O OBJECTO MISTERIOSO: FILOSOFIA COM CRIANÇAS

“O QUE É ISTO?”

Apresentação
Saber pensar é saber ser crítico mas, também, ser criativo e ter a capacidade de gerar ideias, encontrar vias alternativas e diferentes perspectivas sobre nós e aquilo que nos rodeia. Este exercício “Objecto Misterioso” procura ajudar as crianças a saírem da visão rígida do mundo que nós adultos tanto gostamos de lhes impor convidando-os a procurarem num “objecto estranho” as suas diversas potencialidades, aquilo que ele pode ser.

Este é um exercício muito bom para uma primeira sessão do ano com um grupo novo de alunos pois de imediato faz com que sintam que aqui, na Filosofia, as respostas terão de vir deles mesmos e não do professor que simplesmente se limita a pôr-lhes problemas e a fazer cumprir as regras do Diálogo Filosófico.

Esta é, ainda, uma boa forma de iniciar as crianças no espírito do pensamento filosófico pois há algo de muito semelhante entre este exercício em particular e a prática da filosofia em geral. Aquilo que neste exercício leva as crianças a pensar é o mesmo sentimento de estranheza face ao desconhecido e de curiosidade face ao novo que faz com que os filósofos procurem passar do ainda não conhecido ao conhecido através do pensamento e do diálogo.

 

“Encontrei este objecto no sótão lá de casa. Alguém sabe o que é e para que serve?”

Exercício: Objecto Misterioso

1)      Apresentar aos alunos um “objecto estranho”, interessante mas difícil de identificar.

2)      Perguntar “O que é?” e esperar pela estranheza dos alunos. É desta forma que conseguimos a sua atenção e despertamos a sua curiosidade pelo objecto que têm à frente. Pode ajudar dizer que “o encontramos num sótão lá de casa e não sabemos o que é ou para que serve.

3)      Reformular a pergunta para “O que é que pode ser” ou “para que serve” este objecto?

4)      Sempre que obtemos uma resposta pedir ao aluno que deu a sugestão para explicar ao grupo como pensa que funciona. “Podes mostrar como isso se faz?”

5)      Ouvir as várias sugestões dos alunos expondo-as à consideração do grupo: “Quem concorda? Quem não concorda?”

6)      Terminar a sessão enumerando as várias ideias apresentadas e pedir ao grupo que identifique o seu autor (trabalho sobre a atenção dos alunos).

7)      TPP (Trabalho para os Pais): “Em casa tentem descobrir com os vossos pais o que é este objecto e para que serve e como se faz?” Não tendo consigo uma fotografia ou desenho do objecto os alunos terão de dar aos pais a sua descrição do objecto trabalhando a dessa forma oralidade.

8) Trabalho de continuidade: Se a Educadora do grupo assim o entender podemos manter o objecto num dos cantos da sala durante uma ou mais semanas para os alunos, de vez em quando, irem mantendo interessantes diálogos entre si sobre o que pode ser o objecto, agora alimentados com as informações que trazem de casa (lembro que os pais não viram nenhuma imagem do objecto e só conhecem as descrições que os seus filhos dele fazem).

Projecto “Filósofos a Brincar: Filosofia com Crianças no pré-escolar e 1º ciclo” na Escola Infantil A Flor, Porto (3, 4 e 5 anos).

 

1ª Sessão – O Objecto Mistério

Objectivos deste exercício

1 – Arriscar Pensar

Este é um exercício que uso com os meus alunos logo nas primeiras sessões de Filosofia com Crianças. É um exercício muito simples e que ajuda as crianças a sentirem-se à vontade para explorar o desconhecido (“O que é?”) e arriscar pensar em hipóteses e alternativas (“O que pode ser?”) para preencherem esse espaço vazio da ignorância, não esperando por uma resposta do professor.

2 – Ginástica Conceptual

É também um excelente exercício para lançar os alunos numa busca de conceitos e explicações para os vários objectos e usos que o grupo vai propondo. Esta sessão teve um momento interessante dessa “ginástica conceptual” quando o Guilherme, de 5 anos se deparou com dois conceitos que intuia serem diferentes mas, no entanto, não conseguia explicar em que eram diferentes por serem, na realidade, muito próximos.

– “Esse objecto não pode servir para cortar relva, como diz o Mauro, pois não é uma máquina.”

– “Então o que é?”

– “É uma ferramenta!”

