O QUE PODE UM FILÓSOFO CONTRA TRUMP?

Republican presidential nominee Donald Trump speaks during a campaign rally in Everett

A jornalista Isabel Lucas publicou esta reportagem na edição do suplemento Ípsilon do Público onde perguntou a escritores Norte-Americanos o que podem eles fazer contra o seu presidente Donald Trump.

Quis saber como é que alguns amigos, quinze filósofos e professores de Filosofia, responderiam a esta pergunta dirigida a eles.

O que pode um Filósofo contra Trump? 

Aqui vão as suas respostas publicadas pela ordem que as recebi. Obrigado a todos os meus amigos por terem respondido à minha pergunta, mesmo quando acharam que era estúpida ou descabida. É para isso que servem os amigos!

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Susana Cadilha (doutorada em ética pela FLUP) – “Bom, eu acho que o que um filósofo pode contra Trump não andará muito longe do que um escritor – ou do que qualquer outra pessoa – pode contra Trump. Talvez os filósofos tenham, em principio, instrumentos mais eficazes para desmontar os argumentos dele e por a nu a fragilidade dos seus fundamentos. Mas acredito que qualquer pessoa que pense é capaz disso – e pode e deve fazer isso, pública ou privadamente.”

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Desidério Murcho (professor de Filosofia na Universidade de Ouro Preto) – “O meu pensamento acerca da polí­tica tem sofrido mudanças significativas, à  medida que vou acompanhando alguma da bibliografia relevante, apesar de essa não ser a minha área da especialidade. A minha influência mais recente é o livro de Joseph Heath, *Enlightenment 2.0*. Penso que neste livro se vê com muita lucidez a raiz dos nossos males polí­ticos contemporâneos: numa palavra, a atitude frí­vola com que se faz polí­tica, seja por parte de jornalistas e comentadores, seja por parte de eleitores e dos próprios polí­ticos. No desenho actual das instituições polí­ticas, o melhor a que podemos almejar são polí­ticos que se fazem eleger usando ideias populistas, simplistas e erradas, mas depois, nos bastidores, porque são pessoas de bem e pessoas competentes e informadas, vão fazer outras coisas, que realmente contribuem para o bem geral. Qual é o aspecto das nossas instituições polí­ticas que provocou este estado de coisas? Numa palavra, a publicidade. Depois da segunda guerra mundial, a publicidade tornou-se científica, no sentido de começar a usar o nosso conhecimento cada vez mais profundo do modo como funcionam os erros cognitivos humanos, que permitem aos publicistas explorar todas as nossas falhas de racionalidade para conseguir vender os produtos dos seus clientes. Aplicando isto à polí­tica, obtém-se o mundo mediático contemporâneo, em que as deliberações democráticas já quase que não existem: tudo é decidido e deliberado frente às televisões, e as deliberações têm por isso de obedecer à  lógica simplista e irracional que apela constantemente para as emoções mais irracionais dos eleitores. Os casos recentes do Brexit e da eleições de Trump deixou muitas pessoas abismadas, mas só porque as pessoas escolheram livremente o que estas outras detestam e o que infelizmente não pensam é que os processos polí­ticos contemporâneos, mesmo quando não conduzem a escolhas vistas como perigosas, como estas, são sempre bombas à espera de explodir. Enquanto não redesenharmos as nossas instituições polí­ticas de modo a impedir completamente o poder mediático da televisão e dos jornalistas e comentadores, enquanto a política não for senão uma extensão da atitude frí­vola e irracional com que se acompanha a vitória ou derrota da nossa tribo do futebol vulgo, “clube” estaremos cada vez mais à  beira do abismo. O que pode um filósofo fazer contra este estado de coisas é alertar as pessoas para a situação e propor soluções, mas se Joseph Heath tiver razão, e eu penso que tem, não há solução *pessoal* para os nossos problemas e só institucionalmente se pode melhorar significativamente as coisas.
Vejamos um exemplo: a frivolidade com que se faz humor acerca de qualquer pormenor de qualquer político de que não gostamos tem aspectos positivos e “historicamente o humor corrosivo de Voltaire muito terá contribuído para enfraquecer o poder da igreja na sociedade europeia” mas tem hoje muitos mais aspectos negativos, pelo que deveria ser pura e simplesmente proibido. Isto para mim é conclusão mais surpreendente da minha reflexão mais recente, porque sempre me conheci como um defensor radical da liberdade de expressão tal como John Stuart Mill a concebia. Porém, hoje vejo que há razões cientí­ficas sérias que dizem respeito ao impacto que um ou outro ambiente tem na nossa racionalidade, tornando-nos mais reflectidos ou, inversamente, mais irracionais” para pôr limites profundos à  liberdade de expressão. Cada chiste frí­volo acerca de uma questão séria e importante, como o aquecimento global ou os refugiados de paí­ses em guerra, são um obstáculo à  reflexão pública séria, cuidadosa e informada sobre o melhor curso de acção.”

