Exercício criado por Peter Worley em “The If Machine”
Com este exercício* “A Cadeira” pretendemos fomentar nas crianças ao mesmo tempo que um certo espanto filosófico (a curiosidade é o início da filosofia) um maior à vontade para arriscarem ideias e pensamentos um pouco “fora do quadrado” (filosofia é pensar o impensável).Para isso não há nada como tentar pôr em causa o que à primeira vista nos parece óbvio, uma cadeira, por exemplo. Ao problematizar o conceito de algo tão comum como uma cadeira estamos a convidar os alunos a pensar (e nós a pensar com eles ) naquilo que faz de uma cadeira uma cadeira:
o seu uso real?; uso por quem?; por quem o fez?; o uso para o qual foi pensado?; o seu nome?, etc.
Inicia-se a sessão colocando uma cadeira no meio do círculo.
– Meninos, o que é este objecto aqui à nossa frente?
– Uma CADEIIIIIRAAAAA, ouve-se em coro.
– Têm a certeza?, perguntamos.
– Siiiiim, respondem.
– Bom, vamos ver se continuam a pensar assim no fim da sessão de filosofia.
De seguida conta-se-lhes uma pequena história:
– Imaginem que não estamos aqui nesta sala mas num jardim muito bonito lá fora. No meio do jardim está este objecto (aponta-se para uma cadeira).” – alguns alunos fecham os olhos como que a imaginar que estão no jardim.
Agora imaginem que está muito sol e que um senhor, cansado de andar ao sol se quer sentar para descansar. Olha para este objecto no meio do jardim e senta-se. Se perguntarmos ao senhor onde está sentado o que nos responde?
– Numa CADEIIIRAAA! – respondem outra vez em coro**.
– Como é que sabem?
– Por que o senhor se sentou nela – alguém responde.
– Muito bem. Então este objecto continua a ser uma cadeira?
– Siiimm.
Continua a história:
– Agora imaginem que anda um cão pelo parque, também ele cansado de andar ao sol, e que vê neste objecto uma excelente forma de se esconder do sol enfiando-se debaixo dele. Se lhe pudéssemos perguntar o que era este objecto e se ele pudesse responder-nos o que acham que diria? ***
– Uma cadeira, respondem alguns com segurança.
No entanto outros hesitam pois “algo não estava bem” em dizer que aquele objecto continuava a ser uma cadeira. Começou a instalar-se o desacordo no meio do grupo. E assim estavam lançadas as sementes do diálogo.
– Aquilo para o cão não pode ser uma cadeira pois ele não se senta nela.
– Pois, para o cão este objecto é uma casota.
– Não pode ser uma casota pois ele não vive nela, defendiam outros.
– Então é um guarda-sol, pois só vive lá às vezes, ouviu-se.
– Bom, dissemos, então agora já temos pelo menos três objectos à nossa frente. Quais?
– Uma cadeira para o senhor e uma casota ou um guarda-sol para o cão, respondem.
Vou deixar o resto da história ( e da sessão) por aqui. Digo-vos apenas que falámos ainda de formigas para quem as cadeiras são gigantes, extra-terrestres que “não têm rabo para se sentar mas têm umas cabeças grandes, tão grandes que, num dia de sol como este, aquela cadeira podia ser um… ?”
– Um quê?
Uma sugestão:
pratique este exercício filosófico com os seus filhos e com as cadeiras lá de casa ou com outros objectos. Por exemplo, “O que é uma escova de dentes para uma formiga? E para um micróbio? E para um gigante? E para um elefante? E para a pasta dos dentes? E para os nossos dentes?”
Continue a pensar com os seus filhos. A filosofia é um caminho que nunca mais acaba!
* Esta sessão é uma síntese de várias sessões onde desenvolvo o projecto “Filósofos a Brincar” (Filosofia com Crianças dos 4 aos 9).
** Num certo sentido estas sessões de Filosofia com Crianças pretendem combater esta tendência das crianças para responder em coro. Uma tendência tantas vezes cultivadas pelos próprios professores e que revela, por parte das crianças, uma procura pelas respostas que o professor quer ouvir. Algo que não deve acontecer numa sessão de Filosofia com Crianças onde o professor não deve esperar nada parecido como uma “resposta correcta” por parte das crianças.
*** Ao convidarmos os alunos a pensarem estes “se´s” estamos a levá-los a pensar hipoteticamente. O pensamento hipotético, ou condicional, é uma competência de raciocínio que nos ajudará a aprofundar filosoficamente muitos dos problemas que forem surgindo durante as sessões de Filosofia.
Tomás Magalhães Carneiro (Grupo OFFilo – IF)