– “Qual é a diferença entre uma máquina e uma ferramenta?”

– “Não sei” – respondeu ao fim de algum tempo a pensar.

– “Uma máquina tem um motor e uma ferramanta não” – veio o próprio Mauro em seu auxílio. Afinal aquela “coisa” não podia ser para cortar relva pois não tinha motor, não era uma máquina.

3 – Aprender a Dialogar

Pela sua simplicidade este é um óptimo exercício para um primeiro contacto dos alunos com o diálogo filosófico e que permite ao professor começar a “sentir o pulso” à sua turma identificando aqueles alunos com mais dificuldade em pensar face ao desconhecido seja por timidez, medo de errar ou indiferença ao que se passa na sessão. Permite-lhe também descobrir aqueles que têm mais dificuldade em ouvir os outros ou, ainda, aqueles alunos que sentem uma ansia muito grande em falar e serem ouvidos pelo professor e pela turma.

Contrariar subtilmente todos estes “obstáculos ao diálogo” e ajudar os alunos a contribuirem todos para o mesmo objectivo, dialogando entre si e pensando em grupo sobre um mesmo problema é, basicamente, tudo aquilo que um professor de Filosofia com Crianças se deverá preocupar ao longo do ano lectivo. Com esta sessão habituamos desde o início os nossos alunos à dura realidade de se encontrarem sozinhos face ao problema, isto é, de serem eles mesmos que deverão procurar por si e entre si as respostas aos problemas que o professor lhes irá colocando. Começarão aos poucos a perceber que estas respostas não lhes serão dadas nem facilitadas pelo professor que não cumpre assim o papel de dispensador de conhecimentos a que estão habituados mas de ignorante e de provocador, que não sabe e exige deles que descubram por ele. (Ver o meu artigo “Queres ensinar a pensar? Então cala-te.”)

4 – Habituar-se à dialéctica

Esta liberdade de pensamento, sobretudo para alguns alunos mais habituados que outros pensem por eles, poderá parecer excessiva e, até, perigosa. Não estando habituados a terem eles mesmos a responsabilidade de determinar a correcção, ou incorrecção, de uma resposta poderão sentir-se de alguma forma perdidos sem essa segurança de uma resposta que existe algures entre a cabeça do professor e as páginas de um livro e que basta esperar um pouco e mostrar incompreensão para que o professor, temente do silêncio e da incompreensão dos alunos, se apresse a dar-lhes a resposta ou, na melhor das hipóteses, a indicar-lhes subtilmente o caminho – “Não achas que isto é…”.

É natural que, para estes alunos habituados a que pensem por eles, tanto em casa como na escola, o medo de arriscar e de errar (aliado ao medo de serem julgados pelos outros) lhes tolde o pensamento lançando-os num mutismo e num bloqueio cognitivo dificil de sair. Para conseguirmos que os nossos alunos percam o medo de pensar, ganhem confiança em si mesmos e arrisquem exprimir as suas ideias devemos mostrar que confiamos na sua capacidade de pensar e de produzir boas ideias, mostrando entusiasmo mesmo com aquelas ideias e sugestões que, à primeira vista nos poderão parecer absurdas ou sem sentido.

– “Isso (um espremedor de batatas) é uma rede para apanhar golfinhos bébés.”
– “Boa ideia, André. Essa eu nunca tinha ouvido!” – exclamamos. “Mas… alguém acha que isto não serve para apanhar golfinhos?”

– “Eu acho que não serve para apanhar golfinhos bebés pois é muito pequeno e os golfinhos mesmo bebés são muito grandes” – refutou a Matilde.

Repare-se que neste curto excerto do diálogo que mantivemos nesta sessão, ao mesmo tempo que aceitei a ideia do André mostrando entusiasmo e procurando transmitir-lhe confiança para continuar a arriscar pensar sem medo da censura do professor, não deixei de me assegurar que essa mesma ideia tivesse sido escutada e compreendida pelos seus colegas (repetindo eu mesmo, neste caso, ou pedindo a algum aluno para o fazer) e de conseguir que o grupo aceite essa ideia ou sugestão como suficientemente relevante para ser analisada e, possivelmente, criticada por alguns dos colegas do André, como fez a Matilde.

