Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

Jovens Filósofos: O homem é o lobo do homem

Há uns meses atrás coloquei aqui a sugestão de um exercício para ajudar os alunos a analisar criticamente as suas ideias, neste caso as suas interpretações de uma conhecida frase de Thomas Hobbes, “O homem é o lobo do homem.”

Os alunos a quem apresentei este exercício na Oficina Jovens Filósofos na Universidade Júnior do Porto têm entre 12 e 14 anos pelo que nenhum deles tinha ainda contactado com a disciplina de filosofia, muito menos com a filosofia de Thomas Hobbes. Em vez de ser um obstáculo esse total desconhecimento por parte dos alunos do contexto a que esta frase normalmente é associada revelou-se ser uma oportunidade para a descoberta (ou invenção) de vários significados possíveis para a frase de Hobbes.

Exercício: O homem é o lobo do homem

1 – O que significa a frase “O homem é o lobo do homem”? (max. 15 palavras)

2 – Todos os alunos lêem a sua frase. Escolher e escrever no quadro uma das interpretações.

3 – Nova leitura. Os alunos escolhem uma interpretação diferente da anterior.

4 – Com as duas interpretações à sua frente no quadro os alunos devem explicar porque são diferentes, ou seja, o que as distingue.

5 – Analisar as diferentes interpretações propostas pelos alunos. Os alunos devem encontrar e propor eles mesmos as diferenças entre as várias interpretações que se podem distinguir pelos diferentes sentidos que dão aos termos da frase inicial. Assim “homem” pode ser entendido como um indivíduo, a sociedade, a humanidade, etc. E “lobo” pode ser entendido como o inimigo, um protector, um sentimento, etc. Os alunos podem ainda encontrar diferenças nas interpretações não no seu conteúdo mas na sua forma, no seu âmbito ou no seu contexto. Assim os vários tipos de interpretações podem ser classificadas como metafóricas ou literais, positivas ou negativas, particulares ou universais, etc.

Nota Final – Não interessa que os alunos encontrem a “interpretação verdadeira” (ou aquela que o professor considera a verdadeira), nem mesmo que compreendam o significado que Thomas Hobbes atribuiu a esta frase. O objectivo deste exercício é que os alunos pensem por eles mesmos em possíveis interpretações, que encontrem diferenças entre elas e as classifiquem e que, para isso, entrem em diálogo acerca dos conceitos adequados a cada uma dessas interpretações (o que as distingue, em que é que se assemelham). Este é um exercício para dialogar e pensar e não um exercício para aprender interpretações canónicas ou para o professor passar as suas ideias e crenças aos seus alunos.

Como escrevi no artigo que deu origem a este exercício para os alunos pensarem o professor deve ter a humildade de se calar. Ao calar-se o professor está a permitir aos seus alunos a descoberta de algo tão ou mais importante que a matéria que está habituado a ensinar: a descoberta daquilo que os seus colegas e amigos pensam e como pensam o que pensam.

Para muitos alunos (assim como para muitos adultos) a experiência do diálogo é algo inteiramente nova e é uma surpresa quando descobrem que passaram uma vida inteira sem escutar os outros, sem saber o que estes realmente pensam e que pensam de forma bastante diferente da sua. Surpreendente é, também, descobrir que esses pensamentos dos outros são tão ou mais válidos que os nossos próprios pensamentos. Essa descoberta daquilo que os outros pensam é algo que passa ao lado de quem leva uma vida inteira sem dialogar e sem escutar o que os outros têm para nos dizer.

Deixo-vos em seguida as interpretações da frase de Hobbes pelos Jovens Filósofos de hoje. Entre parêntesis estão os conceitos centrais que os alunos atribuíram a cada uma das interpretações apresentadas.

1 – O homem mais forte ataca o homem mais fraco. (violência, poder, negativa)

2 – O homem está a destruir-se a si próprio. (auto-destruição; destruição universal)

3 – O homem cria o seu próprio caminho. (criação, independência)

4 – Todas as crianças são protegidas pelas suas mães. (protecção, instinto, positiva)

5 – O homem é, como o lobo, um animal ora dócil, ora perigoso. (contraste)

6 – O homem cria os seus próprios medos. (destruição pessoal)

7 – O homem é inimigo do outro homem. (desconfiança; guerra; ódio)

8 – O homem é líder de si mesmo. (liderança; independência; liberdade; egoísmo)

9 – O homem pode ser selvagem para outro homem. (agressividade)

10 – O homem tem medo de si mesmo. (insegurança; incerteza)

About these ads

3 Comentários»

  José Baptista wrote @

Gostei, e como estudante de filosofia guardei como apontamento, como uma ótima ideia para o futuro. Porque não hei-de discutir isto, daqui a alguns anos, com o meu neto, que daqui a 4 dias faz um mês de vida?
Apresente-nos mais ideias, é o meu pedido.

  Tomás Magalhães Carneiro wrote @

Olá José,

parabéns pelo seu neto. Da minha parte espero um segundo filho (filha) também por uma questão de dias. É para eles que preparamos o terreno e espero que dêem muito melhor conta do recado que nós estamos a dar (lobos e homens, leia-se).

Quanto a mais ideias para diálogos, dê uma vista de olhos no link “Caixa de Pandora” aqui no blog.

um abraço,
Tomás

  José Baptista wrote @

Obrigado pela sua sugestão e que a bebé venha de perfeita de saúde. que a mãe tenha uma hora com menos de 60 minutos, para felicidade da pai babado por uma menina (também tenho uma e 3 rapazes). Felicidades para todos.
José Baptista


Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 137 outros seguidores

%d bloggers like this: