Dom Filósofo de la Mancha – 3

WP_000147

 

Sessão 3 – Dulcineia e o Amor

Objetivo: Neste episódio Dom Quixote “transforma” uma simples camponesa numa dama, Dulcineia del Toboso, e decide dedicar-lhe as suas aventuras.

Dom Quixote parece encontrar no amor a força que lhe faltava para dar início à sua aventura e esta é, por isso, uma boa oportunidade para levar os nossos alunos a pensar sobre este sentimento tão forte e tão universal que tanto sentido dá às nossas vidas.

0 – Para este exercício começamos por desenhar no quadro (e pedir que os nossos alunos desenhem nos seus cadernos da Filosofia) uma árvore sem folhas nem frutos. Em seguida a cara do Dom Quixote (ver imagem) um pouco abaixo da árvore.

“Dom Quixote já tinha armas e cavalo. Pensou agora que só lhe faltava uma coisa para ser um verdadeiro cavaleiro andante. Uma dama por quem se apaixonar pois, como dizia ele, uma vida sem amor é como uma árvore sem folhas nem fruto.”

1 – O que significa esta frase? Concordas?

Nota:

Neste ponto Piaget diria seguramente para pararmos o exercício. Crianças tão novas (a partir dos seis anos) ainda não atingiram o estádio de desenvolvimento cognitivo que lhes permite o pensamento abstrato necessário para entender esta metáfora. Certo?

Errado. Bastaria ver como após umas primeiras tentativas de alguns alunos em explicar a metáfora através de estados mentais da própria árvore (“A árvore está triste pois não tem frutos”) uma aluna particularmente afoita, mas apesar de tudo uma aluna de seis anos, avança a hipótese de que “O amor é a felicidade das pessoas como os frutos são a Felicidade das árvores”. Imediatamente, como que por contágio, as intervenções que se seguiram “subiram de tom” e começamos a falar de conceitos abstratos como a Amizade, a Felicidade e o Amor.

Aqui Vygotsky exultaria com a confirmação de que em todos os estádios se encontram capacidades de outros estádios superiores e que a ajuda preciosa de “pares mais competentes” empurra a criança para estádios mais elevados, diretamente para a sua zona de desenvolvimento proximal.

2 – Quais os outros frutos da nossa vida?

Se o Amor é um dos frutos convidamos agora as crianças a desenhar onde quiserem na sua árvore os vários frutos propostos. Dentro dos frutos podem escrever o conceito proposto ou, para os alunos que ainda não sabem escrever, a inicial desse conceito (Amor, Brincadeira, Família, Coração, Diversão, Beleza Felicidade, Amigos, Carinho, Pais – foram as propostas da sessão a que aqui me reporto).

“De que servia, pensava ele, arriscar-se em batalhas tão duras e perigosas, se não tinha uma mulher amada a quem impressionar?

Lembrou-se então de uma camponesa que vira umas vezes perto de sua casa. Não a conhecia pois nunca tinha falado com ela, mas sabia que se chamava Aldonza Lorenzo e era de uma pequena aldeia chamada Toboso. Era uma rapariga extremamente bela e Dom Quixote decidiu que ela seria a sua amada. Iria dedicar a ela todas as suas aventuras. Seria em nome do seu amor que percorreria o mundo como cavaleiro andante em busca de perigos para enfrentar e batalhas para travar.

Mas ele era um nobre cavaleiro andante, Dom Quixote de la Mancha, e ela uma simples camponesa. Muito bonita mas, ainda assim , uma camponesa. Dom Quixote decidiu então dar-lhe o título de “princesa” e mudar-lhe o nome para Dulcineia del Toboso.

Dom Quixote tinha agora uma razão para a sua aventura de se tornar cavaleiro andante, o amor por uma princesa.

3 – É possível gostar de quem não conhecemos?

 

Sublinhando aos nossos alunos que Dom Quixote se apaixonou por Dulcineia sem a conhecer (ou só a conhecendo de vista, “só com os olhos”) podemos levar os nossos alunos a pensar sobre as causas ou a origem desse sentimento tão forte e único: “de onde vem o amor?”.

Proposta de exercício: No final da sessão projetamos no quadro interativo as seguintes imagens (coração, cérebro e olhos).

 

 

 

 

4 – De onde vem o amor: do Coração, do Cérebro, dos Olhos (ou de outro sítio qualquer)?

Alguns alunos afirmarão que o amor vem de mais do que de um deles. Nesse caso podemos pedir-lhes que encontrem uma ordem para estes três conceitos e a justifiquem.

Aqui as várias respostas avançadas por esta turma do 1º ano fazem-nos ver que alguns alunos formam uma hierarquia baseada na importância destes conceitos/orgãos para o amor, outros baseada na sequência causal que leva da perceção da pessoa até ao amor por essa pessoa.

Exemplo de categorização baseada na importância: “Em primeiro lugar está o cérebro pois é o cérebro que pensa os sinais que os “bombeiros do coração” lhe enviam. O coração com o amor faz-nos ficar vermelhos e o cérebro sabe que estamos apaixonados. Por isso o coração é o segundo. E os olhos são os últimos pois eles é que mostram ao coração a pessoa de que gostamos.”

Exemplo de categorização baseada na percepção do amor: “Primeiro os olhos porque veem a pessoa, em segundo o coração que sente e em terceiro o cérebro que sabe que se está apaixonado e faz-nos pensar (na pessoa por quem estamos apaixonados).”

 

Erro meu

Numa sessão com uma turma do 2º ano cometi um erro que me fez ver que num diálogo filosófico devemos sempre confiar nos alunos até ao último minuto da aula e nunca devemos substituir-nos a pensar por eles.

Quando, mesmo no final da aula, uma aluna ordenou a origem do amor começando pelos olhos “que veem a pessoa”, seguido do cérebro “que pensa se gostamos dela” e, por fim, o coração “que sente o amor” resolvi desafiar esta ideia para provocar uma torrente de pensamento final para os alunos levarem consigo para casa. Perguntei à aluna: “se o amor começa nos olhos um cego pode amar?”

Mal acabo de perguntar isto, um aluno que estava de braço no ar a querer falar clamou “Era isso que eu ia dizer.”

Fiquei de rastos. Armei-me em chico esperto pensando que os alunos não seriam capazes de tão perspicaz pensamento e minha intervenção precipitada (e deslocada) tirou a este aluno o prazer de um pensamento original.

Serviu-me de lição para estar sempre atento e nunca cair em tentação… de pensar pelos meus alunos.

 

Exercício desenvolvido com os meus alunos do 1º ciclo do Colégio Novo da Maia

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s