FILOSOFIA COM CRIANÇAS – Caixa das Coisas Impossíveis I

 

Exercício: CAIXA DE PANDORA – Caixa das Coisas Impossíveis 

A Filosofia

 O objectivo deste exercício (um dos problemas retirados da CAIXA DE PANDORA) é introduzir as crianças aos conceitos de possibilidade e impossibilidade e procurar que pensem em diálogo sobre os diversos significados e usos que podemos dar a estes conceitos.

Os conceitos “possível/impossível” são repletos de ambiguidades. Apesar de em Filosofia se falar apenas de possibilidade lógica, metafísica e física, no nosso uso comum dos termos damos-lhes muito mais “uso” que os filósofos. Podemos falar de impossibilidade lógica quando dizemos, por exemplo, que é impossível um solteiro ser casado, ou num sentido metafísico quando dizemos que a água não pode ser H3O. E ainda numa impossibilidade física como não sermos capazes de pegar em 1000 quilos com os braços. Além destes três sentidos se prestarmos atenção à forma como as pessoas falam (e pensam) podemos identificar ainda outros sentidos para os conceitos de “possível e impossível”.

Aprendi com as crianças que “impossível” pode ser a “impossibilidade prática” de algo indesejável como por exemplo “trilhar o dedo na porta”. Outras vezes, no seu uso comum, “impossível” é usado para referir algo que não devemos absolutamente fazer como quando dizemos que não podemos roubar, magoar alguém, ou matar.

O objectivo central deste exercício não é ensinar às crianças um destes sentidos de “possibilidade / impossibilidade” (aquele que o professor ache o correcto ou o mais adequado), mas dar-lhes a oportunidade de explorarem e brincarem intelectualmente com estes conceitos procurando eles mesmos os diversos sentidos que podem tomar e os diversos contextos em que podem ser utilizados.

Sessão 1 – 4/5 anos

“Vamos pensar em coisas impossíveis” – desafiei os meninos.

Ao cabo de cerca de 1 minuto a pensar mais de metade dos alunos da turma tinha o dedinho no ar prontos a dar-nos a sua primeira sugestão do que consideravam ser uma coisa impossível.

O primeiro a avançar foi o Gustavo, ajudado pelo Gonçalo.

– “Quando alguém está a brincar com uma coisa não podemos tirar.”

Este exemplo de uma “coisa impossível” faz-nos perceber que o Gustavo está a usar o conceito de “impossibilidade” num sentido moral. Ou seja, no sentido de “não devemos tirar uma coisa a alguém quando é dela ou a esta a usar.”

Para verificar quem partilhava este significado moral de “impossibilidade” perguntei:

– “Quem sabe o que é uma coisa impossível?”

A resposta do António, apesar de não responder directamente à pergunta, ao dar-nos um exemplo diferente de uma “coisa impossível” revelou-nos um outro sentido do termo “impossível”.

– “Uma máquina enorme.”

“Uma máquina enorme é possível ou impossível?” – perguntei.

– “É impossível porque é uma invenção.”

 Faço notar que se não deixarmos as crianças expressarem o que pensam e se não aceitarmos para o diálogo tudo aquilo que acreditam ser possível e impossível, se “filtrarmos” as suas intervenções e escolhermos ou as conduzirmos para um dos sentidos dos termos que achamos o “mais adequado” ou o “verdadeiro”, nunca saberemos o que as nossas crianças  realmente pensam sobre estes conceitos pois estaremos a pensar por elas e não a incentivar o seu próprio pensamento. Não nos importa saber se é realmente possível uma máquina enorme ou se algo é impossível por ser uma invenção. Importa, e muito, é que as crianças se habituem a esta forma de diálogo em que apresentam razões para aquilo que pensam e ouvem as razões dos outros que podem ser diferentes ou opostas às suas. Este exercício ao mesmo tempo de humildade e de pensamento crítico e criativo é a essência do Diálogo Filosófico que queremos que as nossas crianças se habituem a cultivar. 

– “Mais alguém tem outra ideia de uma coisa impossível?” – voltei a lançar o desafio.

–  “Uma baleia gigante.” – arriscou o Diogo B.

 – “Vamos lá pensar então. Uma baleia gigante é possível ou impossível?”

– “É impossível. É tão grande que a gente não acredita nela”- avançou o Nuno.

– “Não é possível porque as pessoas assustam-se” – adiantou o Gustavo.