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Tiago Sousa (doutorando em Filosofia da Música pela UM) – “A pergunta parece pressupor que o filósofo *deve* fazer algo contra Trump. Contudo, um filósofo, por maioria de razão justamente por ser filósofo, poderá começar por colocar em causa essa convicção implicada no pedido que lhe é dirigido. Mas ao tentar defender ou refutar esta convicção, o filósofo estará já a fazer aquilo que, enquanto filósofo, *pode* fazer. Ao problematizar a pergunta, estará, pelo menos em parte, a responder à própria pergunta. Não creio que haja vantagens em partir do princípio de que devemos lutar contra Trump como se se tratasse de uma bandeira que os filósofos erguem em nome da razoabilidade. É preciso cautela máxima porque *lutar contra Trump* pode muito facilmente resvalar ou ser confundido com *lutar contra as pessoas que o apoiaram*. Se um filósofo se predispuser a questionar com honestidade, rigor e clareza as ideias e ações de Trump, bem como aquilo que levou a que milhões de pessoas nele acreditassem, então estará a fazer algo de valioso: a elevar o debate político sem cair na desconsideração de ninguém.”

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Vítor Guerreiro (doutorado em Filosofia da Música pela FLUP) – “O mesmo que já podia contra qualquer administração, autoridade ou besta com muito poder.
Ouvir o que ele diz e desmontar as ideias. Qualquer coisa além disso ele fará enquanto outra coisa que não um filósofo.O que pode muito bem ser compatível.
Até os filósofos cozinham, etc.
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Rui Lopes (professor de Filosofia com Crianças) – “Não me parece que um filósofo possa fazer muito contra o Trump, de forma directa. O que os filósofos podem (e devem) é combater a ignorância e estupidez, em geral, que conduziram à eleição de Trump, levando as pessoas a questionarem-se genuinamente. Sinteticamente, os filósofos devem abraçar o papel para eles pensado por Platão (originalmente) na Alegoria da Caverna — mostrar o que está para além das sombras.”
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Carina Coelho (professora na ESE Porto) – “Em termos imediatos, pode pouco. A longo prazo poderá fazer algo não contra o próprio, mas contra algo que a sua eleição pode representar. O primeiro contributo seria precisamente ajudar a compreender o que esteve na origem desta escolha. A filosofia enquanto questionadora e promotora do pensamento crítico pode fomentar uma análise da realidade que coloca vários pontos de vista possíveis (e hipoteticamente possíveis) em cima da mesa, dialogando sobre eles de forma ideologicamente desprendida, o que é raro em política. Neste sentido, poderia contribuir para futuras decisões mais conscientes do fenómeno na sua complexidade e mais autónomas, isto é, menos permeáveis a influências como por exemplo de natureza partidária ou mediática. Não temos, contudo, garantias de que apenas por especulação a filosofia o consiga fazer. Os processos políticos envolvem dimensões que não são meramente racionais, no sentido mais cartesiano do termo. Seria importante ter em conta contributos de outras disciplinas nesses pontos de vista que menciono acima, tais como os da neurociência, da sociologia e da psicologia. Considerando que a filosofia pode ser também a procura de perguntas e de respostas que nos permitam projetar e construir um “mundo melhor”, e que os processos eleitorais correspondem à escolha das pessoas com influência para determinar o seu rumo em menor ou maior escala, seria importante que o diálogo filosófico promovesse um equilíbrio entre a utopia (o que pretendemos alcançar) e as potencialidades versus condicionalismos circunstanciais (quais poderão ser as melhores decisões num determinado contexto). Uma espécie de diálogo em que tenhamos “uma mão em Platão e um pé no chão”.

