Dom Filósofo de la Mancha – 1 e 2

 

 

Introdução

Aqui me proponho acompanhar com os meus alunos as aventuras e desventuras filosóficas do cavaleiro Dom Quixote de la Mancha e do seu fiel escudeiro Sancho Pança.

Para isso adaptei livremente o texto original apresentando esquematicamente alguns episódios por forma a serem contados oralmente em sala de aula. Como acontece na transmissão oral de uma história o “contador” tem alguma liberdade para alterar um pouco a história, dar-lhe “cor” e “sabor”, tendo em conta o seu público-alvo, o contexto em que se insere e os objectivos que pretende alcançar. No meu caso tratam-se de alunos do 1º ciclo do ensino básico português (entre 6 e 10 anos de idade), em aulas de Filosofia com Crianças e o que se pretende é que a história sirva de estímulo a diálogos filosóficos sobre os vários temas e problemas que ela levanta.

E para conseguir prender os alunos à nossa narração é importante que consigamos levá-los “para dentro” da história quer através de descrições sucintas de ambientes e personagens, momentos de pausa, antevisão e suspense que os deixe “à beira do abismo”, à espera do que vem a seguir (esses momentos são, por isso mesmo, conhecidos como “clifhangers”), mas também permitindo que se expressem sobre o rumo que a história e as personagens deverão tomar.

Nestas sessões o truque está em sabermos criar esses momentos ao longo da narração e aproveitá-los para aí colocarmos as perguntas que devem entermear o diálogo. Dessa forma garantimos a tensão emocional e intelectual necessária para uma hora ou mais de diálogo filosófico com os nossos alunos.

Procurei não me afastar muito da história original de Miguel de Cervantes, mas tenho bem presente que não se trata aqui de compreender e interpretar este clássico da literatura. Como tal, não deixei que o meio se sobrepusesse ao fim, ou seja, que o respeito ao texto original impedisse uma fácil transmissão e entendimento dos episódios e acontecimentos pelos alunos. Só partindo dessa base segura de compreensão pode o diálogo filosófico, o principal objectivo destas sessões, ter início e ter sucesso.

Sessão 1 – Alonso Quijada

Objectivo: Este primeiro episódio permite-nos uma grande diversidade de abordagens filosóficas e poderá estender-se por mais de uma sessão, se virmos que esse é o interesse dos nossos alunos.

Podemos pensar sobre os conceitos de “verdade” e de “mentira” na literatura e na ficção.  As noções de “loucura” e de “herói” também podem ser problematizadas, assim como as de “memória” e “vida eterna”.

“Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia um pobre fidalgo de uns 50 anos que ocupava o seu tempo a ler romances e histórias de cavaleiros e heróis. Acho que se chamava Alonso Quijada, ou Quesada, mas isso não importa. O que importa é que na história que vou contar dele só diga a verdade.”

1.Por que achas que o autor não se quer lembrar do lugar onde vivia o fidalgo Alonso Quijada?

2.As histórias devem dizer a verdade?

3.Esta vai ser uma história só com verdades?

“Este fidalgo lia tantos livros de aventuras, de batalhas e de amores que começou a acreditar que era verdade tudo aquilo que lia. Em breve ficou louco. A loucura pode manifestar-se de diversas formas e a este fidalgo deu-lhe para se tornar naquilo que sempre desejara ser: um herói igual aos heróis das histórias que lia. Queria ser um cavaleiro andante e vaguear pelo mundo fora em busca de aventuras e perigos para assim conseguir ganhar fama e ser recordado por todos e para sempre. Assim, pensava ele, nunca morreria.

4. Se fosse recordado por todos e para sempre nunca morreria. Isto é uma verdade ou uma mentira?

5. Alonso Quijada pode escolher viver tranquilamente durante muitos anos ou heroicamente mas correndo muitos perigos e, provavelmente, poucos anos. O que deve escolher?

6.Seria bom viver para sempre?

7. Desenha o “teu” Alonso Quijada.

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Sessão 2 – De Alonso Quijada a Dom Quixote

Objectivo: Neste episódio assistimos à transformação de Alonso Quijada de um pobre fidalgo num nobre cavaleiro andante chamado Dom Quixote. Esta transformação pode ser um pretexto para levarmos os nossos alunos a pensar sobre questões acerca da nossa identidade enquanto pessoas, da capacidade que temos para mudar quem somos ou se podemos de todo mudar a pessoa que somos.

O “segredo” desta sessão está, precisamente, na ambiguidade que existe na expressão “mudar quem somos”. Pode referir-se a uma mudança gradual, a uma transformação como a que acontece quando envelhecemos. Mas pode significar também uma radical mudança de identidade. Alguém deixar de ser quem era e passar a ser outra pessoa. Este é um problema filosófico clássico conhecido como o problema da Identidade Pessoal.

Aqui interessa-nos que sejam os alunos a descobrir e a lidar com essa ambiguidade pelo que devemos abster-nos de a explicar.

