Filósofos a Brincar – Perguntas com porquês

Filosofia com Crianças no Jardim de Infância Chapéu de Palha

(4/5 anos)

Objectivos do curso Filósofos a Brincar.

Formular questões incentivando a curiosidade. 

– Desenvolver o pensamento autónomo e criativo 

– Pensar sobre as suas experiências particulares (tomar banho sozinho, brincar, etc.)

– Aprender a ter paciência e a “perder tempo” com os problemas com que se deparam.

– Tornar os alunos fecundos, i.e., cheios de dúvidas e ávidos de respostas. O primeiro passo para iniciarem eles mesmos e em conjunto a aventura do conhecimento.

 

Perguntas com porquês

– Por que não podemos desenhar? (Constança S.)

– Por que não nos podemos mexer? (Raúl)

Por que é que podemos desenhar? (Rodrigo)

– Por que não podemos brincar? (Pedro)

– Por que é que os adultos não podem brincar? (Constança L.)

– Por que é que não podemos mexer no que os professores têm? (João)

– Por que é que não podemos mexer nas coisas que não estão quietas? (Tomás)

– Por que é que não se pode tomar banho sozinho? (Mafalda)

– Por que é que não se pode mexer nos livros dos meninos e das meninas? (Sofia)

Este exercício “Perguntas com porquês” além de ser uma forma de envolver toda a turma na investigação filosófica (todos podem sugerir um tema que lhes interesse) é também uma estratégia para atenuar um pouco o receio à participação por parte de algumas das crianças (fazer perguntas é-lhes muito natural e fácil). É uma forma também de termos à nossa disposição um leque grande de “pontas” ou  temas possíveis por onde dar início à nossa investigação.

Começámos por tentar responder à pergunta da Mafalda: Por que é que não se pode tomar banho sozinho?

Só as crianças é que não podem”, disse-nos o Raúl enérgico a abrir o debate. “E quando é que vão poder?” A Constança L. antecipou-se “Só quando ficarem adultos.” E quando é que isso vai ser? “Quando comermos muito”, concluiu o João.

Insatisfeito com a sua resposta inicial o Raúl lançou outra hipótese: “Não podemos tomar banho sozinhos porque caímos”, e a Sofia completou “Não podemos tomar banho sozinhos porque escorregamos.”

Hum…! E isso não é a mesma coisa, escorregar e cair? “Nãooo!”, “Siiim!”, dividiu-se a turma.

Tentámos aprofundar um pouco a seguinte questão: “O Raúl e a Sofia disseram a mesma coisa ou disseram coisas diferente?”

“Não dissemos a mesma coisa. Eu disse escorregar e o Raúl disse cair.” (Sofia)

“Escorregar é cair e magoarmo-nos.” (Rodrigo)

“Escorregar é antes de cair.” (Constança L.)

Após esta breve análise conceptual decidimos passar para outra questão, a lançada pelo Tomás: “ Por que é que não podemos mexer nas coisas que não estão quietas?

Neste ponto encontrámos alguma dificuldade em entender-nos quanto ao que constituia o conjunto das coisas que não estão quietas, pelo que pedimos ao grupo exemplos de coisas que não estão quietas. “Vamos procurar coisas nesta sala que não estão quietas.”

“Aquele macaco (de plástico)”, apontou o Rodrigo.

“Mas aquele macaco está quieto. É um boneco.” (João)

“Mas lá fora (o macaco real) não está quieto. Está sempre a mexer-se”, respondeu o Rodrigo mostrando que aos 4 anos uma criança já domina bem as subtilezas do pensamento analógico, neste caso as semelhanças conceptuais entre o macaco de plástico (a representação) e o macaco real (o representado).

Como o macaco real não estava presente poderia tornar mais difícil a nossa tarefa de descobrirmos por que é que não podemos mexer nas coisas que não estão quietas e por isso continuámos à procura de coisas nesta sala que não estão quietas.

Era uma tarefa realmente difícil pois tudo na sala parecia estar parado, mas com a ajuda da educadora Sara conseguimos identificar umas nuvens de cartão suspensas por um fio à janela e que se moviam ligeiramente se olhássemos com atenção.

Dirigimos, então, a nossa investigação para as nuvens. “Então, não podem mexer naquelas nuvens?”

“Nãaaao!” Responderam em uníssono. “E porquê?”, perguntei.

“Porque estão presas com fita cola e se lhes tocarmos caem”. “Porque os adultos não deixam”. “Porque estão presas por um fio”. “Porque são de papel”. “Por que fomos nós e as professoras que as pusemos lá.” Foram respondendo os alunos de forma mais ou menos confusa, entusiasmados por finalmente todos terem algo de relevante a dizer para a nossa investigação uma vez que todos participaram no fabrico e afixação das nuvens de cartão e, dessa forma, todos sentiam ser uma espécie de autoridade sobre o assunto.

“E as nuvens lá de fora? Por que é que não podem tocar nelas?”

Após uns breves segundo de reflexão o grupo percebeu a ligeira mudança de sentido no conceito de “possibilidade” que esta nova pergunta acarretava. O “não poder” tocar nas nuvens de cartão não é o mesmo tipo de “não poder” tocar nas nuvens lá de fora. No primeiro caso trata-se de uma impossibilidade imposta por regras (“não posso tocar porque não me deixam”), no segundo caso de uma impossibilidade física (“não posso tocar porque não consigo.”)

“Não podemos por que se formos lá, às nuvens, caímos no chão e magoamo-nos”, arriscou o Raúl, que fazia questão de ser sempre o primeiro a responder. “Não podemos porque se formos lá caímos no rio”, segundo a Sofia. E ainda “não podemos porque se formos lá caímos no mar”, disse-nos a Constança S.. Já para o Rodrigo simplesmente “não podemos porque estão muito alto e não chegamos lá.”  

Foi interessante ver como as crianças rápidamente compreenderam a mudança para este novo sentido do conceito de possibilidade o que nos diz muito sobre o conhecimento que estas crianças já possuem sobre o funcionamento da língua e o significado das palavras.

No fim da sessão os alunos desenharam qualquer coisa que tivessem gostado de falar durante a sessão de filosofia. Os temas escolhidos foram as nuvens, as pedras, o rio e o mar, os barcos e um menino magoado (de cair na banheira, imagino). Os desenhos serão depois entregues aos pais como pretexto para continuarem a investigação em casa: “Por que é que não podemos tocar nas nuvens?”, “Por que é que não podemos tomar banho sozinhos?”, etc.

 Nota: estas sessões de Filosofia com Crianças decorrem todas as primeiras sextas-feiras de cada mês no Jardim de Infância Chapéu de Palha no Porto.

 

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