CAIXA DE PANDORA: O QUE ISTO PODE SER?

Por vezes, quando trabalhamos com grupos que têm Filosofia com Crianças com regularidade, sentimos necessidade de alternar sessões mais intensas e que requerem maior concentração por parte dos alunos (como esta) com outras sessões mais descontraídas em que a imaginação e a livre associação de ideias toma primazia sobre a argumentação e a atenção ao Diálogo.

Com os exercícios “O que isto pode ser?” da Caixa de Pandora começamos a sessão por pedir aos alunos que pensem sobre as possíveis interpretações de figuras muito simples que desenhamos no quadro ou numa folha, neste caso uma linha ondulada desenhada num papel branco.


Este tipo de sessões são relativamente pouco exigentes para o professor que, com um grupo maduro e disciplinado, praticamente pode resumir a sua moderação a formular a pergunta inicial (repetida durante a sessão para que os alunos se recordem da tarefa em questão) e a verificar se todos os alunos têm a sua oportunidade de avançar uma hipótese. O professor deverá também pedir explicações ou exemplificações para aquelas hipóteses menos óbvias, tendo sempre o cuidado de aceitar todas as hipóteses desde que devidamente explicadas pelo aluno ou por um dos seus colegas.
Asseguradas estas condições necessárias ao Diálogo o professor pode limitar a sua participação a registar numa folha as contribuições dos alunos e a divertir-se com os efeitos provocados por esta simples pergunta, “O que isto pode ser?“, nas explosivas mentes das crianças, assistindo à enorme vontade de todos em contribuir com ideias e, sobretudo, assistir às formas inesperadas como as diversas contribuições dos alunos vão lançando novas luzes e ideias nas cabeças uns dos outros.
Estas sessões tendem a começar pelas interpretações mais óbvias (“montanhas e cobras” no caso do desenho da sessão e hoje) mas, muito facilmente, uma intervenção mais “arrojada” por parte de um aluno terá o condão de lançar toda a turma numa aventura exploratória pelo interior das suas mentes em busca das hipóteses mais estranhas ou divertidas.

Sair do “lugar comum” e da “interpretação acertada” é um dos objectivos principais deste tipo de sessões onde, pela própria dinâmica criada, é normal que a confusão se instale um pouco com todos os alunos de dedo no ar a quererem contribuir com mais uma “ideia maluca”. O professor deve, no entanto, aproveitar essa energia criadora a seu favor e usar essa dinâmica na sessão como uma forma de motivar ainda mais os alunos para a investigação em grupo e de os habituar a esperar pela sua vez para contribuir para o diálogo, auto-controlando o seu ímpeto em falar quando têm uma coisa ou muitas coisas “urgentes” para dizer. Para isso o professor deve dosear o ritmo das intervenções dos alunos através de diversas estratégias de moderação:

Por exemplo, o aluno escolhe o colega que fala a seguir escolhendo alguém que esteja calado e calmo. Ou, o aluno escolhido só fala quando todos estiverem a ouvir. Recentemente um professor deu-me a ideia de criar “créditos” de intervenções para cada aluno, duas ou três por aluno, por forma a refrear os alunos mais interventivos e que tendem a açambarcar toda a sessão. Mas aqui deverá ser cada professor a criar e desenvolver as estratégias mais adequadas a cada grupo ou momento da sessão ou do ano lectivo.

Com estas estratégia procuramos que os alunos prestem atenção ao que uns e outros dizem e que interiorizem as regras básicas do diálogo.
Este trabalho sobre as atitudes dos alunos deve estar sempre presente em todas as sessões de FcC, mesmo naquelas mais “livres” como esta.

O QUE ISTO PODE SER?


Por vezes abrimos a CAIXA DE PANDORA e saem coisas como esta. Um risco ondulado numa folha branca. 

A pergunta que se impõe que coloquemos aos nossos alunos é simplesmente:

– O que isto pode ser?

(hipóteses avançadas por alunos de 4-5 anos da Escola Infantil a Flor)

Uma montanha (Gonçalo)

Ondas (Tomás L.)

Uma cobra. (André)

Uma corda. (Rodrigo)

Um zig zag. (João G.)

Uma serpente – é diferente de uma cobra. (Inês)

Montes – são diferentes de uma montanha. (João Nuno)

– As costas de um camelo. (Catarina L.)

As mangas dobradas de uma camisola. (Leonor)

– Sapatilhas – a sola. (Raúl)

– Lombas da estrada. (Diogo)

– Rochas. (Henrique)

“Tragas” – alguma coisa que sobe pela barriga, passa pela cabeça e vai para as costas. (Mauro)

Castelos. (Guilherme)

– Duas asas de uma abelha. (Catarina L.)

Uma torneira torta. (Inês)

– Uma estrada. (Leonor)

– Um comboio. (Gonçalo)

Um “M” com uma perninha a mais. (Rodrigo)

Uma mosca a voar. (Guilherme com a ajuda da Catarina L.)

Um avião. (Raúl)

O risco que um avião deixa no ar. (Inês)

– Aquelas bolachas às ondas. (André)

Um “til”. (João G.)

Dois “tils”. (Inês)

Lábios tristes (Leonor)

Parecem mais lábios a tremer. (Inês)

– Uma carapaça. (Henrique)

Duas carapaças direitas e duas ao contrário. (Inês)

Uma ponte torta. (Rui Jorge)

– Só se for uma ponte de cordas. (Rodrigo)

Um cordão de uma sapatilha. (Matilde)

Um pau às ondas. (Juju)

Cabelo aos caracóis. (Catarina Moutinho)

– Uma montanha russa. (Inês)

– Um elástico. (Alexandra)

– Um escorrega. (Sebastião)

Dois escorregas. (João G.)

Uma corda rebentada. (Afonso)

Nota Final + Três exercícios

Com este tipo de sessões procuramos trabalhar com os alunos a sua capacidade de visualizar mentalmente objectos e situações, exercitando aquilo que alguns autores chamam o “olho da mente”. Essa visualização mental é um a capacidade de raciocínio não verbal que nos permite ver padrões visuais, gerar imagens alternativas assim como recordar e transformar as percepções que recebemos pelos sentidos. O “olho da mente” é uma ferramenta cognitiva muito utilizada por profissões que lidam com a transformação do mundo físico e mental tais como cientistas, inventores, arquitectos, matemáticos e filósofos.  Em “Tools for Thinking” Robert Ficher dá-nos mais alguns exercícios para exercitar o “olho da mente” dos nossos alunos. Aqui estão alguns:

1 – Um aluno descreve a um colega um desenho. Este deve procurar desenhá-lo a partir dessa descrição sem ver o desenho inicial. No fim comparam-se os desenhos.

2 – Os alunos fecham os olhos e ouvem uma música. “Que imagens ou palavras vieram à tua mente?” ; “O que te fez sentir/pensar?”

3 – O professor apresenta aos seus alunos uma figura geométrica. Pede aos alunos para visualizarem essa figura com o seu “olho da mente” e em seguida pede-lhes que acrescentem outras formas  ou que procurem rodar essa figura nas suas mentes por forma a “verem” diferentes ângulos ou combinações.

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