[começar por desenhar um “Alonso Quijada” no quadro]

“A primeira coisa que fez foi subir ao sótão onde tinha guardadas umas armas antigas do seu bisavô. Uma espada poeirenta e uma lança ferrugenta. Encontrou também uma armadura velha e rasgada, mas já sem elmo (capacete). Então, com cartão e uns pedaços de ferro, fez um elmo de cavaleiro. Olhou-se ao espelho e pensou que lhe ficava muito bem. Sentiu-se um cavaleiro.

1 – Alonso “sentiu-se um cavaleiro.” Já era um cavaleiro?

Bem servido de armas pensou que lhe faltava um cavalo, pois o que seria um cavaleiro sem cavalo?

Foi buscar um velho e esquelético cavaleco que há muitos anos estava esquecido no estábulo. Já não servia para nada de tão cansado, mas Quijada decidiu que seria esse mesmo o seu cavalo. Apenas precisava de um nome heróico que o que tinha não servia. Chamava-se “Piléca” e esse seguramente que não era nome de cavalo de herói. Pensou durante muito tempo até que se decidiu por um nome sonante e heróico.

2. Que nome darias ao cavalo?

Chamou-lhe “Rocinante”.

Agora o nosso Alonso Quijada já tinha armas de herói, já tinha cavalo de herói. Mas ainda tinha um problema. Chamava-se, “Alonso Quijada”. Alonso Quijada não era nome de herói. Com esse nome ninguém o levaria a sério. Lembrou-se de como os meninos gozavam com o seu nome na escola, “Alonso Queijo”, chamavam-no. Imaginou que o mesmo fariam os seus inimigos quando os encontrasses pelo caminho, todos aqueles com que se iria bater quando lhes dissesse o seu nome: “Alonso Queijo?”. Iriam cair para o chão a rir. Resolveu mudar de nome.

3. Podemos mudar o nosso nome?

Pensou durante oito dias até que resolveu passar a chamar-se “Dom Quixote”. E, para elevar ainda mais o seu estatuto, acrescentou um apelido, “de la Mancha” para honrar a terra onde nasceu. Dom Quixote de la Mancha, era assim que daqui em diante se iria chamar.

4. Qual o seu verdadeiro nome: Alonso Quijada ou Dom Quixote?

Subiu de novo ao sótão e voltou a olhar-se ao espelho. Parecia agora ainda mais digno e heróico com o seu novo nome. “Dom quixote de la Mancha” – repetiu orgulhoso. Nunca se sentiu tão feliz, um sorriso rasgado reflectido no espelho.

[desenhar um Dom Quixote no quadro]

IMG_20160112_120652

Foi então que viu, na parede atrás do espelho, um retrato seu pintado uns anos antes. Mais novo, sem armadura e sem o sorriso no rosto. Com a sua imagem reflectida no espelho e, logo atrás, a sua imagem pintada no quadro uma pergunta veio-lhe à mente:

5. Alonso Quijada e Dom Quixote são a mesma pessoa?

 

[outras perguntas possíveis]

6.Podemos deixar de ser quem somos?

7.O que seria preciso para deixarmos de ser quem somos?

 

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Sessão 3 – Dulcineia

Objectivo: Neste episódio Dom Quixote transforma uma simples camponesa que apenas conhece de vista na mulher por quem se apaixona, Dulcineia del Toboso, e decide dedicar-lhe as suas aventuras.

Dom Quixote parece encontrar no amor a força que lhe faltava para dar início à sua aventura e esta é, por isso, uma boa oportunidade para levar os nossos alunos a pensar sobre este sentimento tão forte e tão universal que tanto sentido dá às nossas vidas.

“Dom Quixote já tinha armas e cavalo. Pensou agora que só lhe faltava uma coisa para ser um verdadeiro cavaleiro andante. Uma dama por quem se apaixonar pois, como dizia ele, um cavaleiro andante sem amor é como uma árvore sem folhas nem fruto.”

1 – O que significa esta frase? Concordas?

“De que servia, pensava ele, arriscar-se em batalhas tão duras e perigosas, se não tinha uma mulher amada a quem impressionar?

Lembrou-se então de uma camponesa que vira umas vezes perto de sua casa. Não a conhecia pois nunca tinha falado com ela, mas sabia que se chamava Aldonza Lorenzo e era de uma pequena aldeia chamada Toboso. Era uma rapariga extremamente bela e Dom Quixote decidiu que ela seria a sua amada. Iria dedicar a ela todas as suas aventuras. Seria em nome do seu amor que percorreria o mundo como cavaleiro andante em busca de perigos para enfrentar e batalhas para travar.

Mas ele era um nobre cavaleiro andante, Dom Quixote de la Mancha, e ela uma simples camponesa. Muito bonita mas, ainda assim , uma camponesa. Dom Quixote decidiu então dar-lhe o título de “senhora” e mudar-lhe o nome para Dulcineia del Toboso.

Dom Quixote tinha agora uma razão para a sua aventura de se tornar cavaleiro andante, o amor por uma mulher.

2 – Podemos escolher de quem gostamos?

3 – É possível gostar de um desconhecido?

4 – Para que serve o amor?

5 – Desenha a “tua” Ducineia del Toboso.

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Se

 

 

 

 

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