QUANDO É QUE DEVEMOS ACEITAR A AUTORIDADE?

Diálogo Socrático realizado na Formação em Filosofia Prática e Pensamento Crítico na Flup (1ª Edição 2010).

Relatório Crítico da Formanda Ana C. B.

 

O DIÁLOGO SOCRÁTICO

Sua importância e legitimidade para um falar partilhado

Fazer Filosofia, filosofar, partilhar conceitos através do diálogo. Esse é um dos maiores desafios do filósofo ou do aprendiz de filosofia. A verbalização, a argumentação, a partilha de ideias envolve não só o poder lógico do pensamento, mas, igualmente, a capacidade do sujeito singular partilhar as suas ideias, torná-las visíveis ao próximo e com ele adiantar-se no pensamento.

Em minha opinião, essa é a consistência e a legitimidade maior do diálogo socrático, um processo maiêutico a partir do qual parimos palavras de debate, de crítica, que vamos paulatinamente enlaçando num “discenso comum”. O ponto de partida do diálogo socrático são os exemplos concretos da vida do ser humano, neste caso formativo, da vida dos formandos, aprendizes em fazer filosofia. A experiência de vida está em nós, brota de nós e é a partir dela que podemos começar a orientar-nos no pensamento. Pela escolha comum uma pergunta surge:

“Quando devemos aceitar a autoridade?”

Para lhe responder experiencialmente e argumentativamente oito passos filosóficos temos de seguir como via, caminho: 1. pensar em exemplos universalizáveis; 2. honestidade intelectual (sem agendas escondidas); 3. clareza e brevidade; 4. participação activa; 5. compreensão total; 6. ajuda mútua (entre os membros do grupo de discussão); 7. abstracção regressiva (passagem do exemplo à construção verbal do conceito); 8. persistência (nunca desistir ou escudar-se na dúvida).

O primeiro exemplo analisado pelo grupo foi o exemplo do João (autoridade por competência funcional): Uma aluna questiona o João se vão haver ou não exames intermédios de Filosofia na Escola? O João, enquanto Professor, sabe do parecer favorável ou não do Conselho Executivo da escola acerca desta questão, mas não revela a resposta à aluna em prol da autoridade funcional do Conselho Executivo da Escola. Deste primeiro exemplo, surge uma primeira definição do conceito de autoridade:

“Devemos aceitar a autoridade quando esta tem a competência adequada e há um reconhecimento pessoal da sua necessidade.”

Através da abstracção regressiva conseguimos apropriar a ideia-chave do exemplo e chegar a uma definição de autoridade, definição esta que não abarca o todo, mas que contém implícita a necessidade de respeitar a autoridade da Escola no primeiro exemplo dado pelo João. Contudo, a situação tomou contornos mais filosóficos quando outros exemplos se foram adentrando no diálogo.

No seguinte exemplo da Helena (autoridade por sujeição – imposição à autoridade): Um dia, ao deixar o filho na Escola, Helena foi abordada por um polícia que advogava que o seu carro estava mal estacionado: “não pode estar em cima do passeio”. Helena retirou o carro. Mais tarde, repara que uma senhora de jipe estaciona no mesmo lugar onde teria sido anteriormente advertida pelo polícia. O polícia nada diz à senhora do jipe e Helena reclama com o polícia colocando em causa a sua autoridade. O polícia não gosta da abordagem de Helena, e ambos afastam-se, sobretudo Helena com medo de represálias… Seguindo este exemplo a primeira resposta à pergunta “quando devemos aceitar a autoridade” já não se adequava. E, neste horizonte, a reformulação da resposta centrou-se numa outra pergunta:

Será a sujeição da Helena à autoridade do polícia, embora ilegítima, uma forma de aceitação?

De facto, Helena não se rebelou contra a apatia do polícia em relação à senhora do Jipe, sujeitou-se, aceitou a apatia do polícia com medo das consequências… E assim [chegámos à resposta com que demos por terminado o nosso Diálogo Socrático]:

“Devemos aceitar a autoridade quando lhe reconhecemos a competência adequada ou quando nos sujeitamos à sua necessidade.”

A dúvida no caso da Helena – na relação sujeição/aceitação – não paralisou a construção da nossa resposta, mas empoderou-a, ou seja, abarcou outras dimensões da aceitação da autoridade por nós, primariamente, impensadas.

As aporias [sempre presentes num bom diálogo socrático] encaminharam-nos para a verdade, pelo menos para o aclarar de um caminho percorrido na aposta segura dos argumentos do grupo sobre a questão da autoridade, sem medo de represálias…

Nota Final: Este Diálogo Socrático teve a duração de 9 horas ocupando 1/3 do total de horas da Formação (27h)

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