa com o prazer imediato resultante da satisfação do seu desejo. E nós somos isso e feitos de tudo isso.

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