Debate Vs. Diálogo

Debate e Diálogo

Corremos aqui o risco de estarmos a navegar em zona cinzenta. Com boa (ou má) vontade podemos dizer que todas as características de um debate se encontram num diálogo e vice-versa (argumentação, análise conceptual, definições, problematizações, etc.). No entanto, para quem se interessa por estas questões do ensino e da prática da filosofia através do diálogo rapidamente se torna bastante claro que existem várias dinâmicas que se podem criar num diálogo e essas dinâmicas são consequência da interferência directa do moderador, dos objectivos e capacidades dos participantes, do problemas ou exercício proposto, etc. Assim torna-se essencial tomar consciência e distinguir esses diferentes tipos de “diálogos” e classificá-los devidamente. 

Nesse sentido (pragmático) arrisco duas hipóteses para distinguir um debate de um diálogo:

1 – um debate é finito enquanto um diálogo é potencialmente infinito. 
2 – No âmago do debate está a persuasão, do diálogo está a compreensão. 

Estas duas características estão interligadas como tentarei explicar em seguida:

Um debate é finito pois esgota-se quando as posições em jogo são totalmente reveladas, os pressupostos de cada lado compreendidos e uma posição é tomada ou decide-se não se tomar uma decisão.
Um debate tem sempre um fim que pode ser uma aporia (uma suspensão do juízo) ou uma tomada de posição por uma das partes.

Já o Diálogo contém em si momentos de debate (apresentação de argumentos e contra-argumentos) mas admite uma dinâmica comunicativa mais fluída e flexível. Esta fluidez é possível no diálogo e não é aceite no debate pois o foco daquele não é a persuasão mas a compreensão e, por esse motivo, admite uma maior ambiguidade e vagueza dos conceitos em questão. A fluidez de significados é um obstáculo a evitar num debate uma vez que se o que se quer é convencer alguém da verdade de algo queremos seguramente acordar naquilo que se está a debater. Já no Diálogo, uma vez que o foco é na compreensão (de um tema, de uma área do conhecimento, etc.), essa ambiguidade e vagueza podem levar o diálogo para zonas que de outra forma os participantes não teriam previsto. A riqueza do Diálogo está, exactamente, nesta possibilidade de nos deixarmos ir na corrente de significado que se vai criando e desenvolvendo entre os participantes. A mestria de um participante de um Diálogo Filosófico está em usar essa fluidez a seu favor e evitar afogar-se na torrente infinita de significados que vão surgindo no decurso do diálogo. 

Devido a estas características, num Debate Filosófico raramente saímos de terrenos conhecidos (na melhor das hipóteses somos surpreendidos com um novo argumento ou refutação ainda desconhecida), já num Diálogo Filosófico é da sua própria essência avançar para o desconhecido e inesperado. A dinâmica de um diálogo (como a caracterizei em cima) facilita a descoberta desses novos caminhos na forma de novos sentidos para velhos conceitos, novos pontos de vista sobre um assunto, novas abordagens, novos problemas. Esta fluidez é grandemente facilitada pela intenção que assiste ao participante num diálogo que é compreender e não persuadir, como num debate. Essa ausência de vontade em persuadir facilita uma postura mais aberta, mais centrada e atenta no que o outro nos diz e menos naquilo que temos para dizer.

A causa destas diferenças poderá estar em algumas “atitudes interiores” e na presença ou não de certas “virtudes intelectuais” nos participantes e essas causas têm efeitos reais no próprio processo comunicativo conduzindo por vezes ao Diálogo outras ao Debate.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s