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João Carlos Silva (professor de Filosofia) – “Um Filósofo contra Trump pode… filosofar, mostrando racional e criticamente que ele e a sua política não passam de pós-verdades ou factos alternativos que só podem conduzir o seu país, não tanto à grandeza que ele e os seus apoiantes almejam, mas antes à pequenez que ele os seus eleitores mais temem, fazendo assim do mundo um lugar pior, mais perigoso e imprevisível do que já é.

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Domingos Faria (doutorando em Epistemologia e Filosofia da Religião) – “De qualquer forma, a filosofia pode ter um papel significativo, não para debater diretamente com o Trump, mas para se desmontar diante a sociedade e publicamente as inúmeras falácias e incoerências do discurso político de Trump, podendo igualmente ajudar a denunciar que ele está a resvalar para um perigoso totalitarismo que pode colocar em perigo valores fundamentais (como a liberdade, a verdade, a racionalidade, o acolhimento dos desprotegidos, etc). Mas, mais pessoalmente, fico completamente perplexo com a hipocrisia e incoerência de Trump: considera-se Cristão, mas age contra o evangelho de Cristo ao fechar as fronteiras; considera-se pró-vida ao querer proibir o aborto, mas é indiferente para os refugiados que correm riscos de vida. Em suma, mais do que tentar debater diretamente com Trump, o que a filosofia pode e deve fazer é proporcionar ferramentas à sociedade em geral para conseguirem desmontar as falácias de Trump e para que um fenómeno semelhante ou pior não volte a acontecer”.
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Rolando Almeida (professor de Filosofia) – “A pergunta parece um pouco vaga e toma desde logo uma orientação. Afinal, porque não pode um filósofo ser a favor de Trump? Ainda assim, e para tentar dar um bom enquadramento ao que me é pedido, um filósofo pode contra Trump avaliar criticamente do ponto de vista moral o seu programa eleitoral. E pode avaliar tendo em mente duas teorias morais relevantes, o consequencialismo e a deontologia kantiana. Assim, o filósofo pode proceder a uma avaliação das promessas eleitorais avaliando não só as suas consequências como as intenções e, a partir dessa análise, esboçar uma hipótese explicativa. O resultado seria qualquer coisa como “a ética de Donald Trump”
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Joana Rita Sousa (professora de Filosofia com Crianças) – “Pode contribuir para deitar abaixo o muro da incompreensão e da ditadura. Um filósofo, tal como qualquer pessoa, traz consigo uma “arma” poderosíssima contra a ignorância: a sua capacidade de pensar. E isso, caro Trump, é muito perigoso. Para si.”
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Aires Almeida (professor de Filosofia) – “Tenho alguma dificuldade em entender bem a pergunta. para ser completamente honesto, acho a pergunta surpreendente e não sei bem que resposta dar. Não é porque tenha a ideia de que a filosofia deva permanecer na estratosfera dos problemas metafísicos ou coisa do género. Longe disso, pois creio que os problemas filosóficos podem surgir a partir de qualquer contexto concreto e que os filósofos podem frequentemente ajudar a esclarecer problemas concretos da nossa vida social.
O problema aqui é que não sei mesmo o que se pretende. É suposto que os filósofos lutem contra Trump? Porquê? Que fique claro que, do que conheço do homem, nunca me passaria pela cabeça votar nele, caso fosse americano. Mas acho que a função da filosofia não é, por princípio, lutar contra ou a favor de seja o que for. É antes ajudar a discutir e a esclarecer os problemas e sobre o que é, em cada caso particular, a verdade.
Se alguma finalidade prática a filosofia tem, ela é desfazer preconceitos e a pergunta parece-me preconceituosa.
Provavelmente Trump é alguém que não merece o lugar que tem, mas não me parece aceitável, em termos estritamente filosóficos, dar como garantido à partida que tem de se lutar contra ele. E depois, não sei bem como poderia um filósofo, enquanto tal, poderia lutar contra ele. Em boa verdade parece-me que um filósofo pode fazer mais ou menos o que um médico ou um sapateiro pode fazer.
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Tim Kenyon (professor de Filosofia da Universidade de Waterloo, Canadá) –
