Desenvolvi este exercício de filosofia em andamento obviamente inspirado pela Escola Peripatética de Aristóteles.
Na Rua do Bicalho (Caminhos do Romântico atrás da Faculdade de Letras do Porto) demos início a uma “Caminhada Peripatética” com os alunos a discutirem aos pares a pergunta:
“Qual a palavra mais essencial do Universo?”
É sabido que Aristóteles e os seus discípulos gostavam de filosofar enquanto passeavam pelos jardins do Liceu. Acreditavam, e bem, que o exercício físico irrigava o cérebro o que melhorava as suas performances cognitivas. Caminhavam lado a lado e a passo rápido enquanto debatiam problemas filosóficos difíceis ou escutavam as profundas lições do seu mestre.
Caminhar enquanto reflectimos ajuda-nos a assimilar conhecimentos, a melhorar a criatividade, a estabelecer relações entre ideias e a ser estimulados física e mentalmente por paisagens, cheiros, barulhos e silêncios. Além disso, o facto de caminharmos enquanto dialogamos com outras pessoas (aos pares) põe-nos em sintonia com elas. Ao partilharmos o mesmo esforço físico e mental somos levados a aceitar mais naturalmente outras perspectivas e críticas às nossas ideias o que torna o diálogo mais cooperativo e menos dialéctico. Por outras palavras, caminhar põe-nos a pensar com os músculos, com os sentidos e com o coração e não apenas com o cérebro.
A meio do percurso parámos na Faculdade de Letras (FLUP) para um breve diálogo com o grupo e pudemos constatar a enorme variedade de ideias que tinham sido avançadas pelos vários pares: o Big Bang, o Universo, o Infinito, etc. Havia tudo menos acordo, o que do ponto de vista filosófico só pode ser uma coisa boa.
Foi uma visão única a de catorze miúdos de 12/13 anos a atravessar os corredores da Faculdade de Letras a discutirem aos pares se o “Universo é mais essencial que o Infinito ou se o Infinito é mais essencial que o Universo”.
Continuámos pelos jardins da FLUP em direcção à Via Panorâmica a tentar saber se “antes do Big Bang havia algo”. Pelo caminho encontramos o filósofo e amigo Tomazzo Piazza de (re)visita à nossa cidade mas não nos pudemos demorar. Um aperto de mão e seguimos pois o ritmo da caminhada e da reflexão ia alto.
De tempos a tempos mudávamos os pares para as mentes dos alunos de irem “fertilizando” com novas ideias de outros colegas.
A caminhada terminou com um diálogo à sombra das árvores do Palacete Burmester.
Para moderar o diálogo que prometia ser aceso, tal era a ebulição mental que se fazia sentir, recorremos à técnica do Microfone Mágico. Numa conversa que durou cerca de 20 minutos o grupo chegou (temporariamente) a acordo sobre a palavra mais essencial do Universo: “Big Bang, pois sem isso não existiria o Universo.”
Mais tarde outros diálogos sobre este mesmo tema fizeram cair por terra esse acordo e o pensamento pode enfim seguir o seu caminho. Como a nossa caminhada também o pensamento é um “percurso que nunca mais acaba”, como dizia a meio do caminho uma das alunas mais ofegantes.
Esta foi a última sessão desta edição de 2013 dos Jovens Filósofos: mente Sã em corpo São e este foi um grupo de que dificilmente me vou esquecer: Os Peripatéticos
Até para o ano!