Para cultivar as “atitudes de diálogo” nos alunos o professor deve resumir o seu papel numa sessão Diálogo Filosófico a aceitar como válido para o diálogo tudo aquilo que os alunos disserem limitando-se a devolver ao grupo essas respostas e razões para que as clarifiquem, compreendam, analisem e avaliem. Aquelas intervenções que, depois de clarificadas e entendidas por todos (o professor deve certificar-se que isso acontece) passarem o crivo do grupo devem ser consideradas “boas hipóteses”. É desta forma que estamos a habituar os nossos alunos a ouvirem as razões dos outros,  avançarem elas mesmas razões para aquilo que pensame a responsabilizarem-se por aquilo que acreditam ter razões para acreditar.

Mesmo os alunos mais novos (3-4 anos) ou os mais tímidos e que falam menos durante as sessões também participam nestes Diálogos Filosóficos ao “beberem” deste espírito de cordial discussão de ideias interiorizando dessa forma todo este processo de realmente ouvir os outros, esperar pela sua vez para falar e apresentar calmamente as suas razões em vez de se precipitarem para a primeira resposta que lhes vem à cabeça.

Por esta altura da sessão foi utilizada uma ferramenta de moderação de diálogo muito útil, a Votação. Utiliza-se a Votação não como um critério de verdade, ou para determinar uma “posição vencedora” mas, simplesmente, para ouvir aquilo que os alunos pensam, encontrando posições divergentes e colocando-as em confronto, criando dessa forma uma dinâmica de oposição de ideias (uma dialéctica) entre os alunos que assim aprendem a ouvir e respeitar ideias diferentes às suas, pontos de vista contrários aos seus, argumentos que criticam as suas ideias, etc..

– “Vamos lá pensar em mais coisas impossíveis.”

– “Uma porta maior que uma parede”- disse a Bárbara.

 Este é um exemplo muito interessante de uma impossibilidade metafísica (ou lógica?). É possível conceber uma porta maior que aquilo que a delimita? Esta é uma questão muito difícil e voltei a repetir o problema aos alunos para descobrir o que pensavam sobre isto.

 – “Alguém acha que é possível uma porta ser maior que uma parede?”

– “É possível porque a minha avó tem uma porta até à parede (tecto?) porque é gigante.” (Letícia)

Deixámos no ar se este exemplo (ou contra-exemplo) da Letícia provou que é possível existirem portas maiores que paredes (ela conhece uma, a porta gigante da sua avó), ou se apenas provou que há portas do mesmo tamanho que paredes.

– “Quem tem outra coisa impossível para dizer?”

– “Um relógio grande” – disse a Malena.

– “Não há relógios grandes?” – perguntei. 

– “Existe um relógio grande mas ela ainda não viu.”

Esta crítica à sugestão da Malena revela que o António compreende que a possibilidade de algo vai além do conhecimento de algo. A Malena nunca viu um relógio grande mas isso não prova que não exista um relógio grande.  Aqui temos duas possibilidades, ou o António já viu um relógio grande e revelou à Malena que estes existem mas que ela nunca viu nenhum, ou então foi capaz de imaginar um “mundo possível” em que existam relógios grandes apesar de nunca ninguem os ter visto. Qualquer uma destas hipóteses é uma forma legítima de colocar uma dificuldade à sugestão da Malena. Um contra-exemplo, na primeira hipótese, ou um contra-factual, na segunda.

– “Quem é que tem outra ideia de uma coisa impossível?”

– “O gigante da nuvem” – disse o Gonçalo.

– “Os gigantes só existem nas histórias”- segundo a Malena.

– “É impossível porque se for para cima de uma nuvem ela rasga-se e ele parte uma perna.”

– “[É impossível] porque não existem. Só existiram há muito tempo.”

– “Conseguem pensar em mais alguma coisa impossível?”

– “Não era possível nascer a mana se a mãe não fosse para o hospital.”

Seguramente que no “mundo” desta menina nascer fora de um hospital é uma absoluta impossbilidade e não nos interessa aqui ensinar à criança a possibilidade de um nascimento se dar fora do hospital, interessa-nos apenas que esta sua ideia e experiência de vida sirva de estímulo para o Diálogo com os seus amigos e talvez as experiências dos outros lhe ensinem essa possibilidade… ou não! Um dia há de descobrir por si e saber que os bebés podem nascer fora do hospital e que já nasciam bebés antes de haver hospitais, mas não aqui pois não lhe queremos tirar o prazer da descoberta e não compete ao professor de uma sessão de FcC ensinar mas sim levar a pensar. O lugar da sessão de FcC é o lugar do pensamento e da aventura das ideias e não o lugar da aprendizagem dos factos da vida.