The rise of the Trump administration in the United States represents a generational threat to the rule of law and the integrity of public discourse, among other things. This threat is multiplied by the actions of people both in the USA and beyond who feel empowered by Trump’s mix of authoritarian populism, exploitation of hatred and bigotries, and exuberant contempt for facts, reason, and expertise.
What should a philosopher do in response to this resurgence of fascist tendencies? There are many possible good answers, but consider this one: Do what you should have been doing all along. Teach, write, perform and model good reasoning, critiquing not just Trump – maybe not even Trump – but the local, smaller-scale ingredients of Trumpism. Do this even though you may lose friends (or family), and gain enemies. Don’t rest comfortably with the fiction that individual acts, policies or utterances of bias and bullshit are unrelated to the bigger picture. Help people replace these corrosive elements with an understanding of actions and their context, starting with yourself. Contempt for facts is not new; it has for many years been a marketing strategy for cable news media and internet commentary.
By teaching and doing public philosophy that identifies and explains this deceptiveness in moderate commercial forms, we foster an understanding of extremist “fake news” and, especially, the uptake it receives from people who have long been trained to accept it. Nor are philosophers somehow immune to the “othering” impulse that drives fascism. That bigoted language you use. That demonizing rhetoric you repost on social media. That stereotyping joke you tell. The eye-rolling or outrage you show when people call out such behaviour for what it is. Trumpism is chiefly the large-scale consequence of people agreeing with you that (i) some antipathy to the typical targets of fascism (women, foreigners, unions, LGTBQ, religious minorities) is justified and (ii) it’s unfair, unjust, and wrong when that antipathy is criticized.
Philosophy is a powerful corrective to this entitlement and rationalization of evil, but applying it unflinchingly to myself and to those around me involves commitment and loss.
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Jason Buckley (professor de Filosofia com Crianças na empresa Philosophy Man) – “I think that what philosophers should do against Trump is much the same as anyone else: support democracy, the rule of law, a free press and sincere dialogue. As a minimum I think those entail being a member of a political party in your own country; donating a day’s pay to the the ACLU (American Civilian Liberties Union) or similar; paying for a subscription to the Guardian or other liberal news organisation (real news costs money, and too many of us don’t contribute to those costs); lastly, attempting to keep channels of communication open with those who still support the Trump agenda and trying to understand their reasons and show them better ones.
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Rita Pedro (professora de Filosofia com Crianças) – “O que pode um filósofo contra Trump? Pode contaminar tudo e todos com pensamento crítico, dizer o que pensa sem medo de ser julgado, ensinar os outros a falar em público e a exporem as suas ideias, enfrentar e dissolver preconceitos, desenvolver análises críticas sobre as consequências da política de extrema direita no passado, a começar pela Europa….analisar as causas da eleição do Trump, tentar prever as suas consequências, questionar as atitudes e as decisões do Trump, questionar -se como é que ele foi eleito, tornar -se num político, ou refugiar -se para sempre na montanha!
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Teresa Marques (Investigadora no grupo LOGOS, Univ. Barcelona) – “Sou filósofa da linguagem, e estou interessada em compreender os mecanismos que permitem usar a linguagem para reforçar ou subverter valores, e o efeito que isso tem na maneira como nos comportamos. Posso estar enganada nas hipóteses que formulo, o que é uma possibilidade para qualquer académico, seja nas humanidades ou nas ciências. A nossa reflexão, por explorar toda e qualquer explicação alternativa possível e, como acontece na tradição analítica, submeter-se a voluntariamente a críticas e objecções devastadoras, constitui uma prática de cidadania democrática, e é esse o nosso poder. É um poder que se opõe ao que o tirano espera do seu público: a repetição entusiasta da nova e única verdade alternativa. E talvez seja esta a razão porque o fim da cidadania democrática às mãos dos regimes autoritários requer a perseguição de académicos inúteis, mesmo dos que se enganam nas suas hipóteses.”

