CAIXA DE PANDORA: A Caixa da Vida

Há umas semanas atrás apresentei aqui este exercício pensado para alunos do 1º ciclo em diante (+ de 10 anos). No entanto hoje mesmo tive a oportunidade de o experimentar com algumas adaptações com uma turma do pré-escolar (4 e 5 anos) e correu muito bem. Segue em baixo o exercício “Caixa da Vida” adaptada ao pré-escolar e a descrição da sessão de hoje.

Filosofia com Crianças: CAIXA DE PANDORA | Exercício – A Caixa da Vida (4-5 anos)

Este exercício pretende levar os alunos a pensar sobre as dificuldades que há em considerar alguma coisa Viva ou Não Viva. A sessão começa apresentando três caixas: a “Caixa das Coisas Vivas”, “Caixa das Coisas Não Vivas” e a “Caixa Mistério”.

Em seguida apresentamos uma série de “coisas” (objectos, animais, eventos, etc.) e perguntamos às crianças se acham que devem ir para a Caixa das Coisas Vivas ou para a Caixa das Coisas Não Vivas. Além de sugerir a caixa onde colocar as “coisas” que formos apresentando as crianças devem apresentar as suas razões. Devemos, para isso, pedir-lhes “porquês”.

Durante o diálogo os alunos não terão dúvidas em colocar alguns exemplos mais paradigmáticos na Caixa das Coisas Vivas (pássaro, flor, etc.) e outros na Caixa das Coisas Não Vivas (pedra, lápis, etc.). Devemos ir ouvindo o que pensam e registando as razões que vão apresentando pois essas mesmas razões (ou critérios) poderão não servir quando surgirem associadas a alguns dos “casos fronteira” que lhes apresentaremos e farão os alunos duvidar acerca da caixa onde colocar certas “coisas”. Quando virmos os alunos a hesitar e a duvidar é sinal que conseguimos o nosso objectivo, fazê-los pensar. Para esses casos menos óbvios (cabelo, unhas, planeta Terra, Universo, etc.) podemos sugerir aos alunos para os colocarem na Caixa Mistério podendo ocupar-se deles noutra sessão ou discutir em casa com os pais.

Por exemplo, um aluno que defendeu que Uma flor está viva porque cresce poderá, mais à frente na sessão, ter de lidar com um contra-exemplo ao seu critério de crescimento quando algum colega defende que O cabelo cresce mas não está vivo.

Pergunta inicial: “Em que caixa devemos pôr estas “coisas”?

(Sessão com os alunos da sala dos 4-5 anos da Escola Infantil “A Flor”)

Uma Pedra

– “Deve ir para a Caixa das Coisas Não Vivas porque se parte.” (Rui)

– “Eu acho que deve ir para a Caixa das Coisas Não Vivas porque não tem olhos.” (Catarina)

– “E todas as coisas vivas têm olhos?”

Com esta pergunta pretendi direccionar a investigação dos alunos na busca de um contra-exemplo ao argumento da Catarina.

“Não, se cortarmos os olhos a uma galinha com uma faca ela continua viva mas sem olhos.” (Inês)

Apesar de dois alunos insistirem em pôr a “pedra” na Caixa das Coisas Vivas (uma posição defendida por muitos filósofos animístas antes deles) a maioria decidiu que o seu lugar era na Caixa das Coisas Não Vivas.

Uma Flor

– “Está Viva porque bebe água.” (Diogo)

– “Sim, e cresce. Por isso está Viva.” (Mª João)

– “E tudo o que cresce está vivo?”

Aqui pedi novamente à turma que procurasse um contra-exemplo que refutasse a ideia de que o “crescer” é suficiente para algo estar vivo.

– Sim!!

Mas desta vez ninguém o encontrou e não insistir mais. A minha “pista” não deu em lado nenhum mas isso não é um problema. Um erro muito comum e que devemos evitar cometer quando moderamos um Diálogo Filosófico com crianças é levá-las a determinadas conclusões que consideramos correctas, quer com perguntas retóricas, usando um tom de voz insinuante que indica a resposta que pretendemos e todos o outros truques de que normalmente se servem professores educadores para disfarçar de Diálogo aquilo que querem ensinar aos seus alunos.
Numa sessão de Diálogo Filosófico devemos aceitar a conclusão a que a turma chega independentemente de concordarmos ou não com ela. 

