Filosofia Crítica

"Levar a filosofia às pessoas, levar as pessoas a filosofar." tiomas@yahoo.com

Arquivo de Julho, 2011

JOVENS FILÓSOFOS_”NÃO PERGUNTES, PENSA!”

Nesta sessão procurámos fazer um trabalho sobre as atitudes filosóficas dos alunos (ouvir o outro, pensar sobre o pensar, ganhar confiança e autonomia de pensamento, etc.).

Neste pequeno excerto da sessão podemos ver como os alunos têm tendência a procurar confirmação para as suas dúvidas no professor em vez de procurarem por eles resolver essas mesmas dúvidas.

Com a técnica aqui utilizada de pedir ao aluno para reformular claramente a sua dúvida e pensar um pouco sobre ela percebemos que a maior parte das dúvidas desaparece pois, na verdade, nunca chegaram a ser realmente dúvidas mas formas de manifestar a sua estranheza ou incerteza face ao exercício pedido.

Filósofos a Brincar_ O que havia antes do Universo? 2/2

Filósofos a Brincar_O que havia antes do Universo? 1/2

Sessão de Filosofia com Crianças (10-12 anos)

QUE PERGUNTA FARIAS A DEUS_JOVENS FILÓSOFOS 2011

Com o objectivo de incentivar a curiosidade natural dos nossos alunos e de os enviar numa investigação filosófica iniciada por eles mesmos lançámos-lhes o seguinte desafio:

QUE PERGUNTA FARIAS A DEUS?

Estas foram as suas perguntas

1 – Como é o Paraíso?

2 – O que vem depois da morte?

3 – Por que é que existimos?

4 – O que existiu antes do Universo?

5 – Qual vai ser o meu futuro?

6 – Como é que o mundo foi criado?

7 – O Universo acaba?

8 – O Universo é infinito?

9 – Por que é que céu não acaba?

10 – Por que é que não nascemos ensinados?

11 – Por que é que temos que respirar para viver?

12 – Em que ano o mundo vai acabar

13 – Posso ter super-poderes?

14 – Qual a forma de ser imortal?

De seguida quisemos que os Jovens Filósofos nos dissessem quais destas perguntas são perguntas filosóficas, i.e., perguntas que “podemos tentar responder por nós mesmos apenas pensando sobre elas sem recorrer à experiência.”

O grupo eliminou com reservas a pergunta 8 (“O Universo é infinito”) e sem grandes dúvidas as perguntas 9, 11 e 12.

Houve ainda uma interessante troca de argumentos sobre que tipo de perguntas são as perguntas 1 e 14

1 – “Como é o Paraíso?”

- “Não é uma pergunta científica – defendeu uma aluna – pois não temos nem nunca teremos qualquer experiência do Paraíso.”

- “Não concordo – respondeu outra – pois aquelas pessoas que estão meio-mortas, congeladas, podem estar no Paraíso agora e quando a ciência as ressuscitar elas contam-nos. Logo, pode ser uma pergunta científica.”

- “Não é nem filosófica nem científica, pois nem a ciência nem nós podemos responder-lhe, só Deus.”

14 – Qual a forma de ser imortal?

“Esta pergunta pode ser filosófica ou científica dependendo do sentido em que foi feita. Se é no sentido literal de vivermos para sempre, então é científica. Se é no sentido de não sermos esquecidos então é filosófica.”

Após estes debates preliminares a pergunta escolhida pela maioria do grupo para o Diálogo foi a seguinte:

4 – “O que existiu antes do universo?” 

O que se segue é um pequeno excerto de um debate entre algumas alunas que nos faz lembrar as tentativas dos filósofos pré-socráticos (2500 a.c) em encontrar respostas racionais para os grandes mistérios da existência. De alguma forma estas alunas partem em vantagem pois já têm algum conhecimento de teorias científicas muito conhecidas que procuram explicar aquilo que elas querem saber. No entanto a forma como procuram dar sentido e, inclusive, criticam essas mesmas explicações científicas que para elas são pouco menos que “mágicas” é absolutamente desconcertante pela lucidez, criatividade e coragem em arriscar ideias novas e, até, um pouco loucas. Estas características muito comuns nas discussões filosóficas com os mais pequenos (os jovens Filósofos têm entre 12 e 14 anos) é algo muito difícil de encontrar nas sessões que modero com adultos mas, paradoxalmente, são essas características pouco comuns que fazem os Grandes Filósofos. O que podemos concluir daqui? Que os Jovens Filósofos são Grandes Filósofos.

Alguém duvida? Então leia o que se segue.

- “Antes do Universo, como não havia estrelas como o nosso Sol, havia o frio (elemento primordial -minha nota).  Esse frio foi aumentando tanto, pela falta de calor, que acabou por causar uma enorme explosão, o Big Bang.”

Instada pelas colegas a explicar-se um pouco melhor esta aluna avançou com esta imagem improvisada.


- “Como esta mosca aqui na sala à nossa frente o Universo era um espaço vazio e um corpo minúsculo. Com o frio essa mosca explodiu e formou os planetas e as galáxias.”

- “Mas então o Universo já existia antes da explosão e da mosca. Era esta sala vazia.”

- “Se era vazia, não tinha nada. Logo não existia. O Universo não tem paredes.”

- “Não concordo com a teoria do Big Bang, pois se o que havia no início do Universo era esse corpozinho minúsculo (a mosca) e mais nada, então onde é que estava esse corpo minúsculo? Tinha de haver algum sítio onde ele estava. por isso o Universo existiu sempre.”

- “Ou então havia um planeta macho e um planeta fêmea e reproduziram-se gerando todos os outros planetas.”

É importante sublinhar que aqui interessa-nos pouco (ou nada) ensinar às crianças as mais recentes teorias científicas acerca da criação do universo até porque esta é uma questão filosófica que procura saber aquilo que antecede o que qualquer teoria científica algum dia nos poderá dar: o que existiu antes da criação do universo. Julgo que, neste ponto, estamos nos limites da compreensão humana e é muito bom ver estes miúdos a chegarem lá por eles mesmos.

O nosso objectivo (a nosso ver plenamente atingido) era simplesmente pôr os alunos em contacto e a pensar sobre estas questões primordiais e inquietantes da mesma forma que os primeiros filósofos e cientistas se puseram a pensar sobre elas, ou seja, sem qualquer conhecimento científico sólido e com uma única arma para lhes responder: o pensamento especulativo.

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