Segue o texto que a Teresa me enviou na íntegra:

Teresa Marques

Que poder têm os filósofos?

8 de fevereiro de 2017

Nós, académicos das humanidades, filósofos ou historiadores, estamos habituados a que a nossa contribuição para a sociedade seja menorizada. Dizem-nos: Os cientistas fazem avanços importantes no conhecimento, podem salvar vidas, fazer avanços tecnológicos rentáveis e aplicáveis à indústria. As humanidades… são curiosidades culturais.

Os regimes autoritários não fazem esta distinção clara entre o cientista útil e o académico inútil. Quando chegam ao poder, perseguem ambos igualmente. Aliás, a perseguição aos filósofos tem um belo pedigree. Sócrates foi condenado à morte por “corromper a juventude”. Em Viena nos anos 30, lógicos e filósofos do Circulo de Viena foram perseguidos. Moritz Schlick, fundador do Círculo e filósofo da ciência, foi assassinado a tiro por um aluno nas escadas da universidade. O aluno veio a ser louvado como um “ariano heróico”.

Pode parecer que nos dias de hoje, numa sociedade democrática, os filósofos que se limitam a áreas aparentemente inúteis (filosofia da linguagem, da ciência, da lógica, metafísica, epistemologia) não têm nada a temer, em particular os filósofos da tradição analítica como é o meu caso. Contudo, existe neste momento nos EUA uma lista de “observação de professores perigosos” criada e mantida por estudantes universitários de direita (a Professor Watchlist – não deixo o link para não lhes dar ‘cliques’). Na lista estão filósofos como Peter Singer, acusados de “promover propaganda de esquerda”. Vários filósofos em instituições americanas respeitadas – MIT ou Yale, por exemplo – têm recebido ameaças de fontes anónimas, por correio, Twitter, correio electrónico, ou Facebook (o que levou alguns filósofos a apagar as suas contas dos meios sociais). As mensagens incluem ameaças de destruição de propriedade individual, ameaças de violação sexual (a filósofas), à integridade física, ou de morte, a própria ou a dos familiares (filhos incluídos). Quatro filósofos receberam embalagens postais com fezes humanas. Considerando que estamos a falar de filósofos na sua maioria da linguagem, lógica, metafísica, ou epistemologia, temas “inúteis” e “áridos”, tal como era a filosofia da ciência de Schlick, a pergunta é: que perigo levantam estas pessoas à sociedade, aos seus alunos, ou às suas instituições? Inverto portanto a pergunta que me é feita: que têm os governantes a temer dos filósofos? Afinal, as pessoas que têm sido alvo de ataques nunca se negaram a ter uma discussão racional, informada, e séria com os seus pares, e são académicos com um profundo respeito pela verdade e seriedade intelectual.

