8 REGRAS do DIÁLOGO FILOSÓFICO

8 Regras do “Diálogo Filosófico”

Nas minhas sessões de “Diálogo Filosófico”, tanto com crianças como com adultos (Filosofia com Crianças, Cafés Filosóficos, etc.), costumo apresentar a filosofia como um jogo – o “Jogo da Filosofia” – no qual todos podem participar desde que cumpram determinadas regras bastante simples de se seguir. Como qualquer outro jogo o “Jogo da Filosofia” tem, de facto, as suas regras próprias que, se não forem cumpridas, não nos permitem “filosofar”.

Por exemplo, se estivermos a jogar ténis e não respeitarmos os limites do “campo”, se deixarmos a bola bater no chão mais que uma vez, se deixarmos o nosso adversário a jogar sozinho enquanto nos entretemos a bater bolas contra a parede sozinhos, ou se procurarmos atingir o nosso adversário com a raquete quando ele procura servir, se fizermos alguma dessas coisas, não estaremos a jogar ténis, estaremos a fazer outra coisa qualquer.

Da mesma forma no “Jogo da Filosofia” se gritarmos com o nosso interlocutor, se o procurarmos convencer pela força, se não compreendermos o que ele nos diz, se não utilizarmos algumas manobras legítimas para o persuadir racionalmente das nossas razões, então não estaremos a fazer filosofia, estaremos a fazer outra coisa qualquer.
Da forma como eu vejo o “Jogo da Filosofia”, quer o pratiquemos sozinhos a ler as obras dos filósofos ou em grupo a conversar com os nossos amigos, as suas regras são as regras do diálogo racional entre pessoas bem intencionadas e bem educadas. Como em qualquer outro desporto também aqui a batota e a falta de “fair-play” não devem ser permitidas.

Seguem-se aquelas que considero as 8 regras básicas do “Jogo da Filosofia” (um conceito que retirei deste pequeno livro de Thomas Wartenberg)

1 – Apresentar a nossa tese

Este é o primeiro passo que devemos dar para jogar este jogo, i.e., para fazermos filosofia. Ao apresentarmos de uma forma clara a nossa opinião sobre um determinado problema estamos a comprometer-nos com uma determinada posição, saindo assim do conforto de uma posição neutra que não se engana porque nada diz ou de um relativismo que quer abarcar tudo sem, no entanto, se comprometer com nada. Sem esse comprometimento com uma determinada posição o pensamento não avança. Além disso nada nos impede de, mais à frente no jogo, voltarmos atrás e deixarmos de defender o que inicialmente defendiamos (ver regra 8).

2 – Defender a nossa tese com razões

É aqui que a opinião se torna num argumento e mostramos aos nossos interlocutores (que podemos ser nós mesmos) porque é que defendemos o que defendemos. Enquanto não o fizermos os outros não têm qualquer motivo para acreditar em nós.
É esta apresentação das razões por parte de quem defende uma determinada posição que permite aprofundar o jogo da filosofia. A partir daqui podemos analisar as razões apresentadas, verificar a pertinência da sua ligação à tese que pretendem defender, encontrar os pressupostos de que dependem, etc.
É neste ponto que o autor da tese “abre o flanco” da sua posição à crítica dos outros, e é aqui que verdadeiramente o começa o “jogo da filosofia”.

3 – Praticar a Dialéctica

Não faz qualquer sentido apresentar as razões de um argumento se aqueles que jogam o jogo não fizerem um esforço para verdadeiramente as compreenderem.

Escutar os outros é diferente de simplesmente os ouvir respeitosamente. Escutar implica compreender profundamente o que dizem e porque o dizem. Só depois de verificarmos se realmente compreendemos as razões em jogo estamos autorizados “praticar a dialéctica e a criticar essas razões caso não concordemos com elas.

4 – Dar exemplos

Um exemplo ajuda-nos, por um lado, a clarificar aquilo que defendemos dando-nos um episódio ou facto concreto onde os nossos conceitos se aplicam. Ao fazê-lo estamos também a aproximar o raciocínio filosófico (tendencialmente abstracto) das nossas vidas (tendencialmente concretas). Estamos, dessa forma, a dar um conteúdo “mais próximo de nós” aos nossos conceitos o que nos ajuda a perceber melhor a importância da filosofia e do pensamento abstracto nas nossas vidas.

5 – Procurar contra-exemplos

A discussão de ideias leva-nos frequentemente a fazer generalizações e a procurar condições para deteminados conceitos e ideias.

No esforço de ensinar os nossos alunos a tornarem-se pensadores mais competentes devemos, desde muito cedo, ensiná-los a procurar contra-exemplos às suas ideias e às ideias dos outros. Além disso devemos certificar-nos que comprendem as implicações que um contra-exemplo tem para as suas ideias e ensiná-los a lidar com isso no contexto do “jogo da filosofia”. Ao encontrar um contra-exemplo a uma determinada generalização, definção ou condição o seu autor está obrigado a reformular a sua ideia original, a torná-la mais fraca ou a desistir dela completamente. Aceitar ver o contra-exemplo como um potencial “golpe fatal” à nossa posição inicial implica uma maturidade intelectual muito grande pelo que podemos dizer que quem sabe lidar com este movimento cognitivo no contexto de um Diálogo Filosófico já é um Pensador Crítico bastante competente e está no bom caminho para se tornar um bom Filósofo.

6 – Arriscar Hipóteses
A filosofia é, em grande parte um exercício de especulação rigorosa. Avançar uma hipótese é uma forma de ousarmos pensar de forma diferente daquela a que estamos acostumados a fazer, uma forma de sair da nossa zona de conforto onde dificilmente o pensamento se pode alimentar.

Pensar em “hipóteses” é, além disso, uma forma de discutir ideias de uma forma desligada do sujeito que as avançou. Numa discussão dizer que estamos a discutir hipótese afasta-nos da discussão em torno das nossas “crenças pessoais”, às quais frequentemente estamos emocionalmente ligados, o que dificulta a análise crítica dessas  crenças. Vê-las como meras “hipóteses” dá-nos alguma distância crítica sempre salutar num Diálogo Filosófico.

7 – Ver outras perspectivas

Muitas vezes a forma de resolver um determinado problema filosófico (e não só) é procurar outro ponto de vista sobre esse problema. Muitas vezes os nossos dogmas e preconceitos não nos deixam ver além daquilo que já vemos e, outras vezes ainda, estamos a ver um problema onde ele nem sequer existe.

O Diálogo com os outros permite-nos acesso a muitos outros pontos de vista que, todos juntos, nos podem ajudar a ver um problema com maior objectividade, a encontrar diferentes soluções para esse problema ou a perceber que não havia de todo nenhum problema.

8 – Aceitar mudar de posição.

Saber jogar o “Jogo da Filosofia é saber alterar a nossa tese inicial à luz das críticas recebidas ou, até mesmo, estar disposto a recusá-la totalmente se as razões apresentadas contra elas assim nos obrigarem.

 

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