Ser ou não ser uma zebra…

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Se trabalhamos com Educadoras de Infância e Professoras do 1º ciclo, como faço diariamente, é mais que natural que as nossas sessões ganhem uma dimensão plástica e de “mão na massa” que de outra forma seguramente não teriam. Estas profissionais sabem muito bem como captar a atenção das crianças mais novas através de apetrechos, adereços, utensílios, desenhos, colagens, etc. Aliar o trabalho mais conceptual da Filosofia à vertente mais material das expressões plásticas é algo que todos nós que trabalhamos nesta área da FcC devemos procurar fazer.

Devo a concretização desta ideia à educadora Cláudia Sousa do Colégio Novo da Maia e ao seu grupinho dos “5 anos”.

[esta sessão que pode funcionar de forma independente ou como uma espécie de sequela à primeira sessão com a “Zebra Camila” intitulada “Obedecer / Desobedecer“]

A partir de uma experiência mental ilustrada com bonecos com a cabeça, o tronco e os membros recortados tratamos de pôr os nossos alunos a pensar sobre problemas como a Identidade Pessoal (sou a mesma pessoa ao longo da vida), a Identidade de Género (sou aquilo que o meu género me define?) e muitos outros problemas relacionados e que tendem a surgir de forma espontânea durante as trocas de ideias dos nossos alunos.

0) Material: Um leão e uma zebra ilustrados; recortes dos seus membros; “bostik” para colar e reconfigurar os dois bonecos.

Começamos por contar/improvisar a seguinte história:

“A zebra Camila e o Leão João tinham muitas coisas que os distinguiam. Uma era uma zebra, outra um leão. Não temos de dizer muito mais, pois não?

Bem, mas tinham algo em comum: nenhum estava bem no corpo que tinha. A zebra Camila estava cansada de todos os dias ter de fugir de todos os animais selvagens da selva para evitar ser o seu jantar e sonhava ser um leão. Já o leão João invejava a facilidade com que as zebras se alimentavam de erva que não “fugia a sete pés” quando ele as tentava apanhar.

Os dois foram então falar com o animal mais sábio do Reino Animal, a minhoca (?) que lhes disse que se pensassem com muita muita força, se quisessem mesmo, essa transformação iria acontecer. Foi assim que de manhã os dois tiveram uma surpresa. Acordaram cada um com um par de patas de trás novo. Um par de patas de leão para a Camila e um par de patas de zebra para o João. Todos os dias pensavam mais e com mais força nas suas transformações desejadas e todos os dias de manhã acordavam com uma nova pata, uma nova cauda, um novo troco.

Numa manhã despertaram os dois e dos seus corpos originais já só tinham a cabeça (imagem em baixo). Tudo o resto se mantinha, sobretudo os seus gostos alimentares. Mas uma questão os preocupava. Começavam a ter dúvidas sobre quem eram.

1 – Quem é a Camila? Quem é o João?

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“Finalmente, acabaram por trocar também a cabeça. Agora todo o corpo da zebra Camila estava no João e todo o corpo do leão João estava na Camila. Passado algum tempo de habituação o leão começou a gostar de carne (como devia ser) e a zebra começou a gostar de erva (como também devia ser).

2 – E agora, quem é a Camila? E quem é o João?

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Aqui devemos deixar o diálogo “correr” com os nossos alunos a trocarem argumentos sobre os diversos aspectos que poderão levar a que a Camila (e o João) ocupem agora um ou outro corpo. Alguns alunos darão maior ênfase à continuidade corporal, com a “pessoa Camila” a seguir o rumo do seu corpo, outros defenderão um ponto de vista mais imaterial (ou, nalguns casos, mesmo espiritual) defendendo que há algo que continua na pessoa apesar de todas as mudanças corporais e psicológicas (o corpo e os gostos). Poderão das a esse algo o nome de “alma, espírito, pensamentos, memórias ou algo mais inefável como “alguma coisa”. De todas as formas esta sessão seguramente trará muita confusão aos nossos alunos, confusão e incerteza que os vários pontos de vista, argumentos e críticas dos seus amigos apenas aumentará. E isso não é algo que nos deva preocupar, antes pelo contrário deixe-mo-nos comprazer com esse turbilhão de ideias que se instala nas cabeças dos nossos alunos. É sinal que estão (bem) vivos.

3 – Por fim deixamos que se entretenham mais um pouco com uma das perguntas que subjaz a todo este problema de Identidade Pessoal e da continuidade ou descontinuidade do “eu”:

  • “Podemos mudar quem somos?

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4 – Uma forma (opcional) de acabarmos a sessão, ou darmos continuidade numa outra sessão é contar que “depois de todas estas trocas os dois se mantinham inconformados. Quem era agora leão rapidamente se fartou de andar a correr atrás de zebras e quem agora era zebra vivia apavorado de medo dos leões que a queriam comer. Foram dormir a pensar o que poderiam fazer para voltar a mudar de corpo. Mas, na manhã do dia seguinte os dois acordaram para perceber que tudo não tinha passado de um sonho.”

  • Qual o significado desta história?

E desta forma temos garantida para os nossos alunos uma das mais interessantes aventuras mentais da semana😉

Boas ideias!

 

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