CAIXA DE PANDORA: Caixa das Coisas Reais

Projecto Filósofos a Brincar

Filosofia no pré-escolar e 1º ciclo

escutar | dialogar | pensar

Exercício: “Caixa das Coisas Reais”

Material: Três Caixas (imaginárias ou reais)

1) Caixa das Coisas Reais; 2) Caixa das Coisas Irreais; 3) Caixa Mistério (coisas que ainda não conseguimos decidir se são reais ou não).

Objectivo: Pensar sobre o que é uma coisa “real”

O exercício “Caixa das Coisas Reais” pode ser feito isoladamente ou numa segunda sessão de ligação com o exercício “Três bananas” da CAIXA DE PANDORA uma vez que estes dois exercícios procuram levar os alunos a pensar sobre o que faz de algo uma “coisa real”. Se escolher fazer estes dois exercícios com os seus alunos aconselho a começar pelo exercício “Três Bananas” que devido à componente cénica (“três pratos com três bananas, uma delas imaginária”) e à estranheza inicial do próprio desafio (“qual destas três bananas é real?”) mais facilmente provoca nas crianças aquela curiosidade e fascinação com o mundo à sua volta, essenciais para se iníciar o pensar filosófico.
Começar com o exercício “Três bananas” permite que os alunos comecem por descobrir que poderá haver mais “realidade” para além daquela que podemos ver, ouvir, sentir, tocar ou cheirar e essa descoberta possibilita que noutra sessão, com o exercício “Caixa das Coisas Reais” os levemos a pensar noutras “realidades alternativas” para além da imaginação, nomeadamente a “realidade” ou “irrealidade” dos sentimentos, dos pensamentos, das memórias, de acontecimentos passados, presentes e futuros, etc.

Como poderão constatar devido à maior diversidade de desafios propostos este segundo exercício tem mais potencial que o anterior para aprofundarmos com os nossos alunos essas outras “realidades alternativas”. E esse aprofundar resulta bastante melhor se as crianças iniciarem este exercício já com algumas intuições afloradas e algumas vias de investigação filosófica abertas e por explorar, por outras palavras se as suas mentes já tiverem sido “convidadas” a pensar em realidades para além daquelas realidades (empíricas) que podemos ver, ouvir, sentir, tocar ou cheirar.

Uma das funções do professor de Filosofia (e não apenas do professor de Filosofia com Crianças) é a de ajudar os seus alunos a despertar a mente e a abrir-se para toda a fascinante complexidade do real que nos rodeia. Como escreveu Nietzsche, “o nosso espanto será infindável desde que tenhamos olhos para esta maravilha”. Quem quiser fazer Filosofia com Crianças (e Filosofia, já agora) terá de ter em conta este aviso do filósofo alemão. A sua condição, “desde que”, faz-nos ver que sem essa curiosidade e espanto iniciais, sem essa atitude infantil de maravilhamento com aquilo que nos rodeia não haverá filosofia nem filosofar porque, muito simplesmente, não haverá nada sobre o que filosofar.
Querer filosofar é uma primeira condição essencial para se filosofar, e muito do nosso esforço enquanto professores (ou moderadores) de FcC passa, exactamente, por procurar desenvolver estratégias e exercícios que motivem as crianças a querer filosofar, i.e., a tentar resolver problemas (irresolúveis?) entre elas, dialogando e pensando exactamente da mesma forma que o fazem os filósofos graúdos.

Deixo-vos estas notas de uma sessão de Filosofia com Crianças com meninos e meninas de 4 e 5 anos da Escola Infantil “A Flor” no Porto. Espero que sirva para vermos onde chegam as crianças quando as deixamos pensar por elas mesmas.

 

 

 

Sessão de FcC – Escola Infantil “A Flor” – 12 de Abril de 2012

Antes mesmo de começarmos a sessão o Henrique, de 5 anos, disse-me que tinha uma pergunta para fazer:

– “Por que é que as nuvens não caem?”

Como o professor de FcC (eu) se confessou ignorante para responder a esta pergumta tivemos de perguntar ao grupo se alguém era capaz de nos ajudar com este problema.

– “As nuvens não caem porque andam em órbita.” (João)

– “E o que é andar em órbita?” (Inês)

– “É andar à volta.” (João)

Outros filósofos estavam ansiosos por dar a sua resposta e todos os que quiseram puderam avançar com a sua hipótese. No final deixámos o Henrique escolher aquela resposta que lhe parecia mais acertada. Escolheu a do Diogo:

– “As nuvens não caem porque não se mexem nem para cima nem para baixo.” (Diogo)

Depois deste pequeno “aquecimento filosófico” demos início ao exercício que nos ocuparia no dia de hoje. Pedi a alguns meninos para explicarem o que se tinha passado na sessão anterior aos alunos que faltaram (ver exercício as “Três Bananas”) e expliquei-lhes que nesta sessão também iríamos falar de coisas reais e irreais. Introduzimos este novo termo – “irreal” –  que alguns estranharam e a Inês, uma das alunas mais velhas do grupo, explicou a todos que “irreal é o mesmo que não real”. Estabelecidos os termos do problema era altura de começar a filosofar.

– Meninos, vamos pensar em que caixa devemos colocar cada uma destas coisas” – lancei o desafio. – Um gato? É real ou irreal, e porquê?

