FILOSOFIA COM CRIANÇAS_O VÉU DA IGNORÂNCIA

(este exercício foi pensado e aperfeiçoado com a ajuda dos meus alunos dos 2º e 3º ciclos do Colégio Novo da Maia)

O “véu da ignorância” é uma experiência mental desenvolvida pelo Filósofo norte-americano John Rawls no seu livro “Uma Teoria da Justiça” . Segundo Rawls atrás de um “véu de ignorância” seríamos mais capazes de escolher os princípios éticos que deveriam orientar uma sociedade justa.

Mais que introduzir a teoria da justiça de John Rawls (que também poderá ser feito desta forma) o que este exercício pretende fomentar é o uso prático do “véu da ignorância” nas tomadas de decisão e julgamentos éticos dos nossos alunos Acreditamos que esta ferramenta intelectual poderá ajuda-los a tomar decisões mais justas nas suas vidas.

Resumo

Normalmente quando nos é pedido para avaliarmos a justeza de uma acção qualquer é-nos dito que nos devemos descentrar, que devemos procurar o “ponto de vista do outro”. Para Rawls isto não seria suficiente, pois dessa forma estaríamos a pensar e a decidir segundo os interesses do outro. Estaríamos apenas a deslocar o foco do interesse de “Eu” para o “Outro”. De uma posição demasiado egoísta (a minha) passaríamos a uma posição demasiado altruísta (a do outro). Julgo que Rawls defenderia que a posição inicial mais justa seria uma posição de um “lugar nenhum” ou seja, um ponto de vista de ninguém em particular. O ponto de vista da razão.

Mas como conseguir esse ponto de vista de “lugar nenhum”? Não é isso uma posição paradoxal? Não precisamos sempre de assumir um ponto de vista particular para tomar uma decisão?

Segundo Rawls (e aqui se encontra a genialidade da sua proposta) o que devemos fazer quando temos de decidir o que é mais justo não é assumir uma outra posição que não a nossa mas partir da hipótese de que desconhecemos totalmente quem somos, o que fazemos e como somos. Rawls dá o nome de “posição original” a este estado de ignorância total acerca da posição que ocupamos na sociedade. Nessa posição hipotética de total ignorância nós não saberíamos que lugar ocupamos na hierarquia social, a nossa profissão, as nossas características intelectuais, nem os nossos princípios morais. Essa seria, segundo Rawls, a posição que da qual deveríamos partir por forma a fazermos escolhas ao mesmo tempo racionais e justas.

Exercício

Um grupo de alunos está no gabinete do director da escola. Foram apanhados a vandalizar as paredes do recreio. Todos são reincidentes neste tipo de comportamentos. Deves decidir se devem ser castigados e, se sim, que castigo devem sofrer.

1) Dividir a turma em três grupos.

2) Um grupo deve decidir sobre o castigo enquanto directores da escola, o segundo grupo enquanto alunos e o terceiro grupo não sabe se representam o director ou os alunos (mais tarde isso será decidido por moeda ao ar).

3) Cada grupo tem 5 minutos para discutir após os quais deverão reflectir já em grande grupo (turma toda) qual o grupo que tomou a decisão mais justa e qual o grau de justiça de cada um deles.

Se tiverem sorte (como tive numa das minhas turmas) o primeiro grupo (directores) decidirá um castigo muito pesado, o segundo grupo decidirá um castigo muito leve (ou mesmo não castigar) e o terceiro grupo será o mais justo e equilibrado.

Mesmos que os resultados não sejam estes os alunos deverão reflectir sobre as vantagens e desvantagens desta estratégia do “véu da ignorância” quando aplicada às suas vidas.

Algumas perguntas que podem estimular o Diálogo:

– É possível sermos sempre justos?

– A justiça existe?

– O “véu da ignorância” garante-nos decisões justas?

– O que é justo para uns é injusto para outros. Concordas?

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