Por falar em pensar, repare-se na forma como os conceitos de “possibilidade / impossibilidade” foram sendo trabalhados pelo grupo ao longo da sessão e à medida que iamos pensando em diversas possibilidades e impossibilidades. Da impossibilidade moral de roubar algo chegamos agora à sugestão da impossibilidade física de um bebé nascer fora do hospital. Entretanto passámos pela noção de impossibilidade lógico-metafísica quando falámos da porta que não poder ser maior que a parede.
Durante esta sessão foi bem claro que quando expostas a um ambiente estimulante, propício ao diálogo e à partilha de ideias, a diversidade, a complexidade e a profundidade das intervenções das crianças pode revelar-se uma grande fonte de reflexão para quem se interesse na forma como as crianças pensam sobre a realidade conceptual que as rodeia, por outras palavras, sobre o pensamento filosófico das nossas crianças. E isso é, seguramente, uma boa forma de conhecermos um pouco melhor o nosso próprio pensamento filosófico enquanto adultos.

Aprofundemos, então, com os alunos este filão do nascimento fora do hospital.

– “Quem acha possível nascer fora do hospital?”

– “Não é possível pois depois não tem uma coisa para furar (a barriga) para o bebé sair – respondeu o Nuno.

– “É impossível pois o bebé deitava sangue da ferida.” – disse o Gonçalo.

– “As pessoas que não são médicas não tiram o bébé.” – é o que pensa o Gustavo.

– “Vamos ouvir outra coisa impossível?”

– “Quando se fecha a porta não podemos por lá o dedo porque trilha.” (Gustavo)

– O que acham, é possível trilhar o dedo ou é impossível?

– Não é possível porque na minha escola, no refeitório trilhei o dedo.” (Nuno)

– “É possível porque o dedo trilha-se. (Bianca)

– É impossível porque depois ficamos uns dias com um penso. Para aí dois meses. (António)

Mais uma vez a ambiguidade conceptual dos termos “possível/impossível” deu vida ao Diálogo. Alguns alunos falam de impossível enquanto indesejável (o Gustavo, o Nuno e o António), outros da possibilidade real de trilhar o dedo na porta mesmo que indesejável (a Bianca).

Nesta altura a turma dividiu-se quanto à interpretação de uma experiência feita por mim em que trilhava devagarinho o dedo na porta.

– “Então é possível ou impossível trilhar o dedo na porta?”

– “É possível pois um bebé podia trilhar o dedo na porta” (Carolina)

– “O meu primo tem este dedo cortado.” (Gonçalo)

A Carolina pensou num cenário hipotético em que um bebé podia trilhar um dedo na porta e o Gonçalo foi buscar um exemplo que mostra que é possível trilhar o dedo na porta. Os dois utilizaram duas ferramentas dos filósofos: a experiência mental e a exemplificação. Tanto um como outro podem ser utilizados para justificarmos uma ideia e os nossos Filósofos a Brincar fazem-no muito naturalmente.

Para terminar fizemos uma última ronda de sugestões à procura de mais algumas “ideias para levar para casa e pensar”

 

– “Vamos tentar uma última ideia de uma coisa impossível?”

– “A câmara ser maior que a Clara (a Educadora de alguns destes meninos)

– “Nenhum planeta é maior do que nós” (Malena)

– “Nenhuma pessoa é maior que uma casa.” (António)

– “Se a câmara fosse mais alta tu e a Clara não podiam filmar.” (Nuno)

Por fim, e para que os alunos pensassem na forma como cada um participou no Diálogo e na sua própria evolução ao longo das sessões de filosofia perguntei-lhes o que não tinha corrido bem na sessão de hoje?

– “Hoje não se ouviram tão bem. Porquê?” – perguntei-lhes.

– “Temos de limpar os ouvidos.”

– “Hoje aconteceu que nós não estávamos habituados a fazer filosofia aqui.” – responderam.

Sessões 2 e 3 (em construção)

Anúncios

2 thoughts on “FILOSOFIA COM CRIANÇAS – Caixa das Coisas Impossíveis I

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s