– Um gato deve ir para a “Caixa do Real” pois está vivo e consegue ir para lá a andar. (Raul)

Todos concordaram em que o gato era, de facto, uma coisa real logo devia ir para a “Caixa do Real”. Habituados a desafios mais exigentes que nos obrigam a ficarmos mais tempo a pensar num problema os “Filósofos a Brincar” não esconderam o seu desagrado com esta pergunta bastante óbvia. Prometi-lhes que a próxima pergunta seria mais difícl.

– E um “gato de plástico”, é real ou irreal?

– É irreal porque não se mexe. (Guilherme)

– Não se mexe, mas mesmo assim está lá, por isso é real. (Diogo)

Como a turma se dividiu claramente entre os que defendiam a ideia do Guilherme e os que defendiam a ideia do Diogo tivemos de colocar o “gato de plástico” na “Caixa Mistério”, uma caixa, já familiar para este grupo de filósofos, aquela onde colocamos as coisas que ainda não  sabemos bem o que são (reais/irreais; vivas/não vivas; etc.).

– E um “gato morto”? – Perguntei subindo um pouco a fasquia do exercício.

– Um gato morto não fala, por isso é irreal. (Henrique)

– Não fala porque está morto, mas ainda existe. É real porque podemos tocar nele. (Catarina Leite)

Esta ideia da Catarina parece ter convencido o Henrique que aceitou (como o resto da turma) colocar o “gato morto” na “Caixa das coisas reais”.
Aceitar mudar as nossas crenças a partir daquilo que nos dizem e não teimar nelas apenas porque são “nossas crenças” é um sinal de maturidade intelectual que se procura cultivar nestas sessões de FcC – quantos adultos conhece que deveriam ter estas crianças como modelo?

– Então agora quero que pensem num “cavalo com asas”. Deve ir para a “Caixa do Real” ou para a “Caixa do Irreal”.

– Um “cavalo com asas” é um “unicórnio” – fui logo corrigido por alguns alunos.

– Muito bem, em que caixa devemos colocar o “unicórnio”?

– Na “Caixa do Irreal”, pois não existem em lado nenhum. (João)

– Sim, existem na imaginação, por isso existem e são reais. (Inês)

Reparei que o João ficou um pouco confuso com esta resposta da Inês, talvez por não ter participado na sessão das “Três bananas” onde discutimos estas questões da “realidade ou irrealidade das coisas imaginárias.” Então procurei que o grupo lidasse com essa incompreensão do João e a procurasse resolver, em vez de depender de mim para a explicar.

– Este unicórnio é parecido com que outra coisa que falámos na sessão anterior? – Perguntei.

– Com a banana da imaginação. Também não viamos essa banana mas ela estava nas nossas cabeças. (Catarina)

Esta noção de que algo que não víamos poderia ser real era nitidamente uma coisa que não fazia muito sentido, sobretudo para os alunos mais novos, o que é perfeitamente natural tendo em conta a visão eminentemente empírica que estas crianças de 4 e 5 anos ainda têm do mundo. É, no entanto, muito interessante ver as crianças a debaterem-se com os limites das suas capacidades cognitivas, o ar de espanto que fazem é, podemos imaginar, o mesmo ar dos grandes cientistas que tentam compreender os segredos mais profundos do cosmos ou mesmo o dos primeiros filósofos que tentavam perceber como funcionava o mundo ou qual o papel dos seres humanos nele. Esta viagem que fazemos na infância aos limites da compreensão humana é uma viagem sem preço e que, infelizmente, poucos de nós voltam a fazer ao longo da vida adulta. É, por isso, um enorme privilégio assistir e ajudar as nossas crianças a enfrentar e a passear por esse limiar da compreensão, o espaço natural da filosofia e dos filósofos.

Sem saberem em que caixa colocar o “unicórnio” o grupo aceitou a sugestão do João e colocou-o na “Caixa Mistério”.
Entusiasmado com o incómodo intelectual que este problema estava a causar na turma resolvi puxar ao limite esta questão da “realidade/irrealidade”. Já faço Filosofia com estas crianças da Escola Infantil “A Flor” há mais de dois anos e com uma regularidade bimensal. Não estava, por isso, na presença de uns filósofos quaisquer, mas de uma comunidade de investigação muito madura capaz de lidar entre eles com um problema como este que deixaria sem palavras um adulto normal.

– E o que me dizem do “dia de ontem”? Deve ir para que caixa?

O silêncio e a cara de espanto dos miúdos fez-me duvidar se não lhes estaria a pedir um passo maior que as suas pequeninas pernas. Para os ajudar procurei que pensassem um pouco mais no conceito de “dia de ontem” perguntando-lhes “onde estava o dia de ontem”. Foi aqui que surgiram estas pérolas metafísicas:

– O dia de ontem volta outra vez na próxima terça-feira. (Inês)

– O dia de ontem já está ontem. (Rodrigo)

– O dia de ontem está hoje, nos pensamentos. (Diogo)

– O dia de ontem não está em lado nenhum. (André)

Como podem imaginar “o dia de ontem” foi mais uma coisa que tivemos de pôr na “Caixa Mistério”, a caixa dos verdadeiros problemas filosóficos. A nossa “Caixa de Pandora”.

O desafio que vos deixo é o de abrirem esta “Caixa de Pandora” com as vossas crianças e procurar junto com elas descobrir em que caixa podemos definitivamente colocar estas coisas que lá deixámos. Mas não se esqueçam, uma caixa só é uma “Caixa de Pandora” se voltar a ser aberta e deixarmos os seus problemas sairem cá para fora para nos fazer… pensar.

Bons pensamentos!
Tomás Magalhães Carneiro

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