Filosofia com Crianças – Manhã filosófica no Sardão 1/3

Problemas com o Universo: Galáxias, Dinossauros, Pontos Pretos e Minúsculos, Estojos e Nada


Da janela da minha sala vejo o Rio Douro. Do outro lado do rio encontra-se a freguesia de Oliveira do Douro, em Gaia, onde desde 1879 está instalado o Colégio do Sardão.

Da janela da minha sala não vejo o Colégio mas conseguia imaginá-lo enquanto, à noite depois do jantar, preparava as sessões de Filosofia com Crianças da manhã seguinte com as três turmas do 4º ano, os finalistas do Colégio. Sabia o que me esperava e sabia também que dali só podia sair coisa boa e não me enganei. Ora leiam.

Aviso: Nestas notas alterei os nomes dos alunos mas mantive o teor das suas intervenções.

A primeira sessão começou pelas 9h30 com a turma 4ºA. Sem perdermos tempo avançámos logo para a pergunta que nos iria ocupar durante esta sessão.

O que havia antes do Universo? – Foi esta a pergunta que deu início ao Diálogo Filosófico.

Todos leram as suas respostas mas só depois de ultrapassados os receios e inseguranças iniciais de alguns alunos que viam nesta resposta mais um exame aos seus conhecimentos científicos que um convite a produzirem um pensamento próprio. O que queremos numa sessão de Diálogo Filosófico (com crianças ou adultos) não são respostas certas mas hipóteses que nos permitam pensar e aprofundar ideias.

Estes momentos iniciais são fulcrais em qualquer sessão de Filosofia com Crianças, pois é aqui que marcamos o tom da sessão mostrando-lhes que não estamos ali para os avaliar e repreender caso errem mas para pensar com eles e permitir que se ajudem mutuamente nesse processo. Usar o termo “hipótese” em vez de “resposta” para nomear as contribuições dos alunos ajuda-nos a conseguir isso mesmo criando uma espécie de “campo de testes”, um espaço livre de erros para as ideias dos alunos.

Das mais de vinte respostas produzidas o grupo escolheu por votação seis que se destacavam pela sua originalidade e analisou cada uma delas para descobrir se eram boas hipóteses.

 

– Antes do Universo havia Estrelas, Galáxias e Planetas – arriscou o Rui.

 

– Não concordo com o Rui, porque isso já é o Universo e não podia existir antes do Universo – criticou o Vasco.

O grupo aceitou bem esta crítica do Vasco, incluindo o autor da primeira hipótese, o Rui. Tínhamos de continuar a pensar e foi o que fez o João

 

– Antes do Universo havia dinossauros e homens das cavernas.

Nesta altura levantaram-se uma série de dedinhos ansiosos por criticar esta ideia. Foi dado ao João o poder de escolher um dos seus “críticos” mas não sem antes percebermos que aqueles que nos criticam são os nossos melhores amigos pois querem impedir que erremos. O João escolheu a Mariana.

 

Antes do universo os dinossauros e os homens das cavernas não tinham onde estar, por isso não podiam existir.

Mais uma vez não se levantaram objecções a esta crítica e a investigação continuou.

Depois de alguma hesitação a Matilde leu-nos a sua resposta.

 

Eu acho que havia um ponto preto que depois explodiu.

Não pode ser, pois se era preto, depois de explodir tudo ficava preto.

Esta imaginativa crítica da Ana também foi aceite pela maioria do grupo, no entanto alguns alunos consideraram que já não se aplicava à teoria do “ponto minúsculo” avançada pela Diana e que era uma sofisticação da teoria do “ponto preto” da Matilde.

Havia um ponto minúsculo que depois explodiu.

“Pretismo” e “Minusculismo” foram os conceitos escolhidos para distinguir e dar um nome a cada uma destas teorias.

Para esta teoria foi preciso pensar num novo argumento que o refutasse. Alguns alunos ficaram convencido com a engenhosa refutação do Gil.

Não concordo com o “minusculismo”. Esse ponto minúsculo também era o Universo. Um Universo muito pequeno, mas era o Universo. Aqui podemos usar a primeira crítica à hipótese do Rui:

“Isso [o ponto minúsculo] já é o Universo e não podia existir antes do Universo.”

Para o fim o grupo deixou duas hipóteses que sobressaiam pelo seu carácter misterioso.

Antes do Universo havia o Vazio – a hipótese da Ana.

A sua amiga, a Inês, avançou com uma teoria (Semelhante, ou não? É o que vamos ver).

Antes do Universo não havia nada – disse.

– Qual a diferença entre as hipóteses da Ana e da Inês? – Perguntei.

– Nenhuma. Estas hipóteses dizem a mesma coisa mas por palavras diferentes. Vazio e Nada são o mesmo – disse o Pedro.

– Não são não – respondeu a Ana segura de si.

– Qual é a diferença, Ana? – Perguntei.

O Vazio é vazio e o Nada é nada – respondeu.

– Hum… Consegues dar um exemplo de Vazio e de Nada?

Sim, consigo. O Vazio é como ter um estojo sem nada lá dentro. Está vazio.

– O Nada é não existir estojo, nem sala, nem nós, nem nada – esboçando um sorriso de quem sente que esteve à altura da situação.

– Então antes do Universo era como um estojo vazio? – Insisti.

– Sim, era.

Mais uma vez o Pedro pediu a palavra pois não tinha ficado convencido com a hipótese da Ana.

Não pode ser – afirmou confiante. – Se havia um estojo esse estojo era o Universo, e aí temos de pensar o que havia antes do estojo.

Só pode ser Nada, a hipótese da Inês tem de estar certa – disse o Gil assertivo.

Alguns alunos não se mostraram totalmente convencidos com esta ideia de que antes do Universo “não havia Nada”.

– Tinha de existir alguma coisa – ouviu-se dizer ao fundo.

No entanto já não havia tempo para investigar mais. Deixei os alunos a discutir no intervalo este problema metafísico inquietante e aparentemente irresolúvel. É este o efeito da Filosofia, inquieta e não nos dá respostas, ou antes, inquieta porque não nos dá respostas.

Deixei o 4ºA e dirigi-me umas salas ao lado para o 4ºB onde me esperava outro Diálogo Filosófico igualmente inquietante mas agora acerca do Tempo. (ver 2ª parte)

 

 

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3 thoughts on “Filosofia com Crianças – Manhã filosófica no Sardão 1/3

      1. Oi Tomás
        Recebi uma proposta da minha empresa para trabalhar com crianças da faixa etária, entre 11 anos até 14 anos e este
        trabalho de vocês é uma luz para o meu caminho, pois ainda sou estudante de Filosofia.
        E infelizmente aqui no Brasil, agora é que está se abrindo os programas de Filosofia para crianças e adolescentes e as secretarias de educação estão deslocando mestres de outras áreas, como professores de História e Sociologia, o que convenhamos não é a mesma coisa.

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