É importante que desde muito cedo os alunos se habituem a este jogo dialéctico de avançar hipóteses, ouvir os outros, compreender o que é dito e criticar as ideias que vão surgindo no diálogo. Passada uma fase incial de “choque” com esta nova forma de dialogar com os outros na sala de aula (um choque de alguma forma violento, sobretudo para alguns alunos mais velhos), mesmo os alunos mais inseguros passam a incorporar esta forma de pensar em grupo como natural e divertida não se importando em ver as suas ideias dissecadas e criticadas pelos outros e, por sua vez, analisando e criticando as ideias dos outros de forma calma e respeitosa, olhando para elas pelo que valem e não como uma forma de retaliação por terem sido criticados noutra altura por esse mesmo colega. Uma verdadeira lição para alguns adultos que conheço (que todos conhecemos!) que encaram um “diálogo filosófico” como uma arena de egos e um campo de batalha argumentativo e não como aquilo que verdadeiramente é, uma oportunidade única e, por isso mesmo, valiosa, de ouvir os outros e, com eles, avançar um pouco mais na compreensão do que nos rodeia e no conhecimento daquilo que somos.

5 – Diálogo vs. Debate

Neste sentido um professor de FcC deve ensinar a dialogar e não simplesmente a debater ideias e argumentos, deve mostrar aos seus alunos que é bom escutar o que os outros pensam, incentivando-os a compreender o que dizem e mostrar-lhes que encarar naturalmente as críticas que lhe são feitas é algo que os enriquece profundamente. E deve fazer isso tudo não explicando no início ou no fim da sessão o que acabei de escrever mas, simplesmente, colocando os seus alunos em situações de “diálogo filosófico” calmo e educado para que sintam por eles mesmos o prazer de dialogar e aprender com os outros. Para isso é importante que trabalhemos isso mesmo desde as primeiras sessões de Filosofia pois, como em quase tudo, também aqui é mais difícil corrigir posteriormente algo que começou mal desde o início. Se as crianças começam por sentir que sobre elas e as suas opiniões existe uma “capa de protecção” do professor (por enquanto ainda a autoridade na sala de aula) dificilmente abdicarão dessa protecção adquirida o que impedirá qualquer diálogo futuro que possam vir a ter, caindo este invariavelmente no mero expressar de opiniões e no validar dessas opiniões pelo simples “direito a ter uma opinião”.

É, repito, muito importante que logo desde o início as crianças compreendam que têm de facto esse “direito à sua opinião” mas que o mesmo se aplica a todos os outros participantes no diálogo que, como tal, têm também o direito a ter uma opinião mesmo que contrária à sua e a exprimi-la quando assim acharem oportuno.

6 – “Filósofos vs.“fala-baratos”

Desta forma, dando-lhes consciência de grupo e de diálogo os nossos alunos rapidamente percebem que um “diálogo filosófico” não é uma conversa entre amigos mas uma investigação conjunta entre pensadores (que também podem ser amigos, e normalmente são) onde não se fala simplesmente por falar e não se aceita nada gratuitamente simplesmente porque se diz ou porque se impõe ao grupo com gritos, esgares ameaçadores ou choros. É desta forma que conseguimos ir incutindo nas nossas crianças a consciência da verdadeira função que o grupo tem nestes “diálogos filosóficos” para que, aos poucos, comecem a compreender e a gostar da exigência crítica dos seus colegas em relação ao que dizem e fazem. Muito naturalmente as crianças começarão a ver o grupo não como um adversário num debate mas um aliado numa tentativa de compreender melhor e de pensar melhor sobre as coisas. Sabem que, ao longo do ano, poderão contar com os seus amigos para, com eles, pensarem sobre a qualidade das suas intervenções e ideias. É muito importante que um professor de FcC tenha consciência que não lhe é pedido que forme “fala-baratos” que num diálogo se limitam a esperar ansiosos, de dedo no ar, a sua vez para falar, indiferentes ao que os seus colegas de diálogo dizem ou pensam. É-lhe pedido, ou melhor, é-lhe exigido que forme ouvintes competentes e pensadores exigentes e críticos tanto para consigo mesmos como com os outros, por outras palavras, é-lhe exigida a difícil e aliciante tarefa de formar Filósofos. E para isso é necessario que ele próprio se transforme num bom ouvinte, num bom pensador crítico, num bom filósofo e acredite que essa mesma transformação pode acontecer também com as suas crianças. Só indo para o “diálogo” para aprender a tornar-se filósofo é que o professor de FcC faz aquilo que deve fazer: deixar de ser professor.

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