Na última década, muitos académicos e universitários têm sido criticados com o argumento de que são politicamente correctos, ou de que atacam a liberdade de expressão. É importante prestar atenção aos alvos destas acusações: em geral, são defensores das liberdades civis de minorias, e a “liberdade de expressão” supostamente atacada é a de denegrir essas minorias. As acções da nova administração americana revelam-nos qual é a verdadeira ameaça à liberdade de expressão, de informação, e de organização. Jornais e canais de televisão respeitados são acusados de fabricarem notícias e de serem ‘a verdadeira oposição’. Bases de dados nas páginas públicas de agências governamentais são apagadas (desde dados sobre os efeitos da acção humana no aquecimento global, a dados sobre a protecção dos animais); a agência que inspecciona as eleições a nível local, estadual, e nacional, é enfraquecida, o que permitirá aos estados impedir que milhares de eleitores de grupos minoritários participem nas eleições; a agência de protecção do ambiente poderá ser dissolvida; os cientistas que trabalham para instituições governamentais estão sob a “lei da mordaça”: não podem divulgar o seu trabalho a outros cientistas, não podem comunicar os seus resultados publicamente, nem por meios de redes sociais, nem por correio electrónico, e não podem falar com jornalistas. Leis que obrigavam à transparência das transacções de empresas petrolíferas com países estrangeiros foram abolidas. Testes sobre a segurança de medicamentos poderão ser abolidos. O financiamento das escolas e universidades públicas será cortado, além do famoso Obamacare, claro. O Washington Post revela que em vários Estados estão a planear perseguir manifestantes pacíficos como ‘agitadores violentos’. Acções executivas são implementadas e canceladas de forma aleatória. Juízes são desrespeitados; jornalistas são ameaçados. O novo presidente e a sua equipa mais próxima repetem ficções tão delirantes que desafiam a nossa sanidade mental. Todas estas acções são parte do verdadeiro assalto à liberdade de expressão, informação, e associação, e ao respeito pelas leis vigentes. Contudo, estas mesmas pessoas queixam-se da “polícia do politicamente correcto”.

A verdadeira ameaça não tem origem, para dar um exemplo anedótico, em discussões académicas sobre se a ofensa a uma minoria étnica tem origem numa pressuposição semântica, numa implicatura convencional, ou numa implicatura conversacional generalizada. A verdadeira ameaça à liberdade tem origem no abuso do poder e na supressão das vozes dissonantes. A realidade é o que o líder diz que é. Refutar o líder, ou os seus seguidores, com factos, ou argumentos, é inútil e contra-producente. O líder não responde a argumentos. Qualquer menção da sua mensagem, mesmo para a refutar, é uma amplificação.

Como diz o filósofo Jason Stanley (autor de How Propaganda Works, que não está traduzido para português), o novo presidente americano está a seguir o manual clássico do regime autoritário. Stanley lembra-nos que Platão, no livro VIII da República, nos diz que o tirano necessita alimentar o medo da população e manter presente a necessidade da guerra. Isso permite ao tirano se perpetue no poder como a única solução de governo possível. Além do mais, o tirano tem de dominar a verdade. Stanley lembra-nos também que, como Hannah Arendt nos dizia em As Origens do Totalitarismo, as ditaduras precisam de dividir o povo. Quando o tirano fala, dirige-se ao seu público, e não tem como objectivo unir toda a população em torno dos ideais democráticos da justiça, da liberdade, da tolerância, da igualdade, ou da verdade. O seu público não respeita a verdade. Respeita aquele que tem poder sobre a verdade, aquele que oferece uma narrativa simples e coerente, uma narrativa que faça o público sentir-se bem. Todo aquele que repete o que diz o líder amplifica a realidade alternativa. O respeito pelas minorias, pelos fracos, ou pelas mulheres, faz o seu público sentir-se mal, isto é, a protecção dos direitos civis das minorias ao abrigo da lei faz o público do tirano sentir-se mal. E o tirano fala-lhes a eles – a todos aqueles a quem o seu discurso traz conforto. Não a nós. Pensem nisso na próxima vez que ouvirem alguém queixar-se da “polícia do politicamente correcto”.

Eu sou filósofa da linguagem, e estou interessada em compreender os mecanismos que permitem usar a linguagem para reforçar ou subverter valores, e o efeito que isso tem na maneira como nos comportamos. Posso estar enganada nas hipóteses que formulo, o que é uma possibilidade para qualquer académico, seja nas humanidades ou nas ciências. A nossa reflexão, por explorar toda e qualquer explicação alternativa possível e, como acontece na tradição analítica, submeter-se a voluntariamente a críticas e objecções devastadoras, constitui uma prática de cidadania democrática, e é esse o nosso poder. É um poder que se opõe ao que o tirano espera do seu público: a repetição entusiasta da nova e única verdade alternativa. E talvez seja esta a razão porque o fim da cidadania democrática às mãos dos regimes autoritários requer a perseguição de académicos inúteis, mesmo dos que se enganam nas suas hipóteses.

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