No caso da flor mesmo que com razões diferentes e algumas menos válidas que outras, a turma foi unânime em considerar que a Flor devia ir para a Caixa das Coisas Vivas.

Um Pássaro

– “Está vivo porque tem olhos, tem penas e voa.” (Henrique)

– “Mas se estiver ferido não voa…”(Inês)

– “E um pássaro ferido está vivo?”

Esta foi uma intervenção falhada da minha parte. Com esta pergunta quis reposicionar a discussão no vivo/não vivo e retirá-la do âmbito do voa/não voa. Mas, pensando bem, devia ter deixado a turma explorar a relação entre o voar e o estar vivo.

– “Sim, um pássaro ferido está vivo e por isso tem de ir para a Caixa do Vivo para ficar bom.” (Rodrigo)

O Rodrigo presenteou-nos aqui com uma solução inesperada, cuja lógica me parece impecável! Também aqui todos o alunos escolheram colocar o pássaro na Caixa das Coisas Vivas

Cabelo

– “O cabelo está vivo porque está preso à nossa cabeça, quando se desprende e sai morre.” (Matilde)

– Está vivo porque está preso?

Com esta pergunta procurei focar um conceito usado pela Matilde que pode levantar alguns problemas à turma: a relação “estar preso à cabeça” e “estar vivo”.

– “Não pode ser, um chapéu também está preso à nossa cabeça e não está vivo.” (Inês)

A Inês incentivada pela minha pergunta encontrou um contra-exemplo que põe em causa a relação estabelecida pela Matilde.

– “Não está preso não. Podemos puxar e ele sai.” (Matilde)

A Matilde defendeu a sua posição críticando o contra-exemplo.

– “Mas se o colarmos ele fica preso e não está vivo.” (Inês)

Mas a Inês é persistente e aqui mostrou que já é capaz de raciocínio filosófico bastante avançado. Ao mostrar a pertinência do seu contra-exemplo através de uma hipótese a Inês tirou a discussão do meramente factual e colocou-nos no plano das hipóteses, onde a filosofia melhor se move. Por outras palavras, no que à nossa investigação diz respeito não interessa se na realidade o chapéu está preso ou não à cabeça pois mesmo que o chapéu estivesse preso à nossa cabeça ele continuaria a não ser uma coisa viva, como tal dizer que o cabelo está preso à cabeça, por si só, não prova que o cabelo é uma “coisa viva”.

– “Não, o cabelo está morto. Se o tirarmos da cabeça ele continua a crescer. Por isso cresce mas não está vivo.”

– E por que é que achas que o cabelo está morto?

Uma pergunta com um “porquê” serve para pedir uma razão.

– “Porque o lavamos! Se não o lavarmos fica a cheirar mal, por isso está morto.”

Mais uma vez a lógica do raciocínio parece-me impecável!
Aqui não houve consenso dividindo-se o grupo entre aqueles que acreditavam que o “cabelo” é uma “coisa Viva” e aqueles que acreditavam que é uma “coisa não Viva”. 
Por esse motivo o destino do cabelo foi a Caixa do Mistério. Os alunos ficaram de levar a Caixa do Mistério para casa para discutir com os pais em que caixa colocar o “cabelo”.

 

O Vento

– “Está vivo porque sopra muito.” (Mauro)

– “Não está vivo porque o vento está em todo o lado.” (Afonso)

– “Sim, concordo com o Afonso. Como o sol, também está em todo o lado e não está vivo.” (Raúl)

– “Mas o vento está “mesmo” em todo o lado. O sol só o vemos em todo o lado mas está só num sítio.” (Afonso)

Como viram o “vento” também nos deu alguns problemas (e os filósofos adoram problemas!). Não conseguimos decidir em que Caixa o colocar por isso foi fazer companhia ao “cabelo” para a Caixa do Mistério. Deixámos para outra altura a discussão sobre a caixa onde colocar o Sol. Outro mistério!

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2 thoughts on “CAIXA DE PANDORA: A